Merkel X Schulz ficaram devendo aos eleitores em único “Duelo” na TV durante campanha eleitoral

Merkel X Schulz ficaram devendo aos eleitores em único “Duelo” na TV durante campanha eleitoral

Fátima Lacerda

04 Setembro 2017 | 17h24

©Reuters

As críticas a Angela Merkel foram muitas, no preâmbulo do que a emissora de TV denominaram de “Duelo” entre Merkel e o social-democrata Martin Schulz.

A equipe que coordena a campanha da governante mais influente da Europa ditou o formato do único debate a ser feito até o dia 24, dia em que os alemães serão convocados as urnas em eleições que elegem o novo parlamento. De acordo com o sistema de democracia parlamentar, o partido com a bancada mais expressiva em termos de números de assentos, indica o chanceler. 

Tapete vermelho para “Angie”

Os jovens da “União Jovem” (Junge Union, em alemão) estavam lá para esperar a chanceler chegar de carro blindado. O estúdio, onde o programa foi realizado fica localizado no bairro leste de Adlershof, ou seja, lá onde o judas perdeu as botas. Que sorte que Rob Salberg, meu colega holandês, do “Telegraph” Amsterdã, me deu uma carona de ida e de volta. 

Mesmo com essa lonjura toda: de um lado, os jovens do CDU, partido de Merkel, estavam de sentinela. Assim que o carro avançou para a entrada do prédio, ele começaram a gritar entre “Angie” (como carinhosamente chamada) ou “Chegou a hora! Chegou a hora”. Nas mãos, cartazes que exibiam “Kanzlerin” (chanceler) ou simplesmente “Angela Merkel”. Para que mais?

Do outro lado do asfalto, estava a torcida dos jovens socialdemocratas, Jusos, na sigla. No grupo que até batuque tinha, encontrei naquele amontoado de gritos “Martin, Martin!”, Antonia, uma jovem mulher de 21 anos, com uma desenvoltura de quem está na ativa há tempos. Ela cursa faculdade de Política e Administração na cidade de Potsdam, vizinha de Berlim. A questionei sobre a declaração de Schulz de ser “O chanceler ideal” e eu quis saber porque.

Porque ele é um candidato que trabalha por um país progressivo, pensa no progresso, não fica só olhando pra trás. Mais da metade da população está pior do que há 10 anos atrás e é preciso lutar uma distribuição de bens mais justa neste país. Além disso, Martin Schulz luta pela UE. Não basta só pensar, a gente fica na UE e tá tudo certo. É preciso levantar temas que atingem a Alemanha e pensá-los a partir de uma perspectiva europeia“, nao deixando nenhuma dúvida de que realmente concorda que Schulz é o “chanceler ideal”.

Tempos de campanha

Toda a campanha de Merkel é baseada na dialética de que, não se mexe em time que está ganhando: “Vocês me conhecem”, disse ela no último “Duelo” olhando para a câmera e a fatura fechou. Merkel saiu vitoriosa em 2013.

Na noite de domingo (02) falou a mesma coisa, com palavras diferentes. Ou seja, trocou seis por meia dúzia. Além do discurso requentado, Merkel, se mostrando coerente e fiel ao seu estilo, evitou polêmica, botou panos quentes quando era preciso. Somente em dois momentos, o candidato socialdemocrata, que com somente 28% de intenção de votos está correndo atrás do prejuízo, conseguiu desconsertar a preparadíssima chanceler em dois quesitos: a aposentadoria com 70 anos, que Merkel, depois de um balbuciar atípico, negou de forma absoluta. Mas isso não significa garantia de cumprir a promessa. Em 2009, também concorrendo com um social-democrata, Merkel, falando sobre a introdução de pedágio para nas ruas da Alemanha a serem pagos por alemães e estrangeiros que usam as estradas rodoviárias, ela garantiu: “Sob o meu governo não haverá sistema de recolhimento de pedágio”.

A famigerada “Maut”, como é chamada em alemão, depois de uma odisseia jurídico burocrática passando por Bruxelas, é hoje uma realidade na Alemanha. Na noite de domingo, confrontada por seu adversário sobre a promessa não cumprida, Merkel tentou sair pela tangente: “O sistema de pedágio não atinge usuários alemães”. Mesmo assim. A palavra “Maut”, que mais se tornou um palavrão para um projeto que custou milhões e que tem retorno simplório, é uma realidade. Na realidade, a Maut foi idea do CSU, dos bávaros e Merkel teve que ceder a pressão.

Lista de temas

Quem saiu mais prejudicado nesse debate, com formato rígido e avesso a confrontações e exigido por Merkel que ameaçou não participar do debate se o formato fosse alterado, foi Martin Schulz, mas também o eleitor (especialmente os indecisos). A superfície do ataque não lhe foi dada. Em linguagem futebolística se diria, o adversário não o deixou jogar além do placar estar nada favorável a ele.Merkel já iniciou com vantagem, o chamado “Bônus governante” e Martin Schulz já entrou no campo com um placar de 0 X 3.

No preâmbulo do debate, nenhum analista ou jornalista de plena consciência contava com algo relevante para a mudança de percurso de uma corrida sem graça. O formato rígido do “Duelo” é coerente com todo o estilo de governo de Merkel e os alemães gostam disso. No saguão do centro de imprensa no famigerado bairro de Adlershof haviam expoentes da cultura e política contra ou favor. Muitos ministros do gabinete de Merkel, o chefe da bancada dos social-democratas e também os ministros estavam presentes.

Os quatro âncoras pecaram por sufocar qualquer tentativa de Schulz em confrontar Merkel. Vale lembrar que foi a própria chanceler que negou a mudança de formato para uma confrontação direta com o ambicioso Schulz, que de uma forma esquizofrênica ainda continua afirmando que será “o próximo chanceler da Alemanha”, no tipo o ataque é a melhor defesa ou como expressou na manhã de segunda-feira (03) Michael Spreng, um brilhante analista do jogo político e um jornalista de carreira memorável, além de um dos protagonistas da cena midiática na época em que a capital era em Bonn, à beira do Rio Reno. Foi redator-chefe do Bild am Sonntag, Kölner Express e é bem-vindo convidado em programas de TV.

Ávida por respostas que venho procurando há tempos, uma de minhas perguntas a Spreng foi: “Por que ele faz isso? Por que continua tampando o sol com a peneira?”. Vale mencionar que o excelente analista midiático foi o coordenador de campanha eleitoral de Edmund Stoiber em 2002. “O que a Sra. Acha que ele deve fazer? O que resta é ir para a guilhotina de peito aberto”, declarou Spreng arrancando risadas dos correspondentes estrangeiros que lotavam a sala.

Críticas

Os partidos de pequeno e médio porte criticaram a ausência de temas como Meio Ambiente, especialmente depois da declaracao de Donald Trump sobre o Tratado de Paris. O tema “Educação” passou ao largo pelo “Duelo”, assim como uma das maiores mazelas da Alemanha, o vagar no processo de digitalição e internet para todos. 

Muçulmanos pertencem a Alemanha?

A frase, no afirmativo, é de autoria do ex-presidente Cristian Wulff. Desde o atentado contra os redatores de Charlie Hebdo em Paris, tudo mudou. Muçulmanos, pagando a conta de quem jura está a serviço de Alah sofrem represálias e servem de um adubo bem-vindo para os partidos populistas e de extrema direita. A pergunta que não queria calar é se os praticantes da religião muçulmana “pertencem à Alemanha”. Merkel, em seu estilo de ficar em cima do muro, não negou a frase de Wulff, porém saiu pela tangente.

Turquia

Um dos dois momentos em que Schulz conseguiu deixar Merkel sem palavras, relutante, insegura. Schulz garante que se obtiver o mandato do eleitor alemão e se tornar chanceler, irá pleitear com os parceiros da UE para interrupção imediata das negociações para que a Turquia se torne membro da UE e ainda garantiu cancelar o Acordo de Refugiados, fechado entre Bruxelas e Ancara.

Merkel não perdeu tempo e garantiu: „Eu nunca quis ver a Turquia na UE“, porém Merkel, com o rabo preso com o ditador turco vislumbrou a opção de sanções econômicas.

Com seu posicionamento duro frente ao atual governo turco, Schulz ganhou pontos com eleitores que há meses se perguntam porque o discurso morno da chanceler frente a um país que, atualmente, detém 12 pessoas em posse de passaporte alemão por “motivos políticos”, entre os mais famosos deles, o jornalista Deniz Yücel, há 200 dias atrás das grades sem nem ter tido um processo, muito menos um julgamento. 

Política de Imigração e Refugiados

Nesse momento a Alemanha tem 250.000 refugiados aguardando a deportação do país. Seja porque seu país de origem foi declarado como „país de origem seguro“ (como Argélia e Marroco) ou por terem seus requerimento de asilo político, negado. A âncora quis saber que Merkel continua sendo a „Chanceler da Cultura dos Bem-Vindos“ ou „A Chanceler da Deportação“. Nos dois anos depois da crise que balançou a UE em suas estruturas, Merkel deu um marcha ré em sua então humanista política. Acordos firmados recentemente com países africanos como Líbia e Egito, por exemplo, transferem, de fato, as fronteiras externas da UE para o deserto na África. Um âncora provocou Merkel perguntando se ela gostaria de „fechar as fronteiras externas da Europa“. Em sua pergunta visivelmente tendenciosa, ele serviu cabo eleitoral para os partidos populistas de direita.

EUA e Donald Trump

Botando panos quentes sobre as quase intransponíveis diferenças entre os governos de Washington e Berlim, Merkel declarou querer „trazer os EUA para o caminho certo“ e elogiou o papel dos EUA no Afeganistão com um aspecto cosmético num iceberg de diferenças entre Berlim e Washington. Merkel apelou a Trump para „uma solução diplomática no conflito com a Corea do Norte“.

Schulz, por sua vez, se mostrou irritado com a atividade compulsiva de Trump. „Ele é imprevisível“ e reclamou: „Alguns tuítes de Trump sobre a crise com a Coreia do Sul teria nos colocado à beira de uma guerra“. A sugestão de Schulz para passar ao lago por Washington: „Uma solução para o conflito com a Corea do Norte não será possível com ele“. Ao invés do estilo submisso de Merkel frente a Trump, o social-democrata sugere que a Alemanha procura parcerias „com amigos mexicanos“ e com o Canada.

Os 97 minutos de transmissão ao vivo não tiveram nem o caráter de um debate e muito menos de um duelo. Todas as vezes que Martin Schulz tentava, os âncoras cortavam a iniciativa pela raiz, assim a opinião do jornalista e analista político e midiático, Michael Spreng. „Eu acho horrível a forma que Merkel faz campanha, eu como um ser interessado no debate político, mesmo assim, eu votarei nela“. Spreng também aposta que o que Merkel almeja é uma coligação entre a União (CDU & CSU, da Baviera) com os Verdes. Segundo o analista, o partido neoliberal (FDP, na sigla em alemao) teria “deixado muitas sequelas” na coalizao no período de 2009 a 2013.

Segundo o Instituto Dimap, os eleitores vêem Merkel como a mais competente dos dois candidatos. 

Nos quesitos:

Melhores argumentos: 44% para Merkel /36% para Schulz

Competência: 59% para Merkel/18% para o socialdemocrata