Meu Pai: um holandês pernambucano

Fátima Lacerda

09 de agosto de 2015 | 15h00

 Hoje na Alemanha não é Dia dos Pais. Nas terras daqui, o Vatertag é celebrado no mês de maio e tem origens culturais totalmente diversas das do Brasil, onde o Dia dos Pais é de igual importância cultural como o Dia das Mães, com uma forte implicação econômica no comércio e na “presença midiática” das marcas, pegando carona na simbologia para aumentar as vendas.

Por motivos familiares, esse segundo domingo de agosto, apesar de 27 anos fora do Brasil, é um dia que não deve ser esquecido, apesar de achar que para celebrar quem se ama e a quem se admira, não é necessário um Spot da Natura, vinculado em horário nobre apelando para uma emocionalidade fútil. A homenagem, num estádio de futebol ou não, pode ser qualquer dia e de qualquer forma que a criatividade permitir.

A propósito futebol…

Foi com meu Pai, um holandês pernambucano que se despencou com a família de navio para o Rio de Janeiro, que aprendi a amar o futebol. Porém esse amor que atualmente vive seu ápice e sua fase mais rica e prazerosa, começou bem cedo. Ainda muito moleca, mas já com um grande dom de observação e vocação de memória de elefante (o que mais tarde iria ser de grande valia na profissão por mim escolhida): Me lembro dos domingos de almoço na casa da Vó Hercília de do Vô Miguel na Rua Marília em Marechal Hermes. Era uma tensão e um corre-corre para sair de lá a tempo de ir ao Maracanã, que era a dois quarterões da nossa casa no bairro da Tijuca. Quando o América FC não jogava, ficávamos até mais tarde e tudo era mais tranquilo na reunião da grande família. Porém, quando o clube de regatas da Gávea jogava, fazíamos de um tudo para voltar pra casa antes do jogo acabar para evitar a torcida saindo do estádio e se dirigindo aos pontos de ônibus. Certa vez, no fusquinha vermelho e passando por uma rua de acesso à General Canabarro (acho que era a Professor Gabizo), havia engarrafamento e uma torcida rubro-negra, alucinada e não menos perigosa, batia sem parar no vidro de trás do carro, onde eu e Paulinho (meu irmão) estávamos. Fiquei aterrorizada com aquilo e sempre associei o time da Gávea com algo ruim e isso permanece até hoje.

Beckenbauer

Me lembro sentada no chão da sala, assistindo um jogo da Alemanha em alguma Copa do Mundo. Meu Pai é fã da seleção de 1974 e fã do Kaiser Franz Beckenbauer. Achava aqueles nomes impronunciáveis, muito esquisitos. Vários anos depois, já em Berlim, enviei uma bola de futebol para a sede do Bayern de Munique para que o Franz assinasse. No telefone, a secretária me avisou: “A Sr. pode esperar umas 4 semanas para ter a bola enviada de volta”. Com a carta formulada por mim, explicando a biografia e a admiração de meu Pai pela seleção campeã de 1974, em três dias a bola repousava na minha caixa de correios.

Em solos tijucanos, muito burgueses era impossível aflorar numa filha caçula a paixão pelo futebol, mesmo porque, todos os privilégios eram do mais velho. Uma menina de classe média no Brasil da época, fazia ballet, aprendia a tocar flauta, fazia ginástica olímpica. Com certeza não ia ao Maracanã e como diz um ditado popular daqui: “As coisas boas precisam amadurecer”. A semente do amor pelo futebol foi aflorando aos poucos. Já quando adolescente, assistia os jogos da Liga dos Campeões à tarde na TV, talvez pela internacionalidade do torneio, quando já tinha os olhos no exterior.

Quando fui estagiária na redação de esportes do jornal Berliner Zeitung, o horizonte foi ampliado para o campeonato alemão da Bundesliga. Depois vários fatores, entre eles,  o encontro e amizade com pessoas atuantes no âmbito do futebol brasileiro, o círculo se fechou. Mas não foi “somente” o amor pelo futebol que herdei do Gilvan. O holandês- pernambucano sempre foi holandês na hora de pensar e agir. Pontualidade é algo sagrado. Era ele que me chamava na hora de levantar de manhã pra escola e, ao contrário da Creuzette, não tinha perdão com o pedido desesperado de “mais cinco minutos”. A escola, por nenhum acaso era a Friedenreich, em homenagem ao atacante do futebol brasileiro. Na hora da saída era ao lado da estátua do Bellini que eu esperava quem viesse me buscar. Cursar o início do primário entre o Maracanã e o Maracanazinho era só o início daquilo que o futebol iria representar depois.

Enquanto o brasileiro pensa no que fazer depois que o carro foi pra lama, o europeu central já arquiteta  no plano B, só pra garantir. Decerto que a flexibilidade é algo-chave no contexto de inteligência emocional (e não só no âmbito corporativo) e quando eu vou para o Brasil faço um verdadeiro curso intensivo nesse área. Porém, o holandês é meticuloso no preparo e de uma teimosia quando se trata de defender seu ponto de vista. A meticulosidade e o amor pelos detalhes eu herdei, a teimosia, felizmente, não.

Cidadania

Meu Pai, como já mencionei aqui, foi testemunha ocular da Copa do Mundo de 1950 no Maraca, mas também é parte de uma geração que assitia as Copas e os Jogos Olímpicos acontecendo em lugares inatingíveis numa época em que o Brasil era sinônimo de selva amazônica. Em 2016 serão em solos cariocas os Jogos Olímpicos e Gilvan decidiu se candidatar a voluntário para acompanhar de perto durante as Olimpíadas. Teve entrevista, conversas telefônicas, a equipe da TV Globo em sua Rua, sua foto no metrô mesmo ele ainda sendo “candidato a candidato” mas a organização seria, no mínimo, ingênua em recusar um gancho midiático desse parâmetro.

RJ TV – 11/12/2014

http://globotv.globo.com/rede-globo/rjtv-1a-edicao/v/idosos-se-inscrevem-para-ser-voluntarios-nas-olimpiadas-de-2016-no-rio/3824829/

G1 – 06.08.2015

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2015/08/aos-87-craque-frustrado-pode-ser-voluntario-mais-velho-das-olimpiadas.html

Entrevista – Dezembro de 2014

https://www.youtube.com/watch?v=Xbs1tAuyEdE

Um quase jogador do Bangu Futebol Clube que foi impedido porque meu avô, Seu José, ainda mais holandês e ainda mais teimoso e comunista por princípio, alegava que “futebol era coisa de malandro” e com 19 anos, ter um emprego na Light com carteira assinada era ter tirado a sorte grande e com isso morreu para Gilvan o sonho de ser jogador de futebol, uma paixão que o acompanha pela vida inteira. Já combinamos de irmos juntos ao Maraca (agora em padrão FIFA TOP) na minha próxima viagem ao Rio. “Só não pode ser um jogo do Vasco!”, deixei avisado e, pra minha surpresa, concordamos logo de cara, algo muito raro. Talvez possa até ser um jogo do América ou um FLA X FLU.

Curtindo o interesse midiático e claro, não sem curtir a vaidade, meu Pai mostra um exemplo de como envelhecer com dinamismo, bom humor e dignidade é uma tarefa de Hércules num país de tamanha injustiça social e falta de memória como o Brasil.

Não penso que o importante é colocar o Pai num pedestal como alguém perfeito e livre de quaisquer defeitos. Constatar os defeitos, aceitar as diferenças e imperfeições como também prezar os ensinamentos e desenvolvê-los ao longo do próprio caminho, isso sim é uma linda viagem quando você está em ótima compania. 

Feliz Dia dos Pais para todos aqueles que permitem seus filhos e filhas sejam providos de instrumentos para que possam construir universos próprios e, ao contrário de uma tendência regente em Berlim, onde ter filhos se tornou um ato político ou um objetivo de reconhecimento social como quem compra um carro do ano.

Uma das coisas mais lindas que já ouvi nesse contexto de pensar no futuro dos filhos, foi quando Elis, falando de Maria Rita, disse o que desejaria para ela e no final do raciocínio refletiu: „De repente o legal meu, não é o legal dela“.

https://www.youtube.com/watch?v=oX1iftyO21s

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