Memoráveis encontros com B.B. King no Festival de Montreux

Fátima Lacerda

15 de maio de 2015 | 09h37

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Os 13 anos entre 1993 e 2009 em que estive presente no Festival de Jazz de Montreux marcaram a minha vida como apaixonada pela música, como aquilo que me move e profundamente me inspira, mas também como ser humano.

Dinossauros, gigantes e inacessíveis em outros lugares, em Montreux, cidadezinha recheada de ruelas e muito luxo da forma mais positiva possível, a distância entre artista e fã praticamente não existe.

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Al Jarreau correndo na beira do lago Lemán, Bobby Mc Ferrin andando de guarda-chuva debaixo do braço em posicionamento reflexivo frente à montanhas tão impactantes, Will Callhon com suas vestimentas africanas e sorriso largo dando um rolé com admiradores, Herbie Hancock tomando banho de sol e tantos outros perambulando pelas ruas como seres comuns. Os Paralamas (do sucesso) na fila da barraca de crepe.

O primeiro encontro

Em 1997, numa tarde muito quente, o então diretor Claude Nobs convocara uma coletiva com o Rei do Blues, BB, como ele carinhosamente chamava. Com a sua estatura de porte e ombros espadaúdos, ratificados pela jaqueta de paetê, ele chegou na coletiva e na mesma hora, silenciou a maioria dos jornalistas, tal era o impacto de estar frente a uma lenda musical daquele patamar. Fiz uma pergunta, não me lembro mais qual foi, mas ele respondeu, me levou a sério.

No final da coletiva, antes de sair da sala, ele passou por mim:  “Can I have a hug?” perguntou criando um supresa em todo o lugar. Eu não entendi porque, mas eu já sabia que Montreux era um lugar mágico, onde o aparentemente impossível, está logo ali. Como negar um Hug a um monstro desses?  Esse momento não pode ser eternizado no papel porque o Christian tinha acabado de bater a última foto do filme na máquina, na época, ainda de filme de rolo. Pois é!

Outros encontros vieram. Ganhei a palheta da Lucille, presenciei duas vezes o chamado “Workshop” que acontece na sala do Hotel Montreux Palace. O que devido ao título tem cunho didático, é na realidade, um encontro em formato pessoal com o seu ídolo. Alí já deram o ar de suas graças, Billy Cobham, Senhor (George) Duke e piradíssima e hiper-ativa Rachell Ferrell, Bobby McFerrin, o grande Ben Jor/Salve Simpatia, o deliciosamente anarquista Naná Vasconcellos e tantos outros. Com Rachel eu cantei, com Bobby também. Com Naná todo mundo tribou. Com BB King, eu era como todos ali: O executivo suíço de gravatas, os garotos de uma escola de Big Band americana, baixistas, guitarristas, todos bem perto do divino, em estado de graça por estar ali presenciando aquilo tudo.

20 vezes BB King marcou presença na capital europeia do Jazz. “Quando meu amigo Claude (Nobs) me liga, eu venho correndo”, disse ele na coletiva de 1997, com orgulho de ilustre, poderosa e sincera amizade. A última vez no palco do Auditório Stravinski foi em 2011. A primeira em 1979. Mathieu Jaton, sucessor de Claude no comando do festival, declara no site: ´”É muito simbólica a morte de BB King. Dele foi o primeiro show que eu assisti no Festival, na época no Casino de Montreux”. Nesse mesmo ano e nesse mesmo lugar, a incomparável Elis Regina teve nada menos do que 11 minutos de Standing Ovations e se tornava uma estrela também no mercado internacional.

O amor às mulheres

No contato pessoal, o Rei do Blues era, sempre, gentil. Ainda mais com as mulheres. Quando alguma Black Beauty aparecia na coletiva de imprensa, bastava um movimentar da cabeça ao seu empresário de turnê, para que ele “acertasse tudo”. BB King nunca fez segredo de sua “fraqueza” pelo sexo oposto. O nome de sua guitarra, Lucille, esconde uma história de uma amor perigoso que terminou em incêndio. “Além de me tirar da plantagem, Lucille me trouxe fama e já salvou minha vida duas vezes”.

Quando em 1999, depois do show, fui lhe pedir uma dedicatória para a biografia “Uma vida com o Blues” de David Ritz na porta do camarim especialmente decorado para ele, ele estava estressado, mas mesmo assim, sem pestanejar pegou a caneta de tinha dourada que eu havia especialmente levado, assinou e se despediu dizendo: “É tudo o que eu posso fazer para você no momento”, como se aquilo não tivesse sido muito mais do que eu poderia esperar. Mesmo tendo se tornado um gigante, ele sabia de onde veio e a humildade permaneceu na sua personalidade.

Depois de outros shows, ganhei palhetas da guitarra, lista de músicas tocadas nos shows.

Um aperto de mão

Nesses chamados Workshops que na realidade se tornavam longas e inesquecíveis conversas, ele disse: “Meus músicos que trabalham comigo há mais de 20 anos, não tem contrato. O que vale para mim é o aperto de mão. Nunca tive nenhuma dúvida disso”, revelava com orgulho. Os músicos presentes o reverenciavam com gratidão.

Em sua biografia, na página 76 da edição em alemão (Palmyra), ele conta que fugiu de casa para seguir seu destino de músico acompanhado somente de um bicicleta velha para percorrer o trajeto entre Lexington e Kilmichael.

“Devia ser três ou quatro da tarde, quando uma senhora negra me apareceu, sentada na cadeira de balanco numa varanda. Ela tinha uma aparência gentil e serena. Devido a minha fome descomunal, desci da bicicleta, me direcionei a ela e disse: “Desculpe, mas eu estava pensando se a Sra. teria alguma coisa para eu comer. Durante 2 segundos ela olha fixamente pra mim como se pudesse ver a fome nos meus olhos. Então ela levanta, entra na casa e volta com uma bandeja cheia de pãezinhos e um litro inteiro de leite coalhado. Eu digo a vocês, foi a melhor comida do mundo. 60 anos e muitas vezes, eu voltei nesse lugar e a casa já não mais existia e a mulher talvez já tivesse morrido. Eu nunca entendi direito. Talvez ela tenha sido um anjo, um anjo que me ajudou a seguir meu destino, a voltar para as minhas raízes”.

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O último Workshop

Naquele julho de 2009, a sala do Montreux Palace estava tao cheia como eu a nunca havia presenciado. Chegando com seus dois cachorros de estimação e cada um com um passe Backstage All Access, Claude Nobs chegou e apelou para que nos juntássemos ainda mais, já que do lado de fora ainda haveriam aproximadamente 100 pessoas esperando: “Vamos apertar ai. Assim, mais pessoas poderão participar”. Mais do que vê-lo tirar tudo da Lucille, mas do que apreender qualquer maneira de tocar o Blues, queria-se ver um grande mestre, um grande exemplo de superação. Veja aqui os vídeo feitos por mim:

https://www.youtube.com/watch?v=G7whI2QN7xk

https://www.youtube.com/watch?v=puBi12HeYHM

https://www.youtube.com/watch?v=naA-bnqb5zE

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Contando porque se tornara um guitarrista de Blues, ele explicou: “Quando eu ficava tocando na esquina e com o chapéu na calcada, as pessoas me ouviam cantar jazz, sorriam, passavam a mão na minha cabeça e diziam “bonitinho”, mas nada de colocar dinheiro no chapéu. Quando eu comecei a tocar Blues, os elogios pararam, mas o chapéu ficava abarrotado de moedas”, relatava com a expressão de que aquilo era mesmo o seu destino.

Em 2009, antes de finalizar o Workshop, ele perguntou ao público qual música deveria cantar. Eu não esperei para pedir “When the saints go marching in“. A galera do lado não aprovou, balançou a cabeça sugerindo “No”. O Mestre olhou pra mim e já iniciou os acordes.

As Jam Sessions

Quando BB King estava agendado para tocar no Auditório Stravinski, o palco principal, Claude Nobs, mais do que somente um diretor e fundador, mas um cara predestinado a construir sinergias, juntar pessoas, um visionário musical dos alpes suíços. Os telefones dos quartos de hotéis dos outros músicos, que Claude cogitava, não paravam. Chaka Khan, Quince Jones, Senhor Duke, Jeff Healey e tantos outros.

Assim foi na noite de 1998. Todos no palco. Nessa noite não me bastava ficar lugar dos Vip’s, eu queria mesmo ficar em cima do palco. Num estratégia bem perigosa, adentre o fim do palco e ali postei uma cadeira, lá onde ficava um mar de fios. Desse um curto circuito ali, eu teria morte instantânea, não menos dolorosa e prestigiosa. Logo depois do início da Jam Session, ao meu lado, sentou-se Jeff Healey. Eu traduzia para ele, simulaneamente, o que se passava no palco, até que o mestre BB Kingo o chamou para também participar. Claude Nobs, com sua gaita era um figura indispensável. Era chamado com toda a pompa e, como bom cozinheiro, dava um tempero elegantérrimo as canções de Blues.

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O gesto da mão em um ouvido enquanto com a outra segurava a guitarra, levava o público ao delírio. Quando o Mestre BB King queria ainda mais instigar, ele esbravejava: “I can’t hear you”, mesmo quando o barulho na sala era ensurdecedor. Ele sabia fazer o MC, sabia juntar pessoas, sabia ajudar novos músicos a entrarem para um círculo muito exclusivo. Foi esse o caso do garoto prodígio do texas, Johny Lang que chegou com um show agendado para abrir a noite e depois teve o número de shows triplicado tendo o ápice de sua ida a Montreux com o “arranjo” de Claude Nobs para tocar na Jam Session com BBKing e “convidados”.

Provavelmente hoje, lá em cima, vai ter uma festa de arromba. Com a chegada do novo membro, a Jam Session então estará completa. Senhor (George) Duke, Claude Nobs e o Mestre da Lucille.

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Eterno ele não somente estará através da estátua de bronze localizada no jardim do hotel Montreux Palace, mas pelos memoráveis shows nesse lugar e pela longa geração de músicos, que viram nele e em sua forma única de tocar guitarra, suas fontes de inspiração. Aquele que ao cantar „The Thrill is gone“ expressa, como ningúem a dor que é constatar que o amor acabou e como é difícil admitir isso. A voz dura e desesperada na música, me causa, sempre, um frio na espinha.

Ter estado com B.B. King foi estar perto do divino, perto do sublime que só a mistura com a mistura de algo metafísico, pode proporcionar.

R.I.P BB!

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=SmAtHrgKQKY

http://www.montreuxjazz.com/loving-memory-bb-king

https://www.youtube.com/watch?v=4fk2prKnYnI

https://www.youtube.com/watch?v=-Y8QxOjuYHg

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