Ministros alemães em viagem ao Irã e a Cuba, em busca do negócio da China

Fátima Lacerda

20 de julho de 2015 | 12h19

Nem mesmo uma semana se passou desde o fechamento do acordo nuclear com a República Islâmica do Irã, Sigmar Gabriel, Ministro Alemão da Economia e Vice-chanceler, chegou no domingo (19) a Teerã para conversas com o presidente “para rápido desenvolvimento de relações econômicas”, como cita o Portal Spiegel Online.

A tentativa de justificativa política de Gabriel, para a rapidez da viagem ao país islâmico: “O fechamento do acordo é a base para a normalização das relações econômicas, entretanto, é indispensável que o prometido, seja cumprido“, disse ao chegar no aeroporto.

As relações econômicas dos dois países tem tradição. Agora, com novas perspectivas, o presidente da Câmara de Indústria de Comércio alemã (DIHK) vê como factível o fechamento de contratos em volume de 6 bilhões de euros numa janela temporária de 2 dois.”A médio prazo, podemos alcançar o valor de 10 bilhões de euro”, declara otimista.

Politicamente correto para alemão ver

Para não ser massacrado pela imprensa ao voltar da visita programada para durar 3 dias, Gabriel expressou “a vontade de falar de temas políticos” e ratificou que “quem quiser fazer negócios conosco, não pode questionar a legitimidade do estado de Israel”. Como bandeira pouca é bobagem e Gabriel, já pela sua estatura robusta, é um homem que sempre vai na linha do quanto mais polêmico, melhor, se ofereceu até mesmo como “mediador no conflito entre os arqui-inimigos Irã e Israel, algo que em casa lhe trará, no mínimo, um sorriso de vergonha alheia por parte de analistas políticos e âncoras das TVs abertas. Depois que se tornou parte do governo e ter mudado em 180 graus posições anteriores, Gabriel é punido pela falta de credibilidade, que atinge, mesmo indiretamente, seu partido, o SPD. Seus críticos o apelidaram de sósia de Angela Merkel, alfinetando que Gabriel diz sim a tudo o que a chanceler exigir.

Negócios à parte

O discurso politicamente correto de Gabriel é, como sempre, fachada. Mesmo porque, em visita a países como a China, onde o interesse é estritamente econômico, é rezado o mesmo terço, a mesma ladainha. Merkel discursa sobre a importância dos diretos humanos, inclui na agenda encontros com oposicionistas do governo, mas o que ela e a imensa delegação de representantes das maiores empresas alemães como Siemens, Volkswagen, Allianz, etc. traz de volta é a mala cheia de contratos assinados enquanto na China tudo continua como dantes no quartel de abrantes.O empreendimento econômico de Gabriel no Irã segue estritamente a mesma linha. Se no período de “desenvolvimento das relações econômicas” fatores mencionados por Gabriel como a liberdade de imprensa e os direitos humanos não tiverem sido restabelecidos, também não importa. Os contratos já terão sido assinados. Além disso, em nenhum momento Gabriel colocou esses “progressos” como condição para a normalização das relações, mas os mencionou para constar no protocolo da visita.

Ainda segundo informação do portal Spiegel Online, o guia supremo do Irã, o aiatolá Khamenei teria feito, depois do fechamento do acordo, um discurso odioso quando falou dos EUA. “Nós continuaremos a apoiar nossos aliados na Palestina, no Jemen, no Iraque, Líbano, Síria e Bahrein. Os EUA e o Irã focam em objetivos políticos totalmente antagônicos. Por isso já mencionamos que não haverá negociações, nem mesmo no âmbito bilateral”, mostrou o aiatolá, que, fora o acordo nuclear que trará muitos benefícios ao país islâmico, nada mudou.

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Alemanha em Cuba

Tido como um dos políticos do gabinete Merkel que mais viaja, o Ministro das Relações Exteriores e socialdemocrata, Frank-Walter Steinmeier se mandou para Cuba mesmo dias antes da bandeira da bandeira ter sido hasteada no Departamento de Estado norte-americano (20), oficializando assim a histórica retomada das relações diplomáticas entre os dois países depois de 50 anos.

A imprensa alemã fala de “uma visita de amigos, recheada de grande cordialidade“. É a primeira vez na história, em que um Ministro alemão visita Cuba.

Segundo o jornal Süddeutsche Zeitung, Raul Castro teria pleiteado urgentemente que o governo alemão invista em Cuba e ratificou que seu país precisaria muito de expertos alemães, especialmente no setor de agricultural e de energia. Em contrapartida, Steinmeier ressaltou a intenção de estreitar as relações políticas e culturais inclusive com a perspectiva abertura de uma filial do Instituto Goethe e de um escritório da Câmara de Indústria e Comércio em Havana, ao mesmo tempo que pleiteou “melhores condições de investimento para empresas alemães”. Steinmeier sabe que a perspectiva de normalização é factível, mas Cuba ainda é um estado socialista, com estruturas públicas, centralizadas e Raul Castro não pensa em abdicar do poder de decisão sobre quem, quando e como pode investir no país.

Enquanto em casa, Angela Merkel se vê frente à mais difícil fase do seu governo, seus ministros socialdemocratas estão na estrada lançando as sementes: econômicos, políticos, culturais. Ao contrário de Gabriel, um vira-casaca e por isso, nada confiável no que propaga, Steinmeier, um diplomata brilhante, marcou um gol sendo rápido na viagem à Cuba. Ao contrário de Gabriel, que só vê o aspecto econômico, Steinmeier tem sempre na mira, o aspecto político-cultural e o faz de forma autêntica e por isso é sempre um dos primeiros colocados na lista de políticos de maior popularidade.

 

 

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