Moreno Veloso: de um objeto não identificado em Berlim para o coração do Rio de Janeiro

Moreno Veloso: de um objeto não identificado em Berlim para o coração do Rio de Janeiro

Fátima Lacerda

02 Setembro 2017 | 09h37

Ainda bem que esse Blog não tem a obrigatoriedade com o em cima da hora da notícia e ainda bem que a agenda de Moreno Veloso deste fim de semana, fecha um círculo coerente e feliz.

O show de Moreno Veloso estava marcado para o dia 12 de agosto, no meio do verão berlinense. Foi também nesse mesmo dia (anos atrás) que eu pisei pela primeira vez numa cidade que, então, gozava de um status de uma ilha. De rebeldes. Anarquistas. Daqueles que fugiam do serviço militar nas outras regiões da Alemanha.

O show de Moreno Veloso, de quem tenho lembrança remota, dele sentado no colo da mãe enquanto o pai gravava no palco do Teatro Phoenix, mais um episódio do formato dirigido por Roberto Talma. Do outro lado da tela, em solos tijucanos e quase tão pirralha quanto Moreno, ficava radiante quando meus pais me deixavam ficar acordada até mais tarde para ver aquele programa. Tem suas vantagens ser filha de uma criatura obcecada por cultura.

Universo conspirativo

Desde então, a ordem mundial teve uma guinada de 360 graus, o Muro de Berlim, a Creuzette virou uma estrela e Berlim havia se tornado o meu terreno, a pilastra da minha vida.

O verão de 2017 não foi a primeira apresentação de Moreno na capital. Em 2001, ele veio com o trio genial, Moreno & Domenico & Kassim para participar do JazzFest Berlin, na época sob a curadoria do sueco adorável e porra louca, Nils Landgren. Moreno voltou outras vezes, mas desta vez, eu estaria presente. O universo teria conspirado. O dia seria simbólico e, mais uma vez, se juntariam elementos vindos dos dois amores da minha vida: do Rio e de Berlim. Porém de carioca, Moreno tem muito pouco.

Ao chegar ao camarim, na hora marcada, para fazer a entrevista, uma funcionária da Casa das Culturas do quesito produção já veio com aquela novela de pessoas que fazem produção e acham que elas são os artistas. Uma coisa é você querer poupar o artista de momentos fatigantes, especialmente se eles foram durante uma longa excursão.

Outra coisa bem diferente, é aquele produtor, aquela produtora que acha que tem que proteger, digo, esconder, o artista da imprensa numa medida de forças, previsível como desnecessária. Que sorte quando o artista tem um empresário brasileiro, não “somente” sensato, mas com jogo de cintura e sem mazelas alemães que passam por todas as hierarquias e na Casa da Culturas, isso não é diferente.

Backstage

Durante o trâmite de chega Marcos Valle, seus músicos e depois os músicos de Moreno, o clima do camarim ia se descontraindo. A coisa da energia de grupo é instigante e, sempre, supreendente. Tem um peso morto, muda tudo. Sai o peso morto, o tranfer energético se movimenta. A saída ou a neutralização dele (nesse caso o delas), não poderia ser diferente.

Moreno, de carioca, tem muito pouco. O que presenciei em conversa exclusiva com o Blog conversa que durou aproximadamente 15 minutos foi um sorriso largo, singelo, honesto e que me remeteu lá pra Bahia e para pessoas lindas que lá encontrei em visita que fiz logo depois de ter sido empresária da turnê do “Olodum” na Europa.

Em conversa exclusiva, falamos sobre fazer música em família, sobre o projeto “Caetano, Moreno, Tom & Zeca”, sobre a situação política do Brasil e sobre Berlim.

FL: Você já veio a Berlim várias vezes a Berlim, no Festival de Jazz, evento de grande tradição, assim como 2006 também aqui na Casa das Culturas, na época, com vários artistas brasileiros.

MV: Caramba! Todas as vezes que vim a Berlim eu fui muito bem recebido. Faz 11 anos que eu não venho aqui. O show foi na mesma varanda, nesse mesmo palco e foi muito gostoso. Gracas a Deus, o sol apareceu agora no final da tarde. De manhã estava chuvoso. Eu fiquei com medo.

Qual é o tchã do público berlinense?

É um público muito bom. Público que presta atenção é uma das melhores coisas do mundo. Eles saber o que você vai saber e o que você vai tocar. Aqui na Alemanha, acontece isso. Eles querem saber o que você vai fazer. Isso é um respeito muito grande para o artista que está no palco, mesmo que esteja na varanda, ali do lado de fora. Todas as vezes eu fui muito feliz com a plateia.

Você está vindo de uma turnê bacana pela Europa, passou pela Espanha. Qual é a bagagem que será levada pro Brasil?

Certamente mais revigorado. Quando a gente faz uma turnê boa, encontra coisas boas, amigos bons mesmo que seja um equipamento bom, a gente fica feliz. Poxa, conseguimos. Na próxima vez que a pessoa convidar, você não fica com preguiça. Ah, vou pegar 12 horas de avião, 14 horas de Van. Não! Você fala, vamos lá!

Falando da situação política atual do Brasil. Como você vê o papel do artista no momento crucial. Como você vê o momento crucial, gravíssimo pelo qual o Brasil está passando. A que importância você dá à classe artística em se posicionar ou não?

A arte, graças a Deus, é um bem material humano imprescindível. Organizadamente (ou não) a gente contribuir para delinear, desenhar, revelar e melhorar também o próprio país (risos). Os artistas estão fazendo com que isso esteja vivo. É muito importante a gente (classe artística) faz nesse momento.

Na turnê da Europa você tem sido questionado sobre a situação do Brasil?

Todo mundo sabe que está muito ruim. Todo mundo sabe que está deformado. A política se espatifou e o país quase se espatifou junto. As pessoas estão preocupadas também, não só com o futuro, mas com os indivíduos, com os próprios artistas, com os meios de trabalho das pessoas. Isso dá pra sentir. Ainda por cima, o Brasil não é o único país que está espatifado. Essa preocupação cresce um pouco mais, ganha um vulto um pouco mais fantasmagórico (que é quase mundial) que tem alguma muito estranha, alguma coisa está fora da ordem. Isso só reforça que a gente tem que continuar trabalhando, fazendo o que a gente faz.

Sobre o show em família (Caetano, Moreno, Tom & Zeca). Como surgiu a ideia?

Basicamente, meu pai, em algum momento da vida, descobriu que os 3 filhos dele trabalham, levam jeito, compõem e tocam música. Ele sonhou em fazer esse projeto acontecer. Não foi fácil, porque cada um tem sua agenda, mas no final das contas ele conseguiu convencer os 3 filhos.

Demorou muito pra convencer?

Demorou! Não foi fácil não! Principalmente o Tom tem a banda com quem está trabalhando bastante, o Zeca não estava trabalhando mais com música. Ele atuou como DJ fez alguns trabalhos na linha de produção e ficava compondo solitariamente e não queria se apresentar no palco. Estava muito distante disso. Foi difícil convencê-lo. A gente começou a se reunir, ensaiar, discutir, tocar junto. É muito gostoso (sorriso largo)…

Qual é a diferença em toca com a família e com amigos músicos?

Diferença, diferença mesmo não teria nenhum, não fosse o fato de você reconhecer um pedaço do outro que está na sua frente. Somos pedaços uns dos outros. Isso é muito gostoso isso é muito bonito.

No céu de uma “cidade do interior”

O show de Moreno foi depois do de Marcos Valle. A chuva que tinha caído durante todo o dia em Berlim, deu uma trégua na hora do show (exceto por um rápido descuido de São Pedro) com uma banda de responsa. Na guitarra, a assinatura inconfundível de Pedro Sá, longo companheiro de estrada de Caetano, se mostrou o melhor contraponto, melhor complemento à doce voz de Moreno.

O ápice do show foi, sem dúvida, a interpretação de “Deusa do Amor”, uma mistura de Bossa Nova e ciranda. “Enquanto isso” deliciou a plateia também pelo detalhe “autêntico” e “genuino” do prato e da faca como utensílios percussivos.

O Bis não poderia ser mais perfeito. Sob o céu azul escuro de um inusitado verão berlinense e um percentual de crédito de São Pedro, o quarteto também composto pelo excelente baterista Rafael Rocha. Trazendo Caê para Berlim da forma mais orgânica e elegante possível ele serviu um deleite musical na forma de interpretar “Objeto não identificado”: “Minha paixão há de brilhar na noite, No céu de uma cidade do interior”.

©Pedro Fredo*

Mencionando a beleza da interpretação dessa música em confraternização no Backstage, Moreno confessou: “Essa cidade era Berlim”. Nem precisava. Quem lá estava lá, embarcou na conexão Rio-Berlim dando uma passadinha por solos baianos.

De Berlim para o Rio

Já em solos cariocas, Moreno Veloso participou na sexta-feira (01) do aniversário de comemoração de 40 anos do disco “Refavela”. Com Gilberto Gil, Céu e Maria Freitas, ele marcou presença no Circo Voador, caldeirão da cultura musical carioca.

http://www.circovoador.com.br/evento/refavela-40

 

*A foto foi, gentilmente, cedida pelo fotógrafo gaúcho e radicado em Berlim, Pedro Fredo.