Movimento PEGIDA se espalha pela Alemanha e se mostra adubo para a ignorância política e histórica

Fátima Lacerda

16 de dezembro de 2014 | 19h42

No final dos anos 80, em Leipzig, leste do país, iniciavam as “Passeatas de segundas-feiras”. Depois de várias semanas, a febre movida pelo forca da “Revolução Pacífica”, chega a Berlim, onde a ferida da divisão era mais profunda. As “Passeatas de segundas-feiras” entraram para a história assim como os gritos dos alemães orientais que tomavam conta das ruas: “Nós somos o povo”!

Um momento de off-ostracismo

Sabendo da aversão dos manifestantes contra a “manipuladora imprensa do ocidente”, os participantes foram instruídos a não concederem entrevistas e serem arredios. Essa lacuna foi perfeita para a equipe do programa de sátira política de maior audiência do país, o heute show. Na edição de sexta-feira (12), o repórter Kasten von Rissen adentrou na multidão disfarçado de repórter da redação alemã da TV Rússia Today, que de fato, existe no país. Com o traje a rigor de um repórter russo pobre e simulando um sotaque de russo de cais do porto, ele imediatamente obteve atenção . Homens da terceira idade, enfadados com a robusta aposentadoria concedida pelo estado alemão, destilaram, sem medo de ser feliz todas suas posições igualmente preconceituosas e ignorantes sobre aquilo que acham ser o islamismo e sobre o “medo da destruição cultural do ocidente”.

Spiegelimage-790299-breitwandaufmacher-ofwk.jpg©Getty Images

Especialmente na região da Saxônia esse medo pode ser imediatamente revidado pela estatística irrisória de 2% de muçulmanos que vivem no leste do país.

O fracasso dos partidos

Nos últimos dias, a histeria midiática é onipresente. “Olha só, lá em Dresden tem uns caras perigosos, falando muita bobagem” apontam os políticos como esse o caso Pegida fosse algo caído do céu. Quando um Ministro da Justiça, como no caso de Heiko Maaß, condena as passeatas, isso é algo que a mídia espera e cobra. Entretanto, chamar a tendência anti-islâmica de “revoltante” é pouco para quem ocupa essa pasta. A constituição alemã e a democracia robusta da qual goza o país tem instrumentos jurídicos e políticos suficientes combater essas tendências de extrema direita. Se não o fazem é por falta de vontade política ou por uma perigosa estratégia do “vamos ver no que isso vai dar”. Na pior das hipóteses a responsabilidade acaba ficando com a polícia, órgão atuante nas ruas.

Vista grossa

A chanceler alemã é useira em vezeira em fugir da imprensa quando há algum abacaxi. Tradicionalmente, ela aguarda 3 dias atá a pauta se dissolver por si mesma. Quando isso não ocorre, como no caso das passeatas de Dresden, sobre as quais Merkel demorou demais para se pronunciar, a chanceler tenta um soco na mesa. No jargão midiático alemão, batizado de “Palavra da Chefe”. Desta vez, nem uma coisa, nem outra.

Na segunda-feira, Merkel apelou aos alemães, “não se deixarem instrumentalizar por essas tendências de extrema direita”. Vários neonazistas, no melhor estilo oportunista-sanguessuga, se juntaram aqueles que tem pânico dos valores culturais alemães (sejam eles quais forem) sucumbam frente à”islamização do país”.

Um solo político fértil

O partido antieuropa, o AfD (Alternativa para a Alemanha) tem surpreendido bastante em eleições regionais e até conseguiu uma representação no Parlamento Europeu.

Como a política de Angela Merkel é do estilo de “vamos esperar pra ver o que vai dar”, o movimento Pegida tem uma grande maioria de eleitores do partido que possui um verdadeiro caldeirão de bruxas ideológico que tenta parecer “limpo”, mas por trás dos ternos azuis do chefe Lucke, tem ex-membros do partido nazista NPD. O mais famoso deles é o deputado da região de Brandemburgo (vizinha de Berlim), Alexander Gauland que decidiu dar um rolé na passeata de segunda-feira . Todos sabem que essa conferida possue grande simbologia e é interpretada como uma aprovação do movimento. “As pessoas com as quais eu tive contato, foram todas simpáticas e não vi nenhum sinal de agressividade” declarou ele ao portal Spiegel Online que considera factível que o Pegida “tem tudo para se tornar um movimento de massa”

Os partidos estabelecidos saem muito raramente de suas zonas de conforto em forma de repensar itens de seus programas. Político nenhum vai instigar o debate de temas turnos que os possam trazer uma imprensa negativa, por isso, o que na Alemanha impera é uma vista grossa até que a mídia teime nas pautas.

O posicionamento de Merkel

“Não se deixar instrumentalizar” pela extrema-direita é muito pouco. A chanceler tem os dados que mostram a ascensão do partido antieuropa. Com ele, eleitores e não eleitores, mas ambos frustrados, como sanguessugas, se acoplam nesses partidos de perfil politicamente turno e questionável. Já na primeira passeata, Merkel ficou devendo um posicionamento claro e também não fez porque na região da Turíngia, há poucos dias, deu-se uma novidade histórica. Pela primeira vez, depois da unificação das duas Alemanhas, o partido comunista (Die Linke), em coligação com os Verdes e com os Socialdemocratas (para desagrado de Merkel) formam o governo regional, ou seja, o Ministro-Presidente é um comunista. Merkel segurou a crítica ao partido antieuropa devido à sondagem do CDU com a AfD em âmbito regional na Thuringia para formar uma oposição e tentar evitar a coalizão, o que acabou não funcionando.

O movimento ou o Protesto- Pegida não é novo. Há tempos o socialdemocrata e ex-chanceler Helmut Schmidt (97) vem alertando para o aumento considerável de correntes de extrema-direita na Europa.

O uso do grito “Nós somos o povo” pelos manifestantes nesta segunda-feira em Dresden não é somente infame, mas de uma falsidade histórica e intelectual estarrecedora.

https://www.youtube.com/watch?v=M0nWSXumx0w

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