Mujica “El Pepe” em Berlim e a queda da “Casa Europa” depois do Brexit

Fátima Lacerda

25 Junho 2016 | 08h32

A dinâmica dos acontecimentos faz quase profana a “ousadia” em pautar a visita de Mujica, “El Pepe”, ex-presidente uruguaio em Berlim. Nesse meio tempo de “nada será como antes,” a decisão dos ingleses (e não dos britânicos já que a Irlanda do Norte não teve um voto a favor do Brexit) levou a queda vertiginal da libra e o DAX em Frankfurt a iniciar a sexta-feira (24)  acusando queda de 10%.

Instituto Ibero-Americano

Comemorando os 160 anos de parceria bilateral entre Alemanha e Uruguai, o Instituto localizado do outro lado da calçada da Filarmônica de Berlim, convidou o politólogo e historiador Gerardo Caetano da Universidad de la República do Uruguay para delinear os principais tópicos da relação entre os dois países e “avanços obtidos em diferentes áreas”. Na realidade, o cunho acadêmico foi só um pretexto para trazer para a capital alemã o Robin Hood entre os presidentes. José Alberto Mujica Cordano (81), Mujica, ex-guerrilheiro que teima, até hoje, sobreviver sem celular e cartão de créditos e que andava de fusquinha azul e sem guarda-costas.

El Pepe não poderia ter visitado solo mais fértil do que Berlim. Ela, a cidade que. permanentemente e com disciplina prussiana, questiona autarquias, peudos- símbolos de Status, uniformes, podres poderes.

Abstraindo os concernentes geográficos que separam Montevidéu de Berlim, Mujica estava jogando em casa frente à um público de esmagadora maioria de sul-americanos, de formação universitária ou forte vínculo cultural com os dois países, mas também outros ansiosos para ver, de perto, em carne e osso, um adorável revolucionário no sentido mais amplo da palavra.

Na noite de quinta-feira (24) ficou claro como a Europa e a América do Sul estão, na geografia e na temática, imensamente distantes. O Mercosur e a UE: dois universos paralelos e isso, apesar do período de um pós-globalizado galopante em que vivemos.

No inicio da noite de verão com temperatura de 32 graus, o auditório estava quase lotado. Ainda viam-se brechas em algumas fileiras e alguns lugares reservados para a imprensa, esses últimos acabarem sendo tomados por quem se fez passar por tal. Entre os jornalistas profissionais, e não os que fazem foto para postar no Facebook,, estavam lá o correspondente do El Pais em Berlim entre outros representantes da imprensa europeia e internacional.

Quebrando protocolos

No meio da palestra inicial que anunciara examinar a relação de mais de 100 anos de países “tão diferentes”, a porta lateral do auditório foi aberta e adentrou Mujica. A palestra foi imediatamente interrompida por aplausos seguidos de standing ovations. Na realidade, o discurso que tematizou os dois países supriu somente a necessidade de uma justificativa político-cultural. Até o palestrante, dirigindo a palavra a Mujica, que acabara de se sentar, mandou: “Eu estou aqui esquentando a plateia pra você!” O que todas e todos aguardavam era a chegada do “Robin Hood da politica”, para ouvir frases como:” A paz é o que realmente importa como legado para as próximas gerações”.

https://www.youtube.com/watch?v=xwO2yFp6o5s

https://www.youtube.com/watch?v=nwO9SSb6xB4

El Pepe falou sobre a situação na Colômbia com a FARC, sobre o partido espanhol de esquerda, Podemose sobre fazer tudo para não perder tempo. Na plateia, além do embaixador uruguaio em Berlim , estava também presente a embaixadora do Brasil, Sra. Maria Luíza Ribeiro Viotti, que ao comentar em conversa informal,se referiu ao convidado como ” Muito sábio”.

Ao contrário de outros eventos atuais na capital, na palestra de Mujica não teve nenhum protesto concernente à atual situação politica do Brasil nem quanto ao referendo que resultaria na pior crise desde o início da União Europeia. “The Fall of The Hose Europa” postei na minha conta de Twitter.

A “Casa Europa” caiu. Logo depois do amanhecer no horário de Berlim, a terra começava a tremer. O Primeiro-Ministro conservador David Cameron declarou que não irá se candidatar mais uma vez “ e deixar o caminho livre para um outro premier conduzir o país”, ou seja, para juntar os cacos causados por ele.

O jornal suíço Tages anzeiger em matéria de Peter Nonnenmacher, correspondente em Londres,foi certeira: “Foi ele (David Cameron) que protagonizou o referendo achando que venceria com facilidade. Não foi somente uma calculação errônea. Foi uma decisão de dimensões catastróficas.”

De fato. Cameron será lembrado por ter dado o pontapé inicial na pior crise da UE desde sua fundação.

A hora e a vez dos populistas

O partido que se denomina “Alternativa para a Alemanha” da sucursal Berlim, comentou no #hashtag Brexit:”São nesses dias em que você se orgulha de ser europeu”.

A resposta dos Verdes, também sucursal Berlim, não demorou: “São nesses momentos em que você se envergonha que existe um AfD em Berlim”.

Geert Wilders, o populista de direita e líder do partido PVV holandês, é só alegria. Em sua conta no Twitter, ele, inicialmente, postou: “A próxima será a Holanda!” Horas depois, ele já exigia um referendo para todos os 27 membros da UE e garante: “O Brexit é só o início do fim da UE”, assim a profecia. 

Em entrevista a emissora SWF, Norbert Lammert, atual presidente da câmera baixa do Parlamento, o Bundestag, e cotado candidato para a sucessão de Joachim Gauck na Presidência da República, ele mostrou coerente em discurso de praxe de cunho sereno, consciente e avesso as histerias: “Na noite passada o Reino Unido decidiu sair da UE. Porém o sol renasceu na manhã de hoje. O primeiro é preocupante, já o segundo, me deixa aliviado”.

Em pronunciamento a imprensa, a chanceler Angela Merkel lamentou a decisão do Reino Unido:

Com grande pesar temos que tomar conhecimento da decisivo do Reino Unido em deixar a UE. Hoje é um dia decisivo para o processo de união da Europa”.

Antes do início do pronunciamento que durou 6 minutos, Merkel informou os chefes das bancadas dos partidos representados no Bundestag que na próxima terça-feira (28), juntamente com o rotineiro pronunciamento de governo, ela irá explicar, detalhadamente, “como a Alemanha irá se comportar” diante desse novo fato.

Coerente com seu discurso comedido e avesso a pânicos, histerias e decisões precipitadas, Merkel mandou um aviso para os outros estados membros. Aviso esse que já contém empacotada, uma ordem e uma clara mensagem de que ela, a mulher mais poderosa do mundo, irá delinear o andar da carruagem. 

O resultado desta decisão, nas próximas semanas, meses e anos dependerá se nós, membros da UE provarmos que querermos analisar essa situação, tirar conclusões e JUNTOS tomarmos decisões”.

Conhecedores da linguagem merkeliana sabem que “juntos” significa do jeito que ela determinar. Isso vale também para Jean-Claude Juncker, presidente da comissão da UE, e ainda muito mais para o socialdemocrata Martin Schulz, presidente do parlamento europeu.

Num mundo que cada vez fica maior, os desafios são grandes demais para que um estado consiga resolver tudo sozinho. A UE precisa querer e construir os parâmetros da globalização. A UE é a garantia para democracia, estado de direito, estabilidade. Somente Juntos poderemos defender nossos valores e interesses na competição no âmbito global. As nossas consequências do BREXIT precisam ser analisados sob uma relevância histórica”, declarou.

O cunho do primeiro pronunciamento indica que Merkel continuará no caminho da UE da forma em que ela se exibe hoje, ignorando o ceticismo gritante em vários países. Mais do que isso. Ignorando a foca dos partidos populistas de direita que crescem na Europa com a rapidez que cresce chuchu na serra. Quando Merkel insiste em catequizar denominando a UE como “Uma comunidade de valores comuns” não há como não questionar, por exemplo, a posição da Dinamarca e da Polônia concernente à “Crise dos Refugiados”, que é a verdade nua e crua de décadas de uma política de imigração sórdida, para inglês ver e tudo isso com o aval da chanceler alemã que negou durante anos, aceitar que a Alemanha é um país de imigração. Precisou uma avalanche humana atravessar a fronteira e milhares de pessoas agonizarem no Mar Mediterrâneo para que Merkel entendesse a dimensão do problema.

Desenhar a “Casa Europa” como foi feito até aqui (e isso parece ser a premissa merkeliana) dará vento ainda mais favorável aos populistas de direita, deste e do outro lado do Atlântico. Donald Trump, candidato dos republicanos à Casa Branca e o pesadelo político do qual se parece não mais acordar, foi só alegria ao receber a notícia e foi xingado pela cantora inglesa Lily Allen de “Idiota”. O referendo terminou, mas os cacos da confiança quebrada naquilo que Merkel teima em batizar de “Comunidade de valores comuns” ainda estão por toda a parte. Agora é voltar o trâmite jurídico para realizar o  referendo que irá desvincular a Escócia do Reino Unido. 

No país apelidado de “A alma verde do Reino Unido”, 68% votaram contra e 32% a favor do Brexit. O resultado do referendo também botou lenha no debate sobre a reunificação das duas Irlandas. 55,7% dos irlandeses do norte disseram “No” ao Brexit. O trabalho de reconstrução da casa que caiu, ainda vai começar. Em sua nova edição, a revista Der Spiegel é categórica no título da capa: “A Europa morreu”.