Mulher do Fim do Mundo: Elza Soares em Berlim

Fátima Lacerda

10 de novembro de 2016 | 12h17

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Ratificando a dialética do pituca, Elza Soares, a rainha da Bossa Negra, a voz do morro carioca e a mais apaixonada pela Mocidade Independente de Padre Miguel sai pelo mundo, indo “aonde o povo está” e isso, com mais 80 anos.

O dia 09 de novembro já carrega uma imensa bagagem histórica na história da Alemanha. Desde as primeiras horas de uma terça-feira onde como disse Colin Powel, um “desastre nacional” se tornou o comandante da Air Force 1, essa data se tornou ainda mais emblemática e simbólica.

O jornalista Glen Greenwald tem razão quando, no Twitter, toca na ferida aberta: ” I don’t think anyone can yet come close to processing the implications of Donald Trump actually being President of the United States” (Eu não consigo imaginar que alguém tem qualquer ideia das implicações que serão sendo Trump presidente dos EUA).

O dia que teve suas primeiras horas impregnado de uma catástrofe mundial para quem apostou na coerência e na trilha não pelo ódio e não pelo racismo e muito menos ainda por muros, terminou com freixos de luz. Uma luz carioca, luz do morro, luz da música negra. Simplesmente, Elza Soares.

Na embaixada brasileira, em sessão rara de cinema, foi exibido “My name is now”, produzido pela IT Filmes, dirigido por Elizabete Martins Campos. Na divulgação do programa cultural da embaixada foi anunciada a “presença da cantora” depois do filme.

Chegando no saguão da embaixada, me surpreendi com o número de pessoas presentes. Achei que, pelo cacife e pelo monstro da música negra que é Elza, o local estaria abarrotado. Provavelmente umas 50 pessoas, entre músicos, fotógrafos, e fãs de carteirinha estavam presentes. Pois bem. Do clima deprê causado por Donald Trump, veio a transformação. Mesmo que o filme deixe muito a desejar abusando, de forma inflacionária de imagens associativas e metáforas (como o reboliço que se da nas ondas da praia de Copacabana) num repeteco exaustivo, a película recém-lançada no Festival do Rio já tem lugar certo e cativo em nossas memórias como documento histórico-musical da vida de uma mulher que não “só” vem lá do fim do mundo, como nomeado seu mais novo CD, mas uma mulher guerreira, sofrida, de olhar amargo, mas atrás dele uma sensibilidade e sofisticacao instigante, transcendente, como dizem os cariocas, sinistra.

Depois dos aplausos” vem o vazio, diz ela conversando com o espelho num dos poucos depoimentos do filme. Um dos mais interessantes deles é quando ela fala de sua primeira inspiração musical e ela não poderia ter sido mais orgânica, mais sensorial. E ela veio quando carregava balde de água na cabeça. O barulho a inspirou. E dali você delineia o caminho: favela, fome, pobreza, preconceitos. 

Me lembro de uma declaração da Alcione, A Marrom, em entrevista em que ela nos ofereceu uma palinha num dos momentos sofridos: “Quando eu ia no salão fazer as unhas as madames olhavam pra mim com quem diz “o que você está fazendo aqui?”.

Elza, quando entoa „a carne mais barata do mercado é a carne negra“, o conglomerado arredondado do teimoso, do ousado, do tinhoso do “Alice & Kicking. tudo ali!

Elza da Conceição Soares nasceu na favela, foi mãe, pela primeira vez, aos 13 e perdeu 4 dos 7 filhos.

Ela, que já era uma linda mulher em sua juventude teve uma vida marcada por muita polêmica, foi muito criticada em sua relação, intensa e turbulenta com o maior ídolo do futebol de todos os tempos, Mané Garrincha, o jogador que fazia qualquer estrela do futebol europeu parecer um iniciante, o jogador de dribles blitz, ousados, inesperados. Se Maradona era mesmo a mão de Deus, o Divino se exibia nos pés de Garrincha.

A dor do preconceito, a cicatriz, ainda dolorida ou aberta do amor perdido, a dor do abandono se conglomeram  na, voz que nos últimos tempos tem evitados excursões em tons mais agudos.

Elza e o Rio

Em 2006 eu e a Creuzette, que conhecia Elza pessoalmente e sempre prognosticava que ela seria “a cantora do século”, o que mais tarde aconteceu, já que a voz mais linda do morro carioca consta na lista de vozes também memoráveis como Ray Charles, Fred Mercury, Ella Fitzgerald, conseguimos ir a um show dela juntas, o que para o fato de viverem em dois continentes, se mostra um fato raro.

Era uma tarde também do mês de novembro. Fomos assistir a Rainha da Bossa Negra no prédio do Tribunal de Justiça, dentro do prédio do Fórum, no coração do RJ. Um dia antes de voltar pra Berlim e já no final da tarde, a minha lente de contato do olho direito começou a “fazer greve” como diz om ditado popular daqui. Meu olho estava inflamado, eu só enxergava com o esquerdo. Mesmo assim. A prioridade era clara. A Dra. Glaucia, a oculista, podia esperar.

Sentamos numa das últimas fileiras. Ao interpretar “Façamos”, Elza, que meses antes e logo depois do fim do jogo fatídico entre Brasil e França na Copa da Alemanha em 2006 havia estado na Casa de Culturas do Mundo em Berlim, mandou: “Os alemães, em Berlim, fazem”. Yes! Qual é a forma, digo, a menos dolorosa de se despedir do Rio? É assistir Elza Soares e levar,  seja para Berlim ou para aonde for, o calor e a imensa bagagem cultural contida nessa voz única.

No final da noite, então, fomos à oculista e a lente eu ainda fui pegar a lente no Largo do Machado na manhã do dia de embarcar. Essa vida de imigrante, a Elza também conhece. Não há doença, nem dores nas costas, nem cirurgias, nem muito menos dores de amores que a impeça de ir aonde o povo está. E assim foi no saguão da embaixada. A galera brasuca, mas também alguns fãs alemães, marcaram presença, prestaram homenagem, tiraram Selfies.

Antes do final do filme e já quando Elza estava sentada aguardando os fãs para „audiência“, a Dova conversou exclusivo com o Blog:

Você está em turnê com o projeto “Mulher do Fim do Mundo” ratificando a dialética de que „o artista tem que ir aonde o povo está“. Cada vez que você sai do Brasil pra tocar, é uma experiência que ainda da um frio na barriga ou já é algo rotineiro?“

“Eu acho que a gente vem porque o povo está esperando. Não tenho frio na barriga não, eu só tenho vontade de chegar”

Você acha que no Brasil, você o reconhecimento que você merece?

Acho que agora sim. Depois do CD “Mulher do Fim do Mundo”, eu acho que a coisa (o reconhecimento) está bem mais forte.

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Entre os fãs que de forma comedida, sensível, mas não menos acalorada, o embaixador Mario Vilalva, recém-chegado em Berlim e que, no dia 08 recebera sua certidão no Palácio Presidencial, Bellevue, junto com o também recém-chegado embaixador do Senegal.

Vialva, que estava em Lisboa e teve sua vinda aprovada pelo Senado em setembro passado, substitui a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que permaneceu somente 3 anos na capital.

Amigavelmente o embaixador conversou rapidamente com Elza, assegurando-a “o que precisar, estamos aqui” além de delinear sobre o outono berlinense. Isso pode parecer pueríl para quem vive abaixo da Linha do Equador ou mesmo no RJ, onde está sempre calor. Na Alemanha, falar do clima, tipo “será que vai chover?” é arraigado na cultura do discurso de um povo que vive num país onde durante 6 meses do ano, faz frio. 

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É hoje!

A expectativa do show que acontece na noite de quinta-feira (10) é grande e não somente por parte dos brasucas de mais ou menos plantão na capital. A TV regional, RBB irá fazer entrevista com Elza logo depois da passagem do som. O produtor local do show é um velho conhecido da nata da MPB. Frank Abraham já trouxe para capital, Lenine, Chico Cesar, Céu. Elza é sua premiere em cooperação com a vasta equipe de produção e marketing que acompanha a Diva.

Antes de vir para Berlim, em solos tijucanos, Gérson, um dos filhos de Elza era nosso vizinho de prédio na Rua Ribeiro Guimarães. Eu, na época, sem ter ideia do valor musical, observava as conversas, mas não sacava muito.

Décadas depois, o convívio com o mundo artístico como cantora, mas também como apaixonada pela música incluindo 13 anos reportando sobre o Festival de Jazz de Montreux, são incontáveis encontros com grandes dinossauros. Passear com Bobby McFerrin à beira do Lago Lemán, cantar com ele num Workshop junto com outras 3 mulheres, dizer bom-dia pra Al Jarreau encapuçado fazendo jogging à beira do lago ou mesmo ter acesso ao ensaio secreto onde se encontrava a nata da música negra americana dirigida por Quincy Jones e assistir de camarote, são “somente” alguns flashes de momentos inesquecíveis. A lista é longa. Porém, estar frente à Elza, são outros quinhentos: por todas as lembranças, as tijucanas, a da Creuzette, dos shows, me faz lutar com o arrebatamento que me acomete.Sempre.

Estar fazendo parte de um banquete musical, a essência de todo o show, obriga-nos sermos gratos por vivenciar, respirar, um talento monstruoso. É dividir com ela toda a trajetória, se tornar cúmplice. A profundidade que ela tem na voz quando canta “O Guri” ou o clima sapeca quando executa “Fadas” com o Negro Melódia é único e brilhante assim como o tom de leveza que Ella Fitzgerald, mesmo em idade avançada, conseguiu manter sempre quando interpretava “A Tisket, A Tasket”, Billy Holliday extravasava toda a sua dor causada pela segregação social em “Strange Fruit”. Todas mulheres de um talento gigante.Cada uma do seu jeito.

Estar presente onde Elza exibe sua arte é se tornar cúmplice, se solidarizar com ela ao mesmo tempo rever, em sigilo, itens da nossa própria história, mas sempre arredondando com aquilo que, pra mim, é a essência da alma brasileira: a superação. Como nenhuma outra, Elza expressa tudo isso ao esbravejar: “Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e da a volta por cima!”.