Munique: Afrodescendente foi, brutalmente, retirado do vagão do trem por funcionários da Ferrovia Alemã (DB)

Fátima Lacerda

28 de junho de 2017 | 18h25

Munique-Berlim: dicotomias e antagonismos intransponíveis

É mais do que uma picuinha, mais do que uma rixa o que existe entre Berlim e Munique. A primeira, a apital, um solo de convulsão política, polo de motins, revolução e de deslocamentos políticos que mudaram o mundo e polo de resistência e consciência política de plantão 24 horas por dia. A cidade de Berlim (geopoliticamente com o status de cidade-estado) é pobre, estressada e estressante, mas verdadeira e se mostra nua, dá a cara pra bater e foge como o diabo da cruz de coisinhas desnecessárias que alguns creem, impreterivelmente, precisar para obter legitimidade e obter reconhecimento social. Em Munique é preciso ter um carro. Em Berlim, o descolado pode ser ter uma bicicleta holandesa do tempo do onça e de segunda mão e usar caixa de papelão que servia para armazenar livros velhos como cesto traseiro da bicicleta. Munique, além de católica, é conservadora e detentora do princípio como valor mór. Essa rigidez ficou ainda mais claro com o ocorrido na terça-feira (27). Desde então, as redes sociais não param de tematizar a visível manifestação de racismo.

Um homem estava no trem de superfície S 8que vai do Aeroporto de Munique até o centro da cidade. Ao ser controlado pela equipe à paisana, não tinha bilhete, viajando em situação irregular. O comentário sobre o ocorrido depois disso é contraditório.

Natalia Miletic, jornalista, que também estava no vagão e é autora das imagens do video veiculado durante toda a quarta-feira (28) alega que os policiais teriam feito inúmeras perguntas ao passageiro, entre elas, quanto de dinheiro ele teria no bolso. Sem falar alemão, o passageiro mostrou seu dinheiro no valor de 09 euros. Os funcionários de segurança da DB (Ferrovia Alemã) teriam arrancado o dinheiro de sua mão como um “sinal de pagamento” pelo valor de 60 euros obrigatórios (em toda a Alemanha) para passageiros que viajam de forma irregular, no caso, sem bilhete e ainda o teriam dado um recibo pela quantia confiscada de 09 euros. Ainda segundo Natalia, o passageiro afrodescendente e que não falava nenhuma palavra de alemão, teria ratificado (em inglês) que era dependente do dinheiro que tinha no bolso alegando o querer de volta. Depois disso, dois funcionários da DB teriam, brutalmente, o forçado deixar o vagão do trem, algo que o passeiro tentou evitar com toda a sua forão a disponível. O que se vê nas imagens, é um homem totalmente neutralizado e suas coisas espalhadas na plataforma, além de um pseudo “também funcionário da DB” tentando coagir Natalia para que ela parasse de filmar o visível abuso de autoridade.

A versão da Ferrovia Federal (DB)

Em sua declaração à revista Focus, o porta-voz da DB alegou que o passageiro afrodescendente teria estado sem documento de identificação e também que ele teria se mostrado “agressivo” perante os funcionários da Ferrovia, esses que fazem patrulhas rotineiras nas plataformas dos trens de superfície e dos trens do metrô. Ainda segundo a revista, por ter sido agressivo, o passeiro teria sido removido, com extrema violência, do vagão de trem, “não somente” impedido de seguir viagem, mas atirado no chão da plataforma com uma parte do rosto imprensada pelo funcionário enquato ele indaga: “O que foi que eu fiz?” As imagens também mostram Natalia e mais uma outra mulher se expressando a favor do afrodescendente: “O Sr. deveria se envergonhar. O que o sr. está fazendo é racismo”. A outra apela de forma genuina e também ingênua quando se trata dos alemães, alegando: “Ele não lhe fez nada”,

No final da quarta-feira (28) a imprensa divulgou que a Polícia Federal, responsável por investigar ocorridos em Aeroportos e Estaçoes Ferroviárias, estaria investigando os dois lados: do passageiro afrodescendente sobre o caráter ilegal de viajar sem bilhete. O outro, concernente aos dois funcionários da DB que, por hora, estão suspensos de suas atividades, por agressão. Não é pra menos. A atitude da DB de tirá-los de circulacao pode ser interpretado como a tentativa de evitar que eles sejam reconhecidos, o perigo de retalhamento como também o medo de críticas da imprensa de não “somente” tolerar essa prática violenta e racista, como também adotá-la.

Em declaração à imprensa usando retórica de  panos-quentes, o porta-voz da DB desconversou e negou a acusação de racismo veiculadas nas redes sociais alegando que a “DB é contra todo o tipo de violência. Por isso o treinamento da nossa equipe é meticuloso para que, em situações de conflito, eles possam apaziguar“.

Racismo em todo o lugar

O fato é que se o homem não fosse negro, o comportamento dos funcionários da DB teria sido bem outro. Talvez não menos racista, mas com menos brutalidade física e moral.

Hoje mesmo no balcão do meu plano de saúde, numa rua perto da Igreja da Memória, a chamada West-City de Berlim, notei a minha frente um cliente negro e que tentava disfarçar seu constrangimento devido à demora em ser atendido (apesar da funcionária estar ali presente, mas não exibia nenhuma pressa em tirar o olho do computador e colocar um papel no envelope). Ele arrumava uma alça da mochila. Depois a outra: Ajeitava o papel do jeito que estava no balcão enquanto a mulher usava de sua posição para fazer valer a lei que rege em todo o lugar, também em Berlim, mesmo que isso na capital seja mais raro e a brutalidade, não seja tão corriqueira como em Munique, mesmo porque, a probabilidade de resistência conjunta de mais pessoas do que no caso de Munique, é realista e factível.

Ao finalmente soltar o sorriso obrigatório para o cliente negro com um “Boa Tarde” ela, imediatamente, começou com um torcer do músculo da boca. Para a direita e para a esquerda, exibindo, inconscientemente, um visível o desagrado. Por algum motivo que não ouvi, já que a fila tem sempre uma “fronteira de ser discreto”, ela sinalizou que ele teria que preencher um formulário. Enquanto ela tomava todo o tempo do mundo para tirá-lo da gaveta, o cliente olhava para o lado esquerdo com um olhar perdido e constrangido com a demora, mas também com o perrengue de ter que voltar ao balcão. Nessas horas é que o domínio da língua alema se faz um instrumento-chave. Dominá-la não te protege de todas as mazelas e perrengues de burocrátas germânicos e seus fetiches regados pelo prinícipio e isso, a todo o custo, mas ajuda muito e eliminar tentativas de constrangimento.

Os rassistas de plantão

Usando as imagens do video feito por Natalia, o usuário Snitch divulga a sua interpretação do ocorrido, zoando com “o crime horrível que Natalia presenciou”, além de comparar o passageiro com um “macaco selvagem” que se recusou a sair do vagão do trem.O Snitch também usa um icon de um macaco no vídeo e protege, graficamente, com uma nuvem branca o rosto dos funcionários da DB.

Quanto à Natalia, ele a ridiculariza e afirma: “Hoje em dia, qualquer idiota vira jornalista” e defende a brutalidade citando o parágrafo do Código Penal alemao para delitos como o de passageiro usando o transporte público de forma irregular.

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