Muro de Berlim deixou sequelas, cicatrizes, memórias e lições a serem aprendidas

Muro de Berlim deixou sequelas, cicatrizes, memórias e lições a serem aprendidas

Fátima Lacerda

09 Novembro 2018 | 17h12

©H-P-Stiebing

O dia 09 de Novembro é, para os alemães, aquilo que é denominado Schicksalstag (um dia que marca seu destino pra sempre)

1918, a proclamação da República

1938, com a Alemanha no auge de Nacional-socialismo de Hitler, a “Noite dos Cristais”, Kristallnacht na qual estabelecimentos comerciais de judeus foram brutalmente destruídos e, na sequência, estigmatizadas através de fitas e cartazes que complementavam o discurso de ódio difundido bem antes:”Não compre em lojas de judeus”. 

Restaurante Ständige Vertretung a beira do Rio Spree e ponto de encontro de políticos exibe foto do último chefe do Politbüro da Alemanha Oriental, Egon Krenz.

09 de Novembro de 1989 é, entre os três, a conciliadora das datas, dia que marcou o fim da Alemanha Oriental. Nos últimos momentos da existência do Muro, o acaso (como em tantos outros momentos históricos) teve seu dedo no decorrer da história e a “Revolução Pacífica” teve seu Final Feliz naquela quinta-feira em 1989 quando a Ordem Mundial sofreu a mudança mais importante depois do fim da II Guerra Mundial e depois da construção do Muro de Berlim em 1961, construído para durar 100 anos. Os heróis daquela noite foram os policiais encarregados de proteger a fronteira uma vida inteira. Aguardando ordnes “lá de cima” que nunca chegavam, eles contrariaram a doutrina de 40 anos de Alemanha Oriental (1949-1989), e tomaram uma decisão que, no exemplo do Checkpoint Bornholmer Strasse em Berlim, evitou um mar de sangue.

Fronteira para o setor soviético, esquina Rua Wolliner Strasse /Bernauer Strasse, Berlim Ocidental 1962

Sinal dos Tempos

Quando cheguei em Berlim em 1988, deparei com uma cidade cinzenta. Sisuda de um lado, convulsiva do outro. Berlim nunca teve pairando no ar um clima de leveza e isso, até hoje, não mudou.

Outrora Berlim, a parte ocidental, convivia com o Muro como “um mal necessário”, que ia persistindo com o tempo e desaparecendo durante a rotina diária.

Marcado pelo status de uma ilha, a cidade escapava do “cerco” através da cultura e da música. Não é por acaso que artistas como David Bowie, Iggy Pop e tantos outros foram para Berlim para “ter uma vida normal” e para criar tempo para desenvolver suas artes, suas músicas.

Longos passeios de bicicleta em terras de ninguém me davam a sensação de abandono, mas também, de forma paradoxa, uma liberdade absurda entre ir e vir. Andar de bicicleta por esses terrenos baldios que tinha sido colocados num patamar Ground Zero pelos bombardeiros da II Guerra Mundial, vislumbrar o passado com os olhos do presente e sem poder imaginar qualquer futuro frente a tanta destruição. Quando eu entendi essa idiossincrasia num momento de Eureca sensorial e intelectual, eu compreendi o que significa Freiheit, muito mais além do seu significado semântico na língua de Schiller e Goethe. Berlim é, assimo como outrora, um estado de espírito.

Muitas pessoas, muitos desgarrados vinham pra Berlim para ter tempo para se redescobrir, o que fazer da vida com a possibilidade de des-cobrir não querer fazer nada. A ideia de que, ao contrário das pequenas cidades alemães, em Berlim “as noites são longas” no bairro então de subcultura e cultura OFF, Kreuzberg 36 (sudoeste da cidade) eram pontos de encontro de artistas, revolucionários, daqueles que fugiam do serviço militar e “emigravam” para Berlim, então zona desmilitarizada, tomada e dividida entre as forças da comunidade internacional: EUA, Inglaterra e França e União Sovietica. O maior paradoxo de toda a complexidade que o Muro de Berlim criou, era que a parte ocidental de Berlim estar cravada em território soviético e por isso e cerca pelo Muro. Enquanto os moradores da parte oriental eram providos da liberdade de ir e vir, os moradores do lado ocidental podiam galgar longos voos, viajando pelo mundo. Para sair de trem para fora de Berlim Ocidental, tinha que se passar por território soviético com direito a todo o cenário de filmes de guerra. Policiais de cara feita, cachorros, longas olhadas no registro do passaporte.

Quando eu voltava da escola, eu só queria mesmo ficar em casa e a noite berlinense era, pra mim, muito distante da minha realidade. Na época, eu morava em frente ao Aeroporto Militar de Tempelhof e do lugar mais sossegado da casa, o vaso do banheiro, eu tinha uma vista privilegiada de torre de controle de voos. Depois da queda do muro, o aeroporto abrigava companhias aéreas para voos comerciais e em 2008 foi fechado, o mesmo que foi o centro logístico da “Ponte Aerea” (Luftbrücke) quando o governo da URSS bloqueou as fronteiras de terra de acesso a Berlim.

O filme “Aeroporto Central” (Zentralflughafen) do diretor brasileiro radicado em Berlim, K. Ainouz, tem esse lugar como Plot. Depois da bobina do tempo ter sido bem adiantada em tempo Blitz atropelando a dinâmica dos fatos, desde 2015, o ex-aeroporto virou abrigo de refugiados de um lado e do outro, expressa como poucos lugares, a tão cantada em versos, prosa e em inúmeras canções: “A liberdade berlinense” (Die Berliner Freiheit). Um dos lugares que mais expressam a dicotomia entre o antes e depois do Muro de Berlim é exatamente o ex-Aeroporto Militar Tempelhof. 

Hoje lá em Tempelhof, se faz churrasco, se solta pipa, joga-se futebol ou se pode ir lá somente pra ver o ceuzão e estrelas em noites de verão Karim Aïnouz . Porém a Freiheit dos tempos da Cortina de Ferro, agora é outra. Decerto que Berlim continua sendo um centro cultural mór do continente europeu, mas o Zeitgeist é, logicamente, outro, 29 anos depois, com um mundo globalizado.

Somos muitos!

Nesse dia tão simbólico, a iniciativa “Somos Muitos” teve sua primeira coletiva de imprensa. 140 instituições culturais de Berlim assinaram a “Declaração de Berlim” como sinal da classe cultural contra a vertiginosa ascensão do nacionalismo e da extrema-direita na Europa. E esse dia para a coletiva não poderia ter sido escolhido em melhor forma. Exatamente o 09 de Novembro tem simbolismo único. Esses diretores e diretoras de teatro e casas de show mostram que aprenderam com a história. De como é necessário reagir e se posicionar antes que seja tarde demais, como nos anos ’30 e como é necessária manter viva a memória do que significou a divisão das duas partes da cidade, as feridas e sequelas. Além de tudo isso é também preciso que Berlim seja o símbolo de alerta do desenvolvimento político. Não há como não se emocionar com uma iniciativa como esta, num dia sintomático para a história da Alemanha, como este.

O lugar da coletiva, não poderia ter sido melhor: o ateliê do pintor Max Liebermann (1835-1937), filho de um judeu proprietário de fábrica e, sem qualquer exagero, o maior representante do Expressionismo alemão, aquele que quando explicava seus amigos em como chegar a Berlim, cidade que tinha muitos muros e muitos vilarejos, ele dizia: “Quando você entrar em Berlim”, se referindo ao maior dos portões, o de Brandemburgo, “você vira a esquerda”. Sua esposa, Martha era uma exímia organizadores de “Salões” para intelectuais e artistas neste mesmo local. De sua varanda, com a vista de Berlim aos pés, Liebermann viu os nazistas marchando pelo Portão de Brandenburgo. O pintor e gráfico morreu em casa, em 1935.

Na varanda com uma vista das mais privilegiadas da cidade e com o metro quadrado mais caro do país, os curadores e diretores dos teatros fizeram a foto que marca o início de uma iniciativa que parte da cultura, coerente com a essência berlinense e seu DNA perfeito para agitação e mobilização cultural.Também um verdadeiro berlinense estava presente e já foi avisando para os jornalistas e fotógrafos que todo o ano, no dia 09, ele, dono de um bar, da uma festa com cerveja grátis e já tentou convidar o Tomas, um fotógrafo que foi saindo de fininho: “Eu já tenho comprimisso pra hoje”.

O Berlinense de velha geração, mas cheio de gás e história pra contar, olhou pra mim no intúito de pedir pra tirar uma foto sua, em solo tão prestigioso. Na mesma hora, eu apontei pro Thomas: “Esse aqui é o fotógrafo Top!“. Passei o bastão para o profis para poder fazer minhas fotos sossegada.

Enquanto as fazia, o berlinense contava histórias e estava no sétimo céu por estar ali na varanda de Max Liebermann e claro, ver a Berlim  de fora a fora, sem fronteiras, sem Muros. 

“Nós somos muito. Cada um de nós”

Arte Livre!

Estar neste lugar, no dia de hoje, faz todo o sentido estar em Berlim . É como se fosse um círculo lógico, ao mesmo tempo delineado pelo acaso.

Exatamente em que o Brasil vive a ameaça de ter seu Ministério da Cultura extinto, ver Berlim sacolejando o establishment, é muito confortante quando se vê uma cidade que aprendeu com sua história, mesmo num contexto dos mais cinzentos da história da humanidade que foi o nacional-socialismo de Hitler. Quem anda pelas pilastras do Portão de Branbemburgo hoje não pode imaginar a tensão que era entre as fronteiras. Na escola eu tinha um colega japonês, aficionado pela história de Berlim que sempre ia comigo para a plataforma em frente ao Muro. Ficávamos lá horas observando. Imaginando cenários que já existiam muito antes de nós termos nascido e ao mesmo tempo aliviados por estar do lado certo da cidade.

Abaixo um de melhores vídes disponíveis, sobre o Muro de Berlim. Entre 1964-1968 são concebidas a “Segunda e Terceira Geração” do Muro. 1974, o aperfeicoamento na quarta geração. Em Berlim Ocidental o Muro se torna uma atração turística. Em 1989 a versao High Tech do Muro, que cai antes. 200 pessoas morreram tentando atravessar a fronteira.