Na seleção alemã e na República de Berlim: Tudo Novo de Novo

Na seleção alemã e na República de Berlim: Tudo Novo de Novo

Fátima Lacerda

04 Julho 2018 | 07h24

©DPA

A Alemanha sempre foi um país que não media consequências. Dos erros se tiravam lições para seguir adiante. O Oásis político que aqui se vivia, achando que por mais terríveis coisas que acontecessem no mundo, estaríamos seguros por ter uma chanceler que exibe maestria na “Administração de Crises”. Nas últimas semanas vemos uma chanceler correndo atrás do prejuízo, quebrando um paradigma no seu estilo de gestão.

Ao invés de austera, receber seus colegas europeus no jardim da Chancelaria Federal e deixá-los voltar pra casa sem nenhuma concessão como fez várias vezes com o colega Emmanuel Macron, Merke agora viaja dia e noite para buscar apoio para um acordo em âmbito europeu para a questão migratória. E nem assim, o seu Ministro do Interior da uma trégua em, artificialmente, jogar a Alemanha numa crise totalmente desnecessária, enfraquecer a chanceler como nunca antes em toda a sua vida política e o pior de tudo, ajudar países como a Itália, a Hungria, a Áustria e a Polônia em suas galopantes tacadas nacionalistas. Na política, atualmente, são quebrados paradigmas, tabus. Helmut Kohl e François Mitterand devem estar dando cambalhotas no caixão.

Se pode-se estabelecer uma paralelidade entre política e futebol na Alemanha neste Zeitgeist é que a paúra do novo, do desconhecido determina todo o resto. Um erro fatal. Para a Democracia e para o Futebol.

Daqui pra frente…

Mesmo depois de ser responsável pela pior campanha da Alemanha em toda a sua história numa Copa do Mundo, Joachim Löw decidiu permanecer no cargo de treinador. Que várias Enquetes feitas por portais de esporte e jornais mostram que a maioria dos germânicos preferia que ele tivesse jogado a toalha, não pesou na decisão do vaidoso que, além de ser garoto-propaganda do Creme Nivea, preza seu cabeleiro sempre estiloso. As fotos de Löw na costa do Mar Negro, como se fosse um modelo, ratificam a sua vaidade, mas não é só isso. Ratificam a tese que o poder vicia e que é difícil de largar o osso.

A permanência de Löw é um erro capital e da seguimento à decisões erradas que ele tomou, mesmo antes do torneio na Rússia, começar.

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A nomeação de Gündogan e Özil, mesmo depois de Fotos e troca de simpatias com o ditador turco, Erdogan. Özil, que já estava na mira dos torcedores por nunca cantar o Hino Nacional antes das partidas, se tornou o Judas, o Mercenário que “só joga pela Alemanha por questões de Marketing”, como o acusou Lotthar Matthäus, ex-capitão da Nationalelf em 1990 e que também teve uma pequena passagem como treinador do Atlético Paranaense em 2006 e, atualmente, durante a Copa da Rússia, mantém uma coluna no “Estado”. 

 Teimar em nomear os dois jogadores, envenenou o clima não somente na torcida, mas como vai se revelando aos poucos, também dentro da equipe. Mesmo que, pro forma, o diretor executivo, Oliver Bierhof e o presidente da Federação, Reinhard Grindel tenham declarado a “Causa Özil & Erdogan” como “finalizada”. Que bom que a imprensa alemã é independente e soberana o suficiente para não cair nessa xurumela. A estratégia era “se concentrar no desempenho esportivo” e esse foi o pior de todas as campanhas na Alemanha. Faltaram na equipe Sandro Wagner (FC Bayern) e Leroy Sane (Manchester City). Sandro ficou de fora por nao ter papas na língua. Jogadores com o perfil, sao conscientemente, excluídos por Löw. Escolhas como essas podem determinar e limitar em definitivo a carreira de jogadores mais jovens. Também nisso, Löw e Merkel se assemelham. Quando um da equipe sai fora da linha, Merkel o neutraliza, tira de campo para que nunca mais volte a exercer a carreira política. O técnico detém uma longa lista quando foi implacável com quem ousou em ter postura própria.

Pacto com o diabo

A permanência de Löw não é somente por motivo de  vaidade incontida e devido à dificuldade de largar o osso, comum em quem sentiu o cheirinho do poder. Em sua conta estarão tanto a vitória da Final da Copa do Brasil como também a derrota de uma equipe medíocre jogando com o México na abertura (outro recorde negativo em perder numa partida de estreia em Copas) e uma consternada jogando com um país sem nenhuma tradição futebolística, a Coréia do Sul e sendo eliminado por ela. A teimosia dos Três Mosqueteiros pode gerar uma crise ainda maior no futebol alemão. A DFB usou da estratégia de informar que o “destino de Löw” seria decidido “na semana que vem”, que é a semana corrente. Assim, ganhou-se tempo e se fugiu do acerto de contas midiático.

Para ressaltar dicotomias, valem mencionar que os jogadores coreano, mesmo depois de terem eliminado o entao campeao do mundo, foram recebidos com ovos e almofadas que foram atirados nos jogadores no saguão do aeroporto de Seoul.

Os Três Mosqueteiros Löw, Bierhoff e Grindel teceram um plano. A Federação, (DFB na sigla) favorizou de forma unânime a permanência de Löw para evitar uma dinâmica de um efeito dominó. Caso Löw renunciasse, não haveria motivo para Bierhoff permanecer e lá no andar de cima do prédio da DFB em Frankfurt, a cabeça de Grindel poderia rolar escada abaixo. O presidente, criticado justamente por não ter nenhuma experiência no âmbito do futebol, tem ambições em sediar a Euro Copa em 2024 e não quer correr riscos de perder o cargo.  Para legitimar sua decisão em manter Löw e se manter na cadeira prestigiosa, ele agora estende os braços para os clubes da Bundesliga, pedindo ajuda no “Projeto de Mudança”, de “Reinício”.

Löw é um cara de teimosia extrema e renitente. Sua equipe se torna cada vez maior e mais intransparente. A renovação da Seleção Alemã só será possível sem a dobradinha show de bola, Löw & Bierhoff. Ratificando toda a arrogância dos Cartolas, a DFB, pagou um imenso mico no final do jogo contra a Suécia, quando membros do departamento de comunicação foram no banco do time escandinavo para provocá-los, exibe sérios problemas no setor de imprensa e comunicação. Além dos mais, uma pergunta que nao quer calar: O que esses Cartolas faziam lá no banco?

Norbert, meu amigo do sul ex-jogador de futebol, um analista de primeira e com quem converso horas sobre o futebol alemão, me disse antes da Copa: “Precisamos de uma péssima campanha na Copa para que possa haver uma renovação”. A campanha foi a pior da história e a renovação não veio. A Alemanha já não é mais a mesma.

Nas redes sociais, a zoeira envolvendo a renitência de Seehofer, Merkel e Löw em permanecer no poder exibe teneboras semelhanças entre os três.

Um dos usuários escreveu: “Merkel não renuncia. Löw não renuncia. Seehofer não renuncia. Já deu, Alemanha!“. Uma charge que circula na Internet, exibe as frases: “Seehofer: Nós não vamos receber esses refugiados da Rússia”. Merkel: “Temos, sim, que deixá-los entrar. É a Seleção Alemã!“.