Nice, Würzburg, Munique: O Terror nosso de cada dia

Nice, Würzburg, Munique: O Terror nosso de cada dia

Fátima Lacerda

23 Julho 2016 | 08h49

Polizei- und Feuerwehrfahrzeuge stehen am 23.07.2016 in München (Bayern) vor dem Einkaufszentrum OEZ (Olympia-Einkaufszentrum, in dem am Vorabend Schüsse gefallen waren. Bei den Schüssen am Olympia-Einkaufszentrum in München hat es am Freitag nach Angaben der Polizei Verletzte und mehrere Tote gegeben. Foto: Lukas Schulze/dpa +++(c) dpa - Bildfunk+++

Foto: Lukas Schulze (c) dpa

Na semana passada a dinâmica foi: quinta-feira (14) ataque em Nice. Sexta-Feira (15), tentativa de Golpe Militar na Turquia levando a Europa a constatação que o país de imensa importância geopolítica, jamais fará parte da UE. O atacante Mario Gomez divulgou não mais voltar para o Besiktas Istambul, clube em que atuou até a última temporada justificando as “coisas terríveis” que acontecem no país.

Na segunda-feira (18) num trem regional que ia da cidade de Treuchlingen para Würzburg na região da Baviera (sul do páis) um afegão, menor de idade e que chegou na Alemanha há um ano atrás sozinho, juridicamente classificado como “menor de idade sem acompanhamento dos pais”, aterrorizou passageiros. 

Segundo fontes de atuação na integração de refugiados, atualmente existem 1000 menores de idade no país. O Afegão, de 17 anos havia morado em um abrigo para refugiados. Há duas semanas, porém, estava alojado na casa de uma família de acolhimento (Pflegefamilie, em alemão) que, recebendo suporte financeiro do município, se dispõe a dar ao refugiado, muitos deles em frágil condição psíquica por traumas vividos tanto no país de origem quanto durante a viagem, um dia a dia regrado e um pouco de normalidade.

Falta de vontade política

O Conselho de Refugiados de Berlim (Berliner Flüchtlingsrat) vem criticando há meses o governo de Angela Merkel, alegando que é preciso que o governo, delegando aos municípios, disponibilize mais verbas para a assistência através de psicólogos e psiquiatras frente à situação traumática em que se encontram refugiados recém-chegados, especialmente, os que não tem família, ou a perdeu ou a tem espalhada pelo mundo afora. Existem indícios de que muitas medidas são implementadas pra inglês ver, contando que os refugiados terão seus requerimentos negados e deixarão o país e por isso, não interessaria uma medida de longo prazo, afirma o Conselho.

Mudança de paradigma

O caso do afegão que entrou no trem armado de faca e machado ferindo 5 pessoas e logo em seguida o chamado Estado Islâmico assumindo a autoria do ataque no trem em plena Baviera, uma região que você acha que o universo ainda está intacto de mazelas, muda tudo.

Enquanto a dinâmica de ataques terroristas e a convulsão em que o mundo se encontra fica cada vez mais veloz, o verão que até agora era o verão do ódio entre os adeptos de Erdogan na Alemanha e seus adversários, ou os pró-refugiados e os que os chamam de “gado” ou simplesmente o ódio como um apretrecho diário em todos os âmbitos, agora se tornou o verão do medo juntado à amarga constatação que o tempo em que a Alemanha, por vezes na pessoa da chanceler Merkel podia chegar ao microfone e expressar “a solidariedade com os feridos e famílias dos mortos” acabou. Agora o problema é dentro de casa e logo na região rica, tão perfeitamente organizada como a região da Baviera.

Na terça-feira lá pelas 21 horas, ao praticar meu ritual de jogging pelos arredores do Rio Spree (que atravessa o centro de Berlim), notei câmeras de TV frente à Chancelaria Federal. Perguntei pelo motivo do aguardo e ouvi de um cinegrafista que Merkel e Seehofer (Ministro Presidente da Baviera) estariam em jantar de trabalho para analisar a situação do ocorrido na noite anterior. No início da tarde de sábado (23) (horário local)  todo o gabinete do governo se reuniu na chancelaria federal para analisar a situação.

A dinâmica. De novo!

Numa sexta-feira, um dia depois do início das férias escolares, os bávaros estávam indo  para o shopping fazer as compras do fim de semana. Em frente ao McDonald’s, David S. o alemão-iraniano de 18 anos começa a atirar a sua volta em tudo o que se move. Pelas imagens que viralizaram na internet, poderia se pensar nos tiroteios nos EUA, em escolas, em estacionamentos e durante a maratona de Boston ou na discoteca em Orlando. Mas dessa vez, não é a França e nem Bélgica que, durante anos fizeram vista grossa para o antro de islamistas radicais que esses países se tornaram. Dessa vez é Munique, a terra do FC Bayern, região governada com maioria absoluta pelo partido mais conservador da Alemanha, o CSU que tem um Ministro-Presidente que até o domingo passado em entrevista ao conglomerado de emissoras de TV, ARD, mantia a postura de que tinha tudo sob controle. Em uma só semana: Würzburg e Munique. Um ataque terrorista, outro um empreendimento solitário e criminoso em solos bávaros.

Em conversas com colegas e amigos, aquilo que se pensava ser “coisa do futuro” de era uma “questão de tempo” a Alemanha se tornar alvo de surtos de pessoas psiquicamente frágeis e criminosos recrutados pelos EI, chegou . Segundo testemunhas oculares, David S. teria gritado “Allahu Akbar” (am árabe: Allah é grande!).

Vazou na internet um vídeo mostra uma discussão entre David S. e seu vizinho que parece o rotular “não alemão”. David S. responde: “Eu nasci aqui”. Entre xingamentos, ofensas e acusações, pode-se constatar que o grosso do conflito é de cunho racista e xenofóbico. David S. alega que sofreu bullying durante 7 anos e esteve internado para tratamento.

Na manhã de sábado (23), depois de uma noite de pânico em Munique, a polícia fez buscas no apartamento do autor do ataque, no bairro de Maxvorstadt e não constatou nenhuma conexão com grupos radicais islamistas. O jornal Süddeutsche Zeitung divulga em „Breaking News“ nesta manhã que o ato criminoso que resultou na morte de 10 pessoas, foi um ato solitário, sem coautores e sem conexão com a cena radical islamista.

Um mundo livre?

Na quinta-feira (21) o artesão da guitarra Neil Young deu fim ao jejum anos de ausência na capital. O show que durou 3 horas aconteceu no Waldbühne, um anfiteatro dentro de uma floresta e bem ao gusto do canadense que é um obcecado simpatizante da agricultura sustentável e que tem um extraterrestre chamado Donald Trump ocupando o primeiro lugar na sua lista de “persona non grata”.

Uma noite de verão de sol de brigadeiro. Quem já viveu em Berlim sabe o quanto isso é precioso. Depois de Nice, do golpe na Turquia e mesmo depois de Würzburg, ansiávamos imensamente por um momento de descontração e, para os fãs de Neil Young, confraternização. Cada um de sua maneira bem pessoal. “Earth” era a palavra estampada em sua camisa logo que chegou e se sentou ao piano. Primeiramente, sem a nova banda “Promise of the Real”, da qual dois filhos do Willie Nelson são membros.

BenjaminPrinzkulert-

Cuidar do planeta terra, pela agricultura sustentável e um canadense de 70 anos que já não tem mais tanta foca na voz, mas sua guitarra fala por ele e por todos nós também. 6 vasos de plantas posicionados em frente ao palco, ratificavam a mensagem. Nenhum efeito especial, nem telão. Nada mais além dos 5 músicos no palco. Uma das poucas vezes em que Neil Young se dirigiu ao público de 18.000 pessoas, ele disse: “Quando você olha e constata tudo o que está acontecendo no mundo e você chega aqui (em Berlim) e olha isso (o público no Waldbühne). Pronto. Em só uma frase ele sintetizou, alcançou e expressou tudo o que importava. Menos é mais. Sim!

Rockin’ in a free world” foi a última música. O anfiteatro ferveu. Me permiti acreditar, por uns minutos, que ainda vivemos num mundo livre. A noite de verão berlinense nesse contexto, merecia. Porém não há um show de uma banda que tenha o mínimo de consciência política que não haja uma música relembrando seja o tiroteio na discoteca em Orlando ou em Nice ou em Paris durante o show da banda heavy metal no Bataclan.

Parada Gay- Christopher Street Day

A edição de 2016 da Parada Gay na capital (CSD, na sigla) foi adiada 4 semanas, para o final de julho devido à Eurocopa, que interditou todas as redondezas do Portão de Brandenburgo. Será neste 23 de Julho que Berlim exibirá, mais uma vez, sua diversidade mór e o movimento LGBT preencherá as ruas de criatividade e peito aberto, num país onde os homosexuais e lésbicas ocupam cargos de confiança e de grande visibilidade. Porém essa edição terá um gosto amargo depois da noite de pânico em Munique.

O terror agora faz parte do nosso dia a dia e não há nem mais tempo para o luto. As condolências e as declarações de solidariedade se tornaram corriqueiras, onipresentes- Só muda o lugar.

O próximo surto, o próximo ataque não espera. Dinâmica insana! Esse verão se tornou o verão do medo. No Twitter, internautas indagam se 2016 é o pior ano do século XXI e olha que ele ainda está na metade!

O ataque em Munique não poderia ser num momento mais “frutífero” para associações que se mostram inevitáveis, retrazendo lembranças dolorosas. Como não se lembrar das cenas de terror durante os Jogos Olímpicos de 1972?  Paralelaente, no Brasil, na operação Hashtag, a PF prende 12 membros da Célula do EI que planejava ataque durante as Olimpíadas no RJ.

Movida pelo medo que não estarei na minha cidade natal durante os Jogos. Meu Pai, o holandês pernambucano é o voluntário mais idoso das Olimpíadas e estará na Cerimônia de Abertura no dia 05, realizando um sonho de garoto e envelhecendo com dignidade, algo quase impossível no Brasil. Na próxima semana estarei viajando de trem que, depois da bicicleta, é o meu transporte favorito. A viagem de férias durará 7 horas. Depois de Würzburg, viajar de trem, estará associado ao perigo de atentado. O Terror deixou de ser distante. Está entre nós. Enquanto isso eu, cada dia mais, anseio em Viver sem Tempos Mortos...