O carrossel político em Berlim: mudanças, deslocamentos, troca de cargos

O carrossel político em Berlim: mudanças, deslocamentos, troca de cargos

Fátima Lacerda

27 Setembro 2017 | 18h28

 

Existem muitas dicotomias e antagonismos em como lidar com tremores de terra no âmbito político entre o Brasil e Alemanha. Enquanto em solos tropicais não bastam um, nem dois tremores para causar deslocamentos, delinear e alinhavar mudanças, em solos alemães tudo acontece muito rápido depois de um terremoto político. As consequências aparecem rápido. Não se deixa para amanhã para fazer a fila andar. Nem no âmbito de trabalho, no pessoal e muito menos, no politico. Seja para se manter no poder com uma maioria confortável ou para aparar as beiradas e evitar ser pego de surpresa sendo jogado no olho da rua ou tendo que sair pela porta dos fundos. A frase do ex-líder da UDSSR, Gorbatchev, mencionada pela primeira ver e eternizada em outubro de 1989, no contexto de sua visita a Berlim Oriental e como recadinho para os magnatas do Politburo pouco mais de um mês antes da queda do Muro de Berlim:” Quem chega tarde demais, é punido pela vida”.

Por partes

Merkel: o atual abacaxi da chanceler é sondar qual constelação partidária para a formação do novo governo que lhe dará estabilidade para governar os 4 anos que a legislação prescreve.

Excelente estrategista, ganhou um trabalho de casa ainda mais difícil do que em negociações passadas. Desta vez, são 4 partidos que precisam encontrar um denominador comum, para fazer parte do próximo governo, ao mesmo tempo que precisam mostrar serviço para seuss respectivas eleitores e chegar junto nos itens prometidos durante a campanha.

Os Verdes tem a questão climática, como por exemplo a extinção da energia de carbono ate 2030. A partir dessa data, carros movidos a diesel e gasolina e diesel não irão obter permissão para ir para as ruas. Merkel, chamada de”A chanceler da Industria automobilística” tera que cortar um dobrado para manter uma certa postura. Os Verdes também querem uma politica concreta e eficiente de integração para refugiados e exilados. Robert Harbek, uma das cabeças mais coerentes do partido, alegou recentemente em programa de TV”: Se retrocedermos a politica dos refugiados, ratificaremos a percepção desses nacionalistas e racistas. Isso não pode acontecer”. Essa mensagem é um recadinho para a chanceler sobre o que o jargão está denominando de “a linha vermelha” (itens inegociáveis).

CSU da Baviera: uma novela sem fim

A União Social Cristã, desde sempre partido-irmão do CSU de Merkel tem como sua espinha dorsal temática a famigerada palavra “Obergrenze”, que significa a estipulação de um número de imigrantes que podem entrar legalmente na Alemanha. Merkel, até agora “armada” sua frieza calculista estratégica vem negando categoricamente essa medida e ressaltando para o direito de asilo político.

Tendo perdido muitos eleitores nas eleições de domingo, o chefe do CSU, Horst Seehofer, está sofrendo pressão para passar adiante o bastão. Na fila sucessória do partido tem um monte de abutres querendo pegar seu lugar. Resumindo: se Seehofer abdicar do item programático mor do partido, será o seu fim como o Todo Poderoso da Baviera. Nem mesmo a constância bávara está saindo imune do terremoto político que acomete a Alemanha.

Os (neo) Liberais democratas querem diminuir impostos para a classe media e pequenas e medias empresas, sua clientela tradicional. Além disso, o partido com a sigla FDP já avisou que quer a pasta das finanças, depois do cargo de chanceler, a pasta mais importante e que irá dar as coordenadas da política financeira no âmbito da UE.

Analistas políticos contam com a posse do novo governo poucos dias antes do Natal. Enquanto isso, o atual governo continua atuante.

Mão de ferro

Wolfgang Schäuble (75) foi o tecedor da politica de austeridade financeira na zona da UE. Ele é a personificação da política austera de Merkel. Mesmo querendo continar no cargo, Merkel já vem mexendo seus pauzinhos no âmbito da estratégica. Nesta quarta-feira (27) também para surpresa de seus funcionários do ministérios, foi anunciado que Schäuble será o novo Presidente do Parlamento. Esse cargo tem a incumbência de fazer a democracia parlamentar funcionar durante as sessões e votações. Em períodos anteriores, era raríssimo barracos e comportamentos que iam de encontro às normas da casa. Isso irá mudar de forma vertiginosa e Schäuble terá que mostrar autoridade, experiência e determinação.

Com a escolha de Schäuble antes das conversas de sondagem, Merkel, tendo aquele que era Ministro do Interior no governo Kohl preso à outras incumbências além de um cargo de grande prestígio, ela já sinaliza para os pontenciais parceiros a vaga livre da pasta das financas, com possibilidade de barganha e de um toma lá da cá. A constelação “Jamaica” irá sair bem caro para Merkel e a chanceler já está abrindo a carteira para criar um clima favorável nas negociações.

Daqui pra frente…

Com a presença de 94 parlamentares do partido “Alternativa para a Alemanha”, partido nacionalista de extrema-direita, o discurso será bem outro aos dos últimos anos. O chefe do AfD, Alexander Gauland, usou de retórica bem clara logo seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos primeiros resultados. Seu partido angariou 12,6% dos votos além de se tornar a terceira bancada mais forte na Câmara Baixa do Parlamento, o Bundestag. “Seja quem for que irá formar esse governo. Eles que se agasalhem. Nos vamos caçá-los. Vamos trazer o nosso país de volta” disse ele, passando a visão do que vem por ai.

(c) AFP

Os social-democratas

O candidato derrotado Schulz sugeriu a atual Ministra do Trabalho, Andrea Nahles como chefe da bancada do SPD na nova constelação do parlamento. Na quarta-feira ela ainda participou da reunião do gabinete Merkel (sempre as quartas-feiras), mas já se despediu da chanceler. Inusitado, para dizer ao mínimo, uma coligação que já foi cancelada, por motivos de coordenação, juntar na mesa adversários políticos, mas que ainda cumprem o protocolo enquanto o novo governo não toma posse. Nahles que não esconde sua euforia com o novo cargo, é a primeira mulher chefe de bancada dos social-democratas no parlamento e já mudou seu tom de ministra para oponente: “A partir de amanhã eu vou dar na cara deles”, declarou em tom impropío, mas já mostrando que o tom do discurso nos próximos 4 anos será bem acalorado, atípico para os alemães.

Sofrendo muitas críticas internas no partido pelo qual, no início do ano foi eleito com 100% de aprovação, o candidato derrotado fez a fila andar, mudou ocupantes de cargos em velocidade Blitz, para mostrar serviço, mas também para desviar a atenção de sua responsabilidade pela derrota avassaladora nas eleições de domingo (24)

As eleições gerais resultaram numa mudança da constelação partidária e o novo parlamento terá o maior número de políticos da história do país:709.

Além da matemática, as bancadas dos partidos CDU &CSU (que formam a União), os Social-democrata, os Democratas (Neo)Liberais, Os Verdes, O partido esquerdista Die Linke e o “Alternativa para a Alemanha” exibem, decerto, um retrato mais contemporâneo da sociedade alemã incluindo os autodenominados “Patriotas” e os (Neo)Liberais, expulsos do parlamento em 2013.. A democracia alemã, sem dúvida, robusta terá seu maior desafio: instigar, ao invés do ódio, diálogo quando ele se mostra mais difícil e ideológica- e intelectualmente intransponível. Nos meus quase 30 anos em solos alemães, eu nunca presenciei tanto a cultura da desavença e ódio e um país tão dividido.