Políticos e a total perda de senso de realidade: la e cá

Fátima Lacerda

23 de setembro de 2016 | 18h46

“O poder te faz atraente”, prescreve um ditado popular alemão. O Status social também.

É péssimo para a democracia quando políticos esquecem que o voto é emprestado e que, na próxima ida às urnas, o mesmo pode ser retirado e emprestado a outro candidato ou simplesmente ser feito inválido. 

O circo politico está repleto de protagonistas que já perderam o senso de realidade.

O candidato a prefeito do RJ, Marcelo Crivella, por exemplo, aparece frente às câmeras como quem acabou de chegar do Além e está sendo guiado por um controle remoto embutido, invisível para pobres mortais eleitores e não passa firmeza nem mesmo o que ele próprio diz. 

De crônica falta de realidade sofre também a candidata Jandira Feghali que não foi orientada suficientemente bem para se mostrar preparada para a entrevista desta semana no RJ TV, primeira edição. Jandira utilizou os 15 minutos de janela temporária para fazer um protesto sobre o impeachment contra a Dilma e de apoio à Lula enquanto as repórteres tentavam puxar o barco para o outro lado, destorcendo o foco do assunto principal. Uma disputa indigna para o espectador e nota 5 para o desempenho da candidata do PCdoB. Feghali ficou em êxtase por estar na telinha global ao mesmo tempo que não entendeu, melhor, não alcançou ou não foi avisada por sua equipe, como se comportar para passar credibilidade e não uma postura autoritária. Quando, em seus comíssios, ela prega o comunismo, eu constato que ela perdeu o capítulo da história que trata da queda do Muro de Berlim e da resultante mudança da ordem mundial e ainda sem cogitar a complexidade do mundo pós-globalizado em que vivemos.

Como se não todo o equívoco não fosse suficiente, para arrematar e jogar tudo no ventilador, o Flávio Bolsonaro (PSC), entrevistado de sexta-feira (23) indagado pela jornalista Mariana Gross sobre se a declaracao de seu pai (Jair Bolsonaro) à deputada Maria do Rosário que ele não iria estuprá-la porque ela não merecia, seria um desrespeito com 47 mil pessoas que foram estupradas no Brasil em 2015, o candidato não pestanejou: “Olha, ninguém mais do que ele defende as mulheres contra o estupro” e alegou que seu pai “tem projeto lá para castração química de estuprador” e divulgou: “Inclusive quem fez o projeto para ele fui eu, porque eu pesquisei que em alguns países da Europa, onde o estuprador se submete a esse tratamento hormonal, a redução da reincidência é de 90 para 3%“. Jair Bolsonaro como defensor das mulheres e no final do ano, o José Wilker vai mandar um tuíte, avisando que acordou.

Políticos do lado de cá

A Associação Brasil-Alemanha, com matriz em Bonn e escritório em Berlim é uma organização ligada ao Brasil há mais de 50 anos. Seus membros de diretoria foram embaixadores do governo alemão no Brasil. Existem também pessoas que, num passado remoto, tiveram alguma ligação com o Brasil.

Os eventos, muitos deles em parceria com a embaixada brasileira em Berlim são, principalmente, no setor cultural.

Quando a DBG é protagonista de eventos de cunho político, se revela um ranço aristocrata de um passado que não tem nada a ver com o Brasil da contemporaneidade e isso já bem antes do impedimento, em forma de facada, que sofreu a ex-Presidente Dilma Rousseff, inclusive por sua própria culpa e falta de discernimento da gravidade dos problemas em sua volta: ter trazido o inimigo pra dentro de casa, tê-lo subestimado de forma incomensurável, assim como péssimos conselheiros é demais no ventilador para quem quer continuar Chefe de Estado num país continental como o Brasil. A ex-presidenta afirma que irá “voltar” e se mostra ser mais um paciente sofredor de crônica falta de conexão com a realidade. Politicamente, Dilma morreu assim como a política esquerdista de 12 anos do PT. Em contrapartida, a esquerda brasileira não conseguiu se emancicpar do PT e agora, como diz um ditado alemaok Quem nas ruas clama que ela ou ele vão voltar, está acometido da mesma maladia dos políticos. O partido Verde, que outrora parecia uma perspectiva, ou está trancado demais com os agronegócios como Marina Silva ou é um clube do bolinha elitista da zona sul do Rio e de SP. 

Um ranço de tentativa de colonização

Na tarde de quinta-feira (22), a Associação Brasil-Alemanha convidara para “conversa com parlamentares do Bundestag” que estiveram em viagem ao Brasil. O local do evento suscitava uma seriedade que acabou se desvendando como somente formal.

O edifício Jakob-Kaiser Haus fica à beira do Rio Spree, rio que atravessa o centro de Berlim. Depois de um procedimento de segurança com o funcionário pedindo para ver o meu chaveiro (que tem uma imitação da Torre Eiffel e sempre causa suspeitas), ele me deixou entrar.

Ao chegarmos na sala, os cumprimentos eram feitos como quem chega para tomar o chá das cinco. Rever pessoas conhecidas é sempre bom.

Sentei estrategicamente perto da porta, já que tinha compromisso em seguida e não queria ter que atravessar o salão inteiro ao sair.

O parlamentar do CDU iniciou totalmente despreparado. E não só ele. Contou-se com o status de parlamentar para dar a seriedade com a qual os visitantes contavam. Peter começou e já passou a bola para o seu companheiro ao lado. Esse informou que entre as estações da viagem estavam Brasília e Rio Grande do Sul. Querendo tirar o ranço de burocrático, ele divulgou olhando para o papel a sua frente: “Nós decidimos conscientemente ir para fora dos  polos rotineiros”. Uma das estações foi o Rio Grande do Sul.

Em regojizo de festa de confraternização, o grupo foi classficado como um grupo “harmônico”, algo que é relevante para quem fez parte,  mas nem um pouco para que não fez parte do animado grupo que voltou dando super dicas sobre o Brasil além de nos informar sobre a atual situação política (muito útil para quem, na Alemanha, ainda não tem acesso à internet). “Eu acho um absurdo aquilo que o Cunha fez com a presidenta” declarou um em voz alta e decidida o parlamentar Fischer. Antes disso, o ritual de hábito do clube do bolinha no âmbito de diretorias e grêmios. Você quer conhecer uma hierarquia chata e obsoleta, vá a uma reunião de associação, mas não se esqueça de levar uma bola de la pra tricotar porque quando você sair de lá, o pulôver está prontinho pra vestir. Vaidades pueris encontram solo fértil, especialmente, em clubes de bolinha.”Nós fomos jantar na casa do embaixador. De repente eu vi alguém do meu lado, que falava alemao fluente (ele fez mestrado na cidade de Trier) e quando eu vi, era o novo Ministro da Justiça!”, disse ele se gabando e colhendo risinhos do seu público.

Num país que é governado pela mulher mais poderosa do mundo, ainda persiste uma fração dos sessentões e setentões que ainda acham que lugar de mulher é dentro de casa, mas quando ela (mulher) insiste em sair e ir à um evento político, é para ser desagrada a ser figurante, ponta e ai dela se ousar em questionar à parlamentar Bärbel Höhn, dos Verdes, se o seu partido ainda continua insistindo no apoio de Marina Silva sabendo de suas conexões com os magnatas do agronegócio e com a parte evangélica mais conservadora do país.

Bärbel, aliás, havia chegado atrasada, mas tinha um álibi: “Acabamos de ratificar o Tratado de Paris e isso é muito, muito importante”, declarou sem esconder orgulho na voz. Até ai, o evento tinha tido a participação do clube do bolinha. Uma parlamentar de jaqueta verde, do CDU, o mesmo partido de Merkel, teria entrado muda e saído calada, não fosse eu insistir para saber nomes com oposicionistas e cabeças e movimentos sociais com quem a delegação teria se encontrado. Logo depois, quase na metade do evento, a Senhora se retirou, quase juntamente com seu colega da direita que vestia uma gravata vermelha que, na hora da apresentação, serviu de pista ideológica para nós, os súditos, adivinharmos como no “Qual é a música” do Silvio Santos.

Não foi distribuída qualquer lista com o nome e a filiação dos parlamentares aos respectivos partidos. Um socialdemocrata que, bem no estilo brasileiro chegou atrasado, só mexeu negativamente com a cabeça quando um brasileiro do sul, sentado na ponta da mesa, sem nenhum simancol concernente ao tempo sentido infinito que fisgou, destilava o seu ódio ao governo da ex-presidenta como se estivesse num fórum econômico e o destilava da forma germânica: nao expansivo, mas de forma fria e com um sorriso cínico no semblamte. Foi essa mesma criatura que, ao ver a irritação do clube do bolinha com a minha insistência em conseguir dados concretos, ao me ouvir perguntar sobre a possível continuação do apoio do partido verde à Marina Silva, sacou a oportunidade e bravejou: “Isso aqui vai virar uma coletiva de imprensa?”. Isso acontece, quando a roda não tem um apresentador, um que conduz a discussão, ou palestra. Nesse caso de quinta-feira no final de uma linda tarde de início de outono, época onde Berlim se mostra com a luz mais linda de se ver, ninguém sabia o roteiro desse evento sem qualquer preparação. Alguns que ali foram, bastaria ouvir um pouco do Brasil para matar a saudade ou talvez compreender mais o momento doloroso e complexo que o país passa. No decorrer do discurso do presidente empossado na Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, acompanhamos ao vivo o Brasil adentrando o solo árido da isolação internacional. Em sinal de protesto, 6 países do Mercosul deixaram o plenário durante o discurso do ex-vice presidente e chefe do PMDB. O governo federal alemão, fora um telegrama parabenizando José Serra pela nomeação para Ministro das Relações Exteriores, ainda não se pronunciou sobre o novo governo.

Tirando os noves fora

No final da tarde de outono, ficou o gosto amargo de ter perdido duas preciosas horas para conseguir uma única info que merece esse nome: o encontro da parlamentar Bärbel Höhn num evento onde, além de outros políticos, também se encontrava a ex-ministra do Meio Ambiente, mas que atualmente prioriza viajar o mundo fazendo palestras, depois de ter jogado no lixo os 20 milhões de votos que outrora angariou, mas não sem antes, alegar “neutralidade” para o segundo turno das eleições presidenciais de 2010, foi a única info concreta do evento. 

Depois de todo o contingente de esperança e paciência esgotados para a possibilidade de obter infos concretas sobre uma viagem paga pelo contribuinte eu me levantei e me fui. Que bom que a porta estava logo atrás de mim.

O discurso político

Foi na faculdade de ciências políticas, FU Berlin que eu aprendi de carteirinha que o discurso político jamais seja digerido sem ser devidamente mastigado. Nunca, nunca. É preciso sempre questionar. É preciso o diálogo, a controversa. Na Alemanha prevalece esse discurso, mas parece que esse desenvolvimento muito propício e lutado por gerações anteriores, passou ao largo pela Associação Brasil- Alemanha. Lá, a esmagadora maioria é de saudosos, que conheceram um Brasil que hoje não existe mais e ainda tem a ousadia de querer explicar para brasileiras e brasileiros presentes, como é a situação no Brasil. Tudo bem que está no DNA dos alemães a mania de querer te explicar como funciona o mundo, mas tudo tem um limite. Afinal, os tempos de colonização já passaram e síndrome de vira-lata eu não tenho. 

Quando a astúcia do que é política é inexistente, se apela para os alemães presentes “ajudarem” o Brasil a “fortalecer a sociedade civil”. Em suma: um evento repleto de equívocos até o teto e sem direção. Saí de lá com a sensação de ter perdido um final de tarde das mais lindas que Berlim oferece no ano, mas também com a absoluta certeza que nenhum segundo a mais do meu tempo será sacrificado para um evento oco.

Uma coisa é uma coisa

Como se o acaso foi misericordioso, na sexta-feira (23) pudemos conhecer o arquivo de documentos do Ministério das Relações Exteriores, com um acervo entre 36.000 e 37.000 contratos e catalogizados desde o ano de 1868 ao longo de 27 quilômetros de estantes. A temperatura ambiente varia entre 16 e 18 graus e a umidade relativa do ar é de 50%, o que causa à palestrante, rouquidão já na reta final da visita guiada de uma hora e 15 minutos.  Numa das gavetas, vê-se acordos bilaterais feitos com vários países, inclusive com o Brasil, rotulados com o símbolo da bandeira.

O ápice da visita que durou 2 horas incluindo vasto tempo para perguntas e questionamentos, foi o contrato original de unificação dos dois estados alemães, assinado em 12 de setembro de 1990. Há vários metros da superfície da terra num lugar frio e fechado, o coração quase parou. Também o contrato original entre Alemanha e Polônia, assinado em junho de 1991 firmando “cooperação e trabalho cordial” assinado por Lech Walesa, fez o coração bater mais forte. Conteúdo, preparo excelente, empatia, construtividade, além de intenção de angariar e de prestar servicos de informação, considerando que o tempo de todos nós (e não só dos prezados parlamentares), é precioso e merece ser respeitado. Convidar interessados no tema e  subestimar sua inteligência e capacidade de questionar além de requerer dos mesmos muita paciência, frente à monólogos de conteúdo obsoleto ou vazio com o motivo único de uma justificativa administrativa, é nos colar o rótulo de burrice, ingenuidade e imaturidade política. Fica também a amarga impressao que a viagem, paga pelo contribuinte, ou seja, também por mim, não passou de uma excursão do tipo turma de colégio, que encantou e supreendeu os parlamentares ao constatarem como a cultura alemã ainda é viva no Brasil.