O dia em que Berlim foi mais feliz

Fátima Lacerda

08 de novembro de 2013 | 13h56

07 de outubro de 1989. A RDA completava 40 anos. A manchete do jornal Die TAZ avisava: Hoje a RDA está fechada. Ninguém entra, ninguém sai.” O então líder soviético Michael Gorbachev era o convidado de honra para as comemorações no “Palácio da República”, objeto aquitetônico de prestígio do governo socialista que o denominou “Casa do Povo” e popularmente apelidado de “Honeckers Lampenladen“, (a loja de lâmpadas do Honecker (Chefe do país) devido ao incontável número de lâmpadas no saguão de entrada.

Enquanto no Palácio da República os senhores do Politbüro do partido SED tomavam champanhe e degustavam caviar russo, o país lá fora, agonizava. Com gritos de “Wir sind das Volk” (Nós somos o povo) milhares alemães orientais ocupavam as ruas da cidade de Leipzig e Berlim.  Um verdadeiro ritual de passeatas iniciou-se na cidade de Leipzig com as passeatas das segundas-feiras (Die Montagsdemonstrationen), marcou o início de um novo tempo, pacientemente preparado pelo movimento oposicionista do país que contou com o apoio-chave das igrejas protestantes, onde eram frequentemente realizadas vigílias e ao invés da leitura da liturgia, discutia-se sobre democracia e direitos humanos, meio-ambiente e liberdade ao mesmo tempo que se dividia o medo constante.

Do lado de fora do Palácio, manifestantes gritavam “Gorbi! Gorbi!”. Foi também na ocasião desta visita à Berlim Oriental, que o líder soviético em entrevista lançou a frase: : “Quem chega tarde demais, é punido pela vida”, mensagem adressada ao alto escalão do partido SED (União socialista alemã). De fato, o muro começou a adquirir um monte de buracos quando o governo húngaro decidiu acabar com a chamada “Fronteira Verde” (Die grüne Grenze) entre a Áustria e a Hungria. A partir do verão europeu de 1989, os alemães orientais, permitidos a fazer férias nos países do leste europeu, começaram a fuga em massa no trajeto Hungria-Áustria-Alemanha deixando tudo pra trás: Casa, família, emprego e uma longa lista de trabantes no meio do mato, a imagem inconstetável da falência do chamado “Socialismo Real”. Na sequência, a fuga em massa para a Embaixada de Praga, que virou um acampamento para alemães que não paravam de chegar.

A noite do 09 de novembro

No 09 de novembro, me via fazendo baldiação na estação de metrô Berliner Strasse. Todas as quintas-feira à noite, eu tinha o curso de Dança Pós-moderna/dança contemporânea aquela que de entre 2-3 passos você se joga e se arrasta no chão. No fim da aula, eu e Markus (colega da turma) fomos à uma pizzaria no bairro de Neukölln, bairro em que eu morava. Me lembro que no local rolava um burburinho, uma energia inquieta. Depois do jantar fui pra casa. Na época morava com duas mulheres alemães (isso no Brasil se chama República) e aqui leva o nome de Wohngemeinschaft, ou seja, pessoas dividem um apartamento (ná época) menos por questão de acomodação e mais por questão de posicionamento político. Viver em comunidade é melhor que o individualismo, o isolamento, assim a filosofia. Éramos Eu, Carola e Birgit, essa última, berlinense de carteirinha.

Jornal da Noite

Somente quando voltei pra casa tomei conhecimento através do noticiário o que acabara de acontecer. Hans-Joachim Friedrichs, um dos mais respeitados e premiados âncoras da histórica midiática da Alemanha, abria o editorial do jornal das 22:30 horas, o “Tagesthemen“:    “É preciso tomar muito cuidado com o uso de superlativos que rapidamente se desbotam, mas hoje à noite ousemos um desses superlativos. Esse 09 de novembro é um dia histórico. A RDA acabou de informar que a partir de agora as fronteiras estão abertas para todos. Os pontos de controle do muro estão abertos”. http://www.youtube.com/watch?v=BCDdSXy22ms

A coletiva de imprensa e o acaso como Protagonista

Um sistema caracterizado pelo controle minucioso e permanente de seus habitantes falhou na hora menos propícia na pessoa de seu porta-voz, Günter Schabowski. No intuito ingênuo de desacelerar a dinâmica das ruas, foi convocada uma coletiva de imprensa, que durante a maior parte do tempo seguia fiel a trilha de Tantas outras não trazendo quaisquer infos relevantes. Ja no finalzinho, Schabowski tiraria um bilhete de papel do bolso e anunciava que o governo “…possibilitará, sem maiores burocracias, viagens para fora do país…”. Depois de segundos de burburinho na sala, o jornalista italiano Ricardo Ehrmann foi o único a se atrever em perguntar : “Essa medida entra em vigor a partir de quando?”. Como um menino de escola que não fez o trabalho de casa, Schabowski olha para o bilhete, examina o lado oposto do papel e diz: “Pelo o que eu sei…imediatamente.” http://www.youtube.com/watch?v=TQiriTompdY

Em segundos as mídias anunciavam pelo mundo que os pontos de controle do muro estavam abertos. O que Schabowski não sabia era  que a medida deveria entrar em vigor no dia seguinte. Nem os policias de fronteira haviam sido informados. Esses, totalmente pegos de surpresa, consternados foram confrontados com uma multidão que quanto mais a notícia se espalhava, proporção mais amendrontadora tomava. De fato, os responsáveis pela abertura dos portões na noite do 09 de novembro foram os controladores de fronteira que, mesmo durantes décadas socializados e treinados para desaprenderem a tomar decisões, cederam à pressão do povo. Uma das cenas mais significativas e surreais dessa noite de 09 de novembro é, frente a multidão eufórica, o policial se posiciona do lado e fuma um cigarro. O cigarro depois da queda de um sistema, de um país e de convicções cultivadas nutridas uma vida inteira.

O dia seguinte

Na época eu era estudante do segundo semestre na área de ciências políticas no Instituto Otto-Suhr na Universidade Livre de Berlim. Os seminários também aconteciam no Instituto J.F.Kennedy quando o tópico eram as relações internacionais EUA-Alemanha. Nesses dias (e nos que viriam) o clima era de tensão, expectativa, burburinho e da sensação de que naqueles dias estávamos vivendo um momento histórico.

Ekkehart Krippendorff, um Professor brilhante, frequentemente de cara amarrada e que diferenciava entre os estados civis casado X feliz, conversava com os alunos de igual pra igual e nos arrebatava igualmente pela paixão que nutria pela profissão e a propriedade com a qual a exercia. Outra Professora, convidada especialmente para aquele semestre, era a novaiorquina Janice Lee Bockmeyer. Descolada e muito simpática, conduzia o seminário “Communitiy Politics in New York City and West Berlin: The Lower East Side and Kreuzberg als Politicial Environments”. Suas aulas eram sempre muito concorridas com sala cheia e uma deliciosa prática de discussão controversa e questionamento.

Naquela sexta-feira 10/11 foi Janice que nos instigou a ir no discurso planejado para acontecer em frente à prefeitura da cidade no bairro de Schöneberg. (Rathaus Schöneberg). Esse local já havia sido testemunha da história, quando J.F.Kennedy em pessoa, disse a frase que o colocaria pra sempre no coração dos Berlinenses.

Seguindo a dica de Janice, fui de metrô para o local e por razões que não entendo até hoje, consegui chegar na frente do palanque. Nele falaria primeiramente prefeito de Berlim, o socialdemocrata Walter Momper, que usando a frase de autoria de Ernst-Reuter (ex-prefeito de Berlim) disse: “Povos do mundo, olhem para essa cidade!”. Logo depois foi a vez do mais famoso dos socialdemocratas, Willy-Brandt. Muito querido pelos alemães pelas incomparáveis contribuições igualmente como chanceler e prefeito de Berlim, Brandt ressaltou o momento histórico equipado de retórica ímpar. Um olhar pra trás me fez constatar uma multidão que ali se aglomerava. O ápice do evento deveria ser protagonizado pelo chanceler Helmut Kohl. Ao invés disso, seu discurso foi acompanhado de vaias ensurdecedoras, enquanto Brandt gesticulava com a mão pedindo calma. Sem sucesso. Um dos poucos aplausos ocorreu quando Helmut Kohl deu a entender,que a continuação das reformas da RDA culminaria na unificação das duas Alemanhas. O povo vibrou.

Momento pra ficar na minha história

Enquanto depois do discurso terminado, o burburinho e a confusão dominavam, eu simplesmente segui Willy Brandt que ia para o pátio da prefeitura, onde estavam colegas políticos e o carro que o levaria embora dali. Com o coração saindo pela boca, eu me dirigi à Willy Brandt, desprovido de seguranças e disse. “Sou estudante de ciências políticas, sou brasileira e o admiro profundamente. Ele apertou minha mão

e com um sorriso inconfundível, disse: “Bacana” e completou: “Você escolheu a Hora certa para vir pra Berlim”. Sem querer alugá-lo por mais tempo, vislumbrei dois outros jovens que tomariam o mesmo caminho que eu enquanto eu ali mal podia acreditar no que tinha acabado de vivenciar. Enquanto a ordem do mundo era corrigida, mudada, esse político que eu tanto admirava, tomou um minuto pra falar comigo. Os outros não tiverem tanto tempo assim, mas igualmente à mim esse encontro ficara marcado na retina pra sempre. Um encontro parecido, ocorreu em 2012 com o também ex-prefeito de Berlim e ex-Presidente, Richard von Weizsäcker. Agora só falta mais um, pra completar o trio político dos Dinossauros…

O Turbilhão

Saindo dali me dirigi ao ex-ponto de controle Checkpoint Charlie, onde todos os dias as forças americana e russas ficavam frente à frente. Nessa noite, 10 de Novembro, me juntei à tantos outros nos gritos de alegria, no bater no capote do Trabant, o carro-símbolo do sistema comunista. Tirei fotos que viraram Slides. Vi ocidentais recebendo orientais com barras de chocolate e um tipo fajuta de champagne que se chama Sekt. Nunca em Berlim eu vi uma cidade em tal estado êxtase, de euforia ímpar, de comunhão, numa alegria sem fronteiras. Talvez o principal motivo da alegria não fosse receber os – popularmente  chamados – Ossis (do leste) e sim a alegria incomensurável de atravessar a fronteira, até entao proibida e de perigo de morte, de vivenciar o ir e vir através dos portões do muro.

O repórter Silio Boccanera veio às pressas à Berlim e de pé em cima do muro rodeado por uma multidão incontida na felicidade, fez  junto com seu cinegrafista Paulo Pimentel o registro ímpar desse momento histórico para o Jornal Nacional. 20 anos depois, Silio retornara à Berlim para a comemoração de 20 anos da queda do muro. Dessa vez o lugar era o centro nevrálgico de Berlim, Alexanderplatz. Ali, entre Maio de 2009 e Outubro de 2010 foi realizada a exposição  “20 Jahre Mauerfall” que contou, além da presença da chanceler Angela Merkel ,com mais de um milhão de visitantes e da qual eu integrava a equipe e era responsável pela assessoria de imprensa nacional de internacional. Nesse contexto, tive a chance de conhecer Hermano Henning, uma referência-chave pra mim desde pirralha e o não menos exímio jornalista Silio Boccanera, que retornara à Berlim 20 anos depois com o mesmo cinegrafista: Paulo Pimentel. Mesmo tendo ficado 20 anos sem visitar Berlim, é impressionante a percepção aguçada de Silio sobre a dinâmica que a cidade havia tomado.

http://www.youtube.com/watch?v=hNh_4SoTYhs

http://www.youtube.com/watch?v=HdnM-Tlorr0

Programa “Sem Fronteiras” exibido em Novembro de 2009:

http://www.youtube.com/watch?v=LIQaLsOJzQA

 

Berlim, Novembro de 1989.

Parte interna do muro, onde hoje é asfalto em frente à embaixada americana. O da ex-RDA à caminho (lado direito da Foto) veio e nos expulsou dali aos berros no mesmo tom que caracterizou por 40 anos o regime da Alemanha Oriental.

Links relacionados:

http://www.youtube.com/watch?v=KG9tA-jJmsw&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=IS7Gf_u5Peg

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