Berlinale: Wim Wenders se mostra mais humano em “Agora tudo vai dar certo”

Fátima Lacerda

10 de fevereiro de 2015 | 20h40

201511036_71-1024x681.jpg©Berlinale

Ao contrário do efeito magnético que os filmes de Rainer W. Fassbinder exerceram sobre mim devido à sua obsessão em despir o ser humano, seus abismos e idiossincrasias, os filmes de Wim Wenders, exceto “O meu amigo americano”, “Paris Texas”, ”O medo do goleiro na hora do pênalti”. e claro, “Asas da liberdade“, não me emocionavam.

No início da tarde de hoje (10), a cabine do filme “Tudo vai dar certo”, tive a chance de fazer as pazes com Wilhelm Ernst Wenders, esse que veio ao mundo na cidade de Düsseldorf que da perspectiva berlinense, esquerdista e revolucionária, é o inferno em terra, habitat mór de uma burguesia rica e decadente.

Mesmo que o filme tenha um monte de defeitos, começando por um roteiro cheio de falhas no alinhavar do argumento, em “Tudo vai dar certo” Wenders se mostra no auge da maturidade cinematográfica em termos de temática, mas o melhor de tudo: o filme é tenro, humano e por ironia cinematográfica, essa maturidade fica especialmente clara nas personagens dos atores mirins, principalmente na personagem do Christopher, quando criança.

A espiritualidade, tema raro nos filmes de Wenders, se torna instrumento ou perspectiva de superação da perda do filho Nicolas e se expressa na cena em que um livro sobre Deus, é dado ao protagonista, vivido por James Franco. Sua personagem foi estruturada de forma hermética, falando em sussurros e com uma über economia nos movimentos. Segui-lo e (como não fazê-lo?) é se aliar a ele num angustiante cárcere corporal e constatar que ele (o cárcere) não nos leva a lugar algum devido a graves falhas no roteiro.

Perguntado por mim durante a coletiva de imprensa como se preparou especificamente para essa característica da personagem, ele ficou ciscando e não foi ao ponto: “Quando li o roteiro, percebi que seria um filme sobre uma viagem interior. Sobre um cara que vive debruçado sobre o trabalho e que é muito econômico em suas relações pessoais”.

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O menos que é mais

O conteudo habitual em coletivas para promoção de filmes contém sempre o mesmo discurso previsível, ao mesmo tempo que  em termos de indústria, necessário. Não se poupa elogios aos atores e não se poupa adjetivos quanto à escolha do tema. No caso de “Tudo vai dar certo” a impressão que o diretor aparenta, é autêntica. Iniciando a coletiva, o mediador, que apesar de total falta de empatia e tato continua mantido nesse cargo) instigou: “Eu ouvi dizer que o roteiro caiu na sua mão”.

Sim. O recebi em forma de e-mail e simplesmente gostei”, disse sem rodeios como só os alemães sabem fazer.

Uma jornalista indagou se o clima do filme não seria um tanto deprê, segundo ela, típico dos países nórdicos. Soberano, de novo e autêntico e também irônico, Wenders mandou: “Eu sempre disse que nós alemães temos algo nórdico”, se referindo à capacidade ímpar dos alemães em preferir ver o copo meio vazio, ver o mundo como um lugar de sofrimento permanente.
Desde “Pina” Wenders tomou gosto pelo formato 3D e a perpetuação dessa técnica. Em “Todo via dar certo” essa técnica se mostrou altamente superficial, bem perto do desperdício.

Wenders de bicicleta

Na minha pergunta ao diretor, mencionei um situação de há uns 4 anos, quando do nono andar de um edifício, vislumbrei Wenders atravessando a rua em companhia de sua esposa, a fotógrafa Dana Wenders e de mais uma pessoa. Wim Wenders andando pelas ruas de Berlim. Sem carro, sem guarda-costas . De fato é isso que artistas de todo o mundo elogiam na cidade: A possibilidade de viver uma vida normal. Essa visão surpreendente do nono andar não teria lugar nesse artigo nem mesmo justificaria uma pergunta, não fosse a simbologia do local onde nos encontrávamos. Frente às ruínas da ex-Estação Ferroviária Anhalter Bahnhof ou aquilo que sobrou dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial .Na época dos anos 20, os Anos Dourados, desta estação partiam trens para toda a Europa. O outro aspecto, ainda mais relevante, é que exatamente naquele terreno abandonado, nos anos 80, foi gravada uma das cenas mais emblemáticas da cinematografia mundial. A cena entre o anjo, vivido por Bruno Ganz e o protótipo dos “chegados” e Berlim e que não encontraram o caminho de volta.

https://www.youtube.com/watch?v=vcI3XijmZ4o

https://www.youtube.com/watch?v=U0AGassBoX0

Perguntado por mim sobre sua percepção urbana da Berlim atual, Wenders declarou:

Mesmo quando filmava em Hollywood, mantive meu apartamento em Berlim. Há muitos anos que moro aqui. Eu ando muito pela cidade. Eu não me lembro desse dia, mas esse lugar (as ruínas da estação o Anhalter Bahnhof) é um lugar que mexe muito comigo. Eu acho inusitado a Sra. ter me visto à pé. Geralmente eu vou para todo o lado de bicicleta”, declarou.

Agora o círculo se fechou. (Com todo o trocadilho), o Homem de Düsseldorf abraçou a alma berlinense, não “somente” numa das cenas que mais espelham o espirito da Berlim cercada pelo muro, mas também no seu cotidiano. Cheio de vieses, contradições e surpresas.

Já que Wenders é homenageado com uma retrospectiva nessa edição da Berlinale, “Tudo vai der certo” é exibido fora da competição.

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