O dia em que vivenciei de perto, o desespero e o abandono de um refugiado no centro de Berlim

Fátima Lacerda

12 Agosto 2016 | 18h16

Foram nesses momentos de finais de tarde no meu ritual de uma volta de bicicleta na minha parte favorita de Berlim antes de voltar pra casa que tive a mais significante experiência dos últimos anos.

Passava pelo Tiergarten no final da tarde desta sexta-feira (12) pela área verde no centro da capital pela entrada de da de costas para o Sony Center. Pedalava, quando avistei um homem negro, sentado, encurvado e coberto por um cobertor verde escuro. Senti o impuslo de perguntá-lo se precisava de ajuda. Retornei uns passos, perguntei se deveria chamar uma ambulância. Perguntei em alemão, ele não reagiu. Perguntei em inglês e ele sinalizou afirmativo com a cabeça. Ele tremia muito e não conseguia articular as palavras. Não era como quem está bêbado, mas com que está no fundo do poço de um desespero que é o abismo e isso acontece exatamente 28 anos de aniversário da minha chegada em Berlim: uma chegada feliz, cheia de expectativa para um mundo novo que me esperava e que depois, eu, de fato, encontrei. 

Enchi garrafa dele com a minha água, que também já não era muita. Dei para que bebesse. Na realidade, tornei claro que era necessário que bebesse..

Liguei para o 112, como fui descobrir, sem prefix 030, o de Berlim. Dois minutos ouvi a gravação que a conversa seria gravada. O atendente do outro lado foi solícito e atento.. Demorou um pouco para ele entender qual parte da área verde eu me encontrava. Combinados de eu ir até a esquina e acenar para a ambulância. “Estou vestindo um casacão rosa”, avisei. Em 5 minutos a ambulância já saia do túnel que passa debaixo do Tiergarten. Acenei. Dois jovens homens, não mais de 30 anos, saíram do carro. O chefe deles, ordenou ao motorista que entrasse com a ambulância no parque. “Ele entende francês”, avisei. “Que ótimo!” disse um dos paramédicos: “Eu não entendo nada de francês”. Eu posso traduzir. Que eu não sei escrever francês, não mencionei. Isso não vinha ao caso. Era preciso fazer o que era preciso ser feito. Conforme o cara do socorro iria fazendo as perguntas, eu ia traduzindo. Alfred é seu sobrenome. 26 anos. Fugido da Costa do Marfim e há uma semana em Berlim. Sozinho. Quando eu perguntei de onde vinha, ele começou a chorar num desespero que só mesmo quem está no limbo tem. Se ele sentia alguma dor, eu devia perguntar, esclareceu o paramédico. Bomso Alfred apontou para a cabeça e para o peito. Os paramédicos disseram: “Nós agora levaríamos ele para o hospital, se ele estiver de acordo.” Perguntei, ele concordou. Quando começaram a colocá-lo na cadeira de rodas para poder entrar na ambulância e um paramédico junto com o motorista estavam o levando, eu não segurei mais. A visão daquele homem abandonado, desidratado, sozinho e sem que nenhuma pessoa antes de mim tivesse parado para pelo menos perguntar se precisava de alguma coisa e literalmente, sentado à beira do caminho.

Na bolsa ao lado, que mais parecia um saco de lixo, havia uma garrafa de água mineral vazia e alguns outros alimentos. O refugiado alegou não ter documentos e não sabia dizer a data de seu aniversário, mas afirmou ter 26 anos. Não é inusitado que refugiados sejam encontrados sem documentos. Por vezes é porque saíram mesmo só com a roupa do corpo, por vezes é por medo ou mesmo por intenção de esconder que já fizeram requerimento de asilo em outro país da UE. Nesse caso, o refugiado deve viver no país em que seu pedido foi aceito.

Antes da minha resistência emocional para uma caso que nunca vivi parecido, os paramédicos me agradeceram muito. Eu insistia em dizer que não fiz mais do que aquilo que todo ser humano teria que fazer. Calejados com esse tipo de situação, eles tem o que, da minha perspectiva pessoal, parece uma frieza e indiferenca. Talvez até seja uma frieza, mas é a forma que escolhem para conseguir segurar uma batalha de 8 horas de trabalho de momentos dramáticos. “Talvez ele tenha até sorte e recebe alimentos ainda hoje” disse um paramédico. Antes de avistar Alfred, esse mesmo paramédico havia comentado comigo usando de um pragmatismo frio: “Os refugiados tem que saber onde ir, onde se registrar para conseguir lugar para dormir”. “Mas se a pessoa está sozinha e não sabe como faz e aonde ir?” Para essa pergunta, ele não encontrou resposta. Mesmo depois deles terem me agradecido várias vezes eu sai com a bicicleta na direção em que ia quando avistei Alfred. Começara a chover e a minha vontade de fazer o rolé de bicicleta havia sido dizimada por aquela realidade com a qual eu fui confrontada ali mesmo, no coração de Berlim no país mais rico da Europa. Voltei em direção à ambulância que ainda não havia saído da área verde.

Procurei meu cartão de visitas que, claro, havia ficado na outra bolsa. Peguei papel e caneta e escrevi meu nome e o número do celular, para se alguma assistente social precisar de ajuda no âmbito de tradução, que poderia contar comigo. Depois que entreguei o papel fiquei matutando se não teria sido melhor acompanhá-lo na ambulância. Mas já era tarde. Eles foram para o hospital Charité no bairro de Mitte (Centro).

Quando cheguei em casa. Desabei pra valer. Minha melhor amiga, a minha irma alemã acabara de chegar em Berlim para ficar uma semana de férias. Liguei pra ele e chorei como só se chora com a melhor amiga ou com a cara metade que nesta hora não estava em casa. Quando lamentei não ter ido ao hospital, Anne disse: “Você pode rezar por ele”. “Posso sim, mas rezar não é tudo!!. É preciso arregaçar as mangas!”, retruquei. Ao longo do telefonema entendi que eu, provavelmente, não poderia salvar aquele homem, mas o pragmatismo e a frase “quem sabe ele tem sorte e recebe alimento ainda hoje” me fez pensar que eu, calejada em encontrar soluções para os problemas que vão aparecendo sem avisar, deveria ter ido, sim.

Políticagem e Cinismo

Agora eu mesma tive a experiência ocular de que Lampedusa, o Haiti, o Afeganistao é aqui e que os refugiados já fazem parte das nossas vidas. De forma direta ou indireta. Em hotéis prestigiosos de outrora, seja em Berlim ou em cidades cercadas pela Floresta Negra, no sul do país quase fronteira com a França. Perto de Potsdamer Platz, num hotel de prestigio que em 2014 ainda funcionava, agora estão sírios e iraquianos nas portas. As crianças andando de bicicleta na calçada. Os homens amontuados num canto olhando para a tela do celular e os seguranças rondando aquilo tudo ali. Essas imagens, entretanto, são de refugiados gozando de uma estrutura básica e nos dois casos citados, de uma estada digna. Alfred esta só, doente e sem o apoio de um grupo e tem uma grande função de suporte, principalmente na troca e atualização de informações onde tem isso e aquilo. Onde requerer esse ou aquele atestado.

Thomas de Maizière, o Ministro do Interior e o mais incapaz membro do governo de Merkel foi na quinta-feira (11) frente à imprensa vomitar todas as novas maravilhas técnicas que superam todas as visões de horror descritas no livro “1984” de George Orwell.

Jason Bourne, o quarto episódio protagonizado por Matt Damon e que acaba de estrear nos cinemas alemães mostra como natural a tese do “Consumidor de Vidro”, do total controle através da técnica. De Maizière sugere até mesmo a vigilância de atividades nas redes sociais criando protocolos. Com isso ele neutraliza o principio da inocência e que, primeiramente, o cidadão é inocente até que se prove o contrário.

2017 é ano de eleições federais e de Maizière já iniciou com a campanha. Em Berlimhaverá eleições no mês de setembro de 2016. No âmbito regional, o partido de Merkel, o CDU, promete mais polícia e mais segurança numa “Berlim Forte”, usando o slogan dos anos ’80, período da RAF e do movimento de ocupação de casas. Nada de novo e o CDU continua com a mesma ladainha. Nos tempos em que vivemos, já não basta mais um sentimento subjetivo de seguranca. Se presença policial em massa significasse o evitar de ataques terroristas, Paris seria a cidade mais seguras da Europa. Ao invés disso, Paris e Bruxelas se tornaram, de baixo do nariz da polícia, antro de célular terroristas e estacao temporária para os denominados Schläfer, terroristas que ficam só esperando a hora de executar seus planos sórdidos e bárbaros e finalmente “adentrar o paraíso” não antes sem gritar e esbravejar que “Allah é grande!”.

MehrPolizeiMehrSicherheit

O chefe do sindicado da polícia, Jörg Radek,discorda das medidas do Ministro do Interior, alegando: “O código penal em sua atual constelação já nos permite extraditar pessoas criminosas, mas isso tem que ser executado de forma eficiência”. Não há necessidade de extinguir a cidadania dupla”, garante Radek, que por entre linhas quer motivar o Senado de Berlim a contratar mais policiais.

Rezar pela Tailândia

No início desta sexta-feira (12) o trending topic do Twitter era “Pray for Thailand”. Eu escrevi: “Não quero mais rezar para país nenhum. Eu quero que essa dinâmica de terror e desse ciclo vicioso do ódio acabem. No mundo todo” e não só na Tailândia”.

Sei também que o terror não acaba através de orações, mas através de competência e trabalho conjunto dos serviços secretos como também vontade política. Não da mais pra contar quantas vezes o serviço secreto alemão, seja em âmbito regional ou nacional, fez vista grossa para a o terror da extrema direita. Precisou haver uma celular terrorista de extrema direita chamada Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU, na sigla) e aterrorizou a Alemanha durante 10 anos e uma CPI para investigar o fracasso dos serviços secretos, para que mudasse algo no país, melhor, na vontade política do alto escalão de Serviços Secretos e de Inteligencia. Os membros da celula terrorista da NSU eram conhecidos pela polícia e antes de cometer suicídio, um deles estava sendo observado. Mesmo assim. Nem a polícia nem o serviço secreto agiu a ponto de evitar maiores atentados e nem conseguiram evitar o suicídio.

Agora de Maizière, com aparência de clonado e oferece a fórmula mágica contra o terror.”A Alemanha continua um lugar seguro, mesmo que tenhamos que defender isso com toda a firmeza e dureza do Estado de Direito”. O que de Maizère quer, e não é de hoje, é a vigilância total e permanente. O desejo dos grandes bancos em abolir o dinheiro em forma de espécie é só um dos mecanismos em direção à total vigilância. Uma vez comprando tudo com cartao de crédito ou cartao bancário, todos os passos do cidadao estarao registrados. Seus hábitos, suas prefências, sua rotina. 

O ódio

Eu não quero mais esse ódio que está em toda a parte, desse e nem do outro lado do Atlântico. Não quero ter que chorar pelos mortos em Paris. Que poder voltar a uma das cidades que amo para rever meus amigos,rever os lugares que me fazem feliz sem ter medo de que logo ai, um radical se exploda no ar e me arraste com ele. Mas eu quero também uma sociedade mais humana e que o artigo número 1 da constituição alemã tenha vigor até mesmo em tempos de imigração em massa (do Iraque, da Turquia, da Síria, Afeganistão e, em muito breve, também da Turquia). “A dignidade do ser humano é intocável”. O que eu vi naquele banco ali do Tiergarten não foi dignidade. Foi um homem que perdeu tudo e que estava frente ao nada. Nao podemos resolver a dor do mundo nem abrigar todos os refugiados, mas podemos ser solidários. Isso é o mínimo. E muito pouco frente à tanta frieza. Social, emocional e política.