O dia em que eu queria falar sobre a queda do Muro de Berlim e fui atropelada pela dinâmica dos fatos

Fátima Lacerda

09 de novembro de 2016 | 10h21

A pauta de hoje estava planejada para ser sobre o dia em que Berlim foi mais feliz. Sobre aquela quinta-feira chuvosa na qual, em coletiva à imprensa, o porta-voz do Politbüro, Günter Schabowski, anunciou a abertura do Muro de Berlim no, provavelmente, mais feliz acaso da história. O Muro de Berlim já estava todo emburacado. O novo regulamento deveria entrar em vigor no dia seguinte (10/11). O despreparo de Schabowkski e o feliz acaso o fizeram cair ainda mais rápido.

Depois do aviso, multidões partiram para os controles de fronteira, os Checkpoints. Os guardas, ali de plantão, ainda não sabiam da grande novidade. Sem conseguir contato telefônico com os graúdos do Politbüro para como proceder, os soldados do Exército do Povo, Volksarmee abriram os portões, evitando uma tragédia com milhares de pessoas. Sem querer, eles foram os heróis daquela noite. Na foto, poucos dias depois do primeiro buraco aberto no muro, no ex-terreno baldio chamado de “Linha da Morte”, onde desde 2005 está localizado o Memorial do Holocausto em memória aos judeus europeus exterminandos na II Guerra Mundial. 20 anos depois, em 2009, o repórter Silio Boccanera, realizou entrevista comigo como testemunha de época, a qual foi veiculada em novembro de 2009, pelo aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim.

09 de novembro – 1918/1938/1989/2016

Na história alemã essa é a data com simbologia muito ampla e complexa. Essa complexidade, a partir de hoje, atravessou o oceano.

Em 1918, 2 horas depois que o socialdemocrata Philipp Scheidemann proclamara a República da varanda do parlamento alemão,  supondo em ser o primeiro a fazê-lo, Karl-Liebknecht proclamou, duplamente, a República (Revolução de Novembro/November Revolution) do Portal IV do Castelo de Berlim. 

Em 1938 a Alemanha e a Áustria viveriam “A noite Pogrom do Reich” também chamada de “Noite dos Cristais quebrados”, que marcaria o início do Holocausto que causaria o extermínio de 6 milhões de judeus no mundo. Naquela noite, a campanha de “não comprar nos judeus” que havia sido iniciada em 1933 somada a doutrina de que judeus eram inimigos dos alemães postura sacramentada em 1935 com a implementação da “Legislação Racista de Nurembergue”, colhia seus frutos, fazia o estrago completo. 

Com todo esse adubo bem fertilizado e a percepção avançada e arraigada na mente dos pérfidos e racistas, residências e lojas de judeus foram destruídas, seus pertences confiscados e destruídos.

A Sinagoga de Berlim, localizada na Rua Oranienburger Str., inaugurada em 1866, mesmo tendo sua fachada reconstruída ainda pelo governo da Alemanha Oriental, continua sendo uma ferida aberta dos tempos mais sóbrios da história da humanidade. Na noite de terça-feira (08), véspera do triste aniversário, o policiamento já se mostrava reforçado em frente ao prédio.

Hitler & Trump – Paralelos

Decerto que qualquer paralelo com o ditador Adolf Hitler, qualquer citação sua gera cliques, gera interesse, mas pelo voyeurismo e pela aura de mistério que ainda o envolve, do que um verdadeiro interesse histórico. Até mesmo enlouquecidos no Twitter se asseguram atenção quando mencionam o ditador. Mas o dia de hoje, como disse um jornalista do Süddeutsche Zeitung, “é um dia que irá sacudir o mundo durante muitos anos”.

O primeiro pronuciamento de Angela Merkel logo poucos minutos antes da publicadao desse artigo foi, como de se esperar, minimalista e sublinhado pela serenidade que só o desespero abriga: Merkel parabenizou o eleito e lhe ofereceu “trabalho conjunto” além de ressaltar “valores comuns e grandes desafios”.

Como pode, depois de 8 anos da Era Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, o país decidir colocar como chefe da Air Force 1, do país com o maior arsenal de armas do mundo, na Casa Branca? Como Trump pode chegar tão longe? Como pode, até mesmo, se tornar o candidato dos republicanos? Assim como Hitler, Trump foi subestimado. As pessoas sensatas não acreditavam que um louco, um machista declarado, um milionário que não paga impostos e que é notório por vários assédios sexuais e não esconde o que pensa sobre mulheres, fosse, de fato, se mudar para a Casa Branca.

Recentemente, na ocasião da visita à documentação sobre o Bunker de Hitler, o meu colega austríaco Ewald König, arrebatado por todas aquelas impressões dentro de um Bunker, sem luz e de paredes geladas ele disse: “Fosse Hitler admitido na Escola de Artes de Viena, o mundo teria sido poupado de tudo isso“. Hitler, que sonhava em ser pintou ou arquiteto tentou, em 1907, uma vaga na Academia de Artes Plásticas de Viena, mas sem obter sucesso. Suas pinturas em “muito ingênuas” assim o veredito da banca examinadora.

Não há como dizimar a sensação de que “Adolf” voltou a terra para terminar aquilo que não conseguiu em 12 anos de ditadura nacional-socialista.

O pesadelo

Enquanto vários jornais, brasileiros, alemães e americanos ainda exibiam o gráfico que dava pequena vantagem à Clinton, o candidato dos republicanos, descreditado e abandonado pelo seu próprio partido, ia ganhando um território atrás do outro. Assim como Hitler, que foi levado ao poder pelas elites brancas, por uma penca de homens poderosos que rodeavam o ex-presidente do Reich, Paul von Hindenburg. Foi a aristocracia que evitou o naufrágio político de Hitler, que por mais percentual de votação que tivesse, numa obteve a maioria dos votos.

Votos Fake

Um jornalista alemão esbrabejou no Tuíte: “A arruamacao nos EUA tem que começar com o declarar de falência dos Institutos de Pesquisa de intenção de votos”, já que esses, mesmo com pequena vantagem, sempre colocavam a candidata dos democratas na frente da corrida.

Os muros

Hoje comemoram-se 27 anos da queda do Muro de Berlim. O #Hasttag concernente foi relegado para “o porão” do Twitter. Agora é a vez de construir novos muros. Um entre os EUA e o México, por exemplo e como o México arcando com as despesas. 

Os americanos passaram a perna nos institutos de pesquisa, alegando votar em Clinton, mas na urna, fizeram a pior escolha dos últimos tempos. O efeito dominó da eleição de um insano para presidente e comandante da Air Force 1 é que se a chanceler Merkel pensava em desistir de concorrer ao quarto mandato, essa possibilidade foi por água abaixo. Agora, a chanceler alemã é figura-chave para o mundo livre. O resultado da noite de um pesadelo sem fim deve ter, ao mínimo, causado dor de cabeça à chanceler, que tem o Relacionamento Transatlântico como um dos poucos determinantes de sua percepção política. O resultado dessa noite também terá efeito na visita que Barack Obama fará em Berlim nos próximos dias 17 e 18. Além da viagem ter símbolo de agradecimento o à chanceler pelo “trabalho construtivo”, Obama queria falar sobre conflitos na Síria, na Ucrânia e sobre o ditador Putin. Mesmo antes de chegar a Berlim, a pauta Obama já se tornou obsoleta. Trump é imprevisível e, com certeza (e com todo trocadilho) o pior 9Th Eleven da política externa. A queda da Bolsa de Tóquio e a desvalorização dos pesos mexicanos na primeiras horas da matina de hoje é só o começo. Frente à insana dinâmica política, agora o Bye-Bye a Obama que chega em Berlim no próximo dia 16, será ainda mais difícil. Não só para Merkel.

Vitória de Putin

Esse dia, o palácio do ditador Putin deve ser só festa. O ex-chefe da KGB na Alemanha já mandou os parabéns para o vencedor e diz esperar “um diálogo construtivo”. Não fosse trágico, seria cômico assistir de camarote como será conciliar o tema de Trump “Make America great again”, com o de Putin “Make Russia great again”.

Os hackers russos que sabotaram os servidores tentando prejudicar Clinton, tiveram sucesso. Aliás essa foi a campanha que foi decidida pela guerra informamação, dos Leaks. Bem-vindo à era digital do pós-globalizado!

Agora é a vez e a hora dos ditadores, de um Erdogan no “melhor” caminho para a Autarquia, dos homofóbicos, racistas , coronéis e pastores licenciados que que, “em nome de Deus”, ou não, se sentem legitimados para exercer podres poderes: Erdogan, Putin, Orbán, Trump e guardando as proporções geográficas, Crivella, Cunha, Bolsonaro. A lista é longa.

Vaidades masculinas sórdidas e pueris somam cada vez mais triunfos. A partir de hoje, de mais um 09 de novembro que acaba de entrar  para a historia, o mundo se torna um lugar ainda mais perigoso, mais imprevisível e dolorosamente temeroso.