O dia em que Ronaldinho Gaúcho “apareceu”em Berlim

Fátima Lacerda

29 Setembro 2015 | 05h12

Não foi durante a Copa de 2006, mas 2015, numa esquina da na parte de trás da Filarmônic. Espero o sinal ficar verde para atravessar com a bicicleta. Do outro lado da rua, vindo em minha direção, um homem vestia a camisa tricolor. Levei um susto. A minha retina se surpreendeu antes do meu raciocínio poder juntar: FLU e Berlim em Berllim!

A camisa tricolor faz parte da minha infância, da minha memória emocional. Me lembro que Creuzette, quando estava no hospital, me fazia ir de Botafogo para a Tijuca buscar a camisa do FLU. Ver o jogo (Brasileirão 2010) sem vestir a camisa, era trazer azar para o tricolor. Lá fui eu buscar. Quando voltei, no domingo da partida contra o Flamengo, me vi num vagão do metrô cheio de flamenguistas. Toca meu telefone, do qual a música é o hino do FLU. Nunca na minha vida tive tanto medo de ser linchada. Também a experiência com a torcida do Clube da Gávea é algo que me retoma a, mais ou menos, pacata vida Tijuana.

As cores do FLU em Berlim

A surpresa e o regozijo foi tanto, de ver alguém trazer pra tão longe. A imagem do FLU. Mas a alegria tinha um outro lado. Já estava com um sapo atravessado na garganta devido ao chute no pé que foi a contratação do R10, algo que nunca, nunca, nunca deveria ter ocorrido, acontecido. Por que? Em sã consciência, todos sabem que Ronaldinho, mentalmente, já parou de jogar, pior que isso: ele parou de pensar futebol, de ter a gana de vencer. Seu irmão e agente, o Assis, teima em negociar um produto que não mais existe e todo mundo sabe disso e o pior cego e aquele que não quer ver. Por isso ainda maior o meu estarrecimento sobre a decisão da diretoria do Flu, em atitude tão ingênua. Admiro muito o Mario Bittencourt. Ele já mostrou, várias vezes, que não corre da reta quando a casa está caindo, que  sempre tem em mente, o melhor para o clube. Entretanto, devo admitir que, na contratação que, segundo fontes ligadas ao clube, teve o incentivo do Fred que me parece ser o Presidente do Clube,, o camisa 9 e batizado por Mario com “quase ídolo da história do clube”, a voz do deslumbre de um “mero” torcedor, falou mais alto em Mario, que em entrevista no “Cara a Tapa“, feita pelo jornalista Rica Perrone se confessou, além de outras características, “torcedor de futebol”. Só isso pode tê-lo levado à uma contratação que qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento de futebol e de sites de comportamento, sabe que R10 é um cara festeiro, gosta de balada e fica rodando a noite. Essa contratação pode ter rendido, em tempo recorde. 10 mil novos sócios torcedores para o clube, mas e daí? Esse sócios também podem não prolongar a carteirinha. E a história do clube? E a torcida, a qual foi vendido gato por lebre? Cade a responsabilidade com a história do clube? Não se pode (como faz regularmente o site FLU News) viver somente das glórias do passado. O Fluminense é um time centenário? É. Cheio de glórias? Também. O campo das Laranjeiras foi o campo usado pelos jogos da Seleção Brasileira na época em que o Maracanã ainda não estava pronto? Tudo isso! Mas um clube, digo, seus dirigentes, precisam ter visão de futuro, mesmo que seja um futuro próximo e a filosofia futebolística alemã já prescreve:” Depois do jogo, e antes do jogo”.

O encontrar desse também torcedor do FLU não me permite calar e aproveitar o sinal que já estava careca de estar verde. “Essa camisa é linda demais”, disse eu, arrancando um sorriso do torcedor apressado ao mesmo tempo que perdido. “Só que a contratação do R10 foi um erro imenso”. Sorrindo, ele vira de costas e mostra, com orgulho, a mais nova criação do departamento de marketing: a camisa 10 usada pelo R10. Fiquei sem graça em não ter o apoio desse co-torcedor. Antes de continuar o seu percurso ele disse: “Mas no campo, o Flu tem que melhorar”. Não melhorou. Ronaldinho Gaúcho teve no FLU a sua mais breve participação nos clubes pelos quais atuou e, com certeza, a pior delas: 9 jogos disputados, os 3 últimos esquentando o banco de reserva e a falta ao treino na segunda-feira, “para resolver assuntos pessoais”. É sempre o mesmo comportamento. São sempre as mesmas atitudes e sempre o que o jargão alemão chama de “Bônus para famosos”. Como no Brasil isso é aceito e, na melhor hipótese, tolerado pela direção do clube, o jogador indisciplinado dará sempre um jeitinho. R10 sai pela porta dos fundos das Laranjeiras. Mostrou sua imaturidade de falta de ética quando, depois da partida perdida pelo FLU, foi tirar fotos com seu ex-companheiros do Atlético MG. A notícia publicada em 23/09 no portal do Jornal O DIA o fez perder o já minguado apoio da torcida tricolor: “A produção da nova série da Globo, ‘Mister Brau’, estrelada por Lázaro Ramos, está de cabelo em pé com o andamento das gravações. Isso porque a mansão em que o personagem principal da série mora é vizinha da casa do jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho, em um condomínio da Barra da Tijuca. Volta e meia o trabalho precisa ser interrompido ou cancelado por causa das festinhas promovidas pelo craque.”

O site de futebol, Transfermarkt publicou logo no início da manhã, a seguinte manchete, rendendo memes:

http://www.transfermarkt.de/ronaldinho-lost-vertrag-bei-fluminense-rio-de-janeiro-auf/view/news/213173

Vural Bayindir, convida: “Vem pro Antalyaspor!”

O usuário Daniel Kalz, não perdoa: “Ha ha ha! Eu avisei! A culpa é de quem o contratou. E esse cara ainda se acha jogador profissional”.

Marcel Elberding, convida: “Vem para Colônia”, para o clube 1. FC Köln, o ex-time de Lukas Podolski

Cristiano Ferreira, opina: “Ele deve ir para o Eintracht Frankfurt”, o que seria perigosíssimo, já que esse clube tem um torcida de Ultras muito forte e muito agressiva. Tomando conhecimento deste fato, nem mesmo seu agente, toparia um contrato.

Barbaros Dogmus, instiga: “Será que agora ele vai para a GALA”, uma revista de celebridades comparável a Revista Caras no Brasil.

O merecimento de um final digno

Pela carreira de um jogador que já foi brilhante, seria importantíssimo que o R10 tivesse um fim digno de sua vida esportiva que já acabou há muito tempo, mas sendo guiado erroneamente pela ambição de seu agente, vai ser difícil.

Felix Schwenzel, um escritor e cyber-crítico alemão disse certa vez uma frase que serve como lema, também nesse contexto “Na vida, você precisa de uma pessoa que percebe antes de tudo ir para o ventilador”. Infelizmente Ronaldinho não tem essa pessoa por perto.

Quanto aos dirigentes das Laranjeiras, que essa lição seja bem decorada. Pela história do clube e pela ética corporativa que seja praticada sem o deslumbre de um torcedor, que deve se mostrar, somente no estádio. Num cargo de diretoria de um clube do peso do Fluminense, não há espaço para deslumbres e perspectiva de uma andorinha voando pousar no nosso telhado. 

Da próxima vez que eu deparar com alguém com a camisa do Flu em alguma esquina da capital, só haverá motivo de alegria em vislumbrar as cores da camisa desse clube que nos deu Assis e tantos outros, mas que precisar ter o olhar no futuro próximo e que já é no próximo jogo.

Pelo menos, na hora da saída, as duas partes se exercitaram em bom tom. Se essa impressão de “comum acordo das duas partes”, permanecerá nos próximos dias, seria aconselhável e minimizaria o prejuízo, mesmo que isso seja infactível. Não me surpreenderia em nada, se nos próximos dias, o R10 foi anunciado em 150% de firmeza, como novo contratado da equipe do Cruz Maltino. Nas bandas de lá, todo o absurdo é possível.

Links relacionados:

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http://www.eintracht-frankfurt.de/