O eterno fantasma do 7 x 1 e porque eu não torço mais pela Seleção Canarinho

Fátima Lacerda

28 de junho de 2015 | 17h28

Quando vazou a noticia da suspensão de Neymar na Copa América e nas partidas seguintes constatou-se que o atacante do Barcelona não é sempre indispensável e decisivo para vencer os jogos, os torcedores alemães, discutindo nas redes sociais trouxeram, em forma de memes, de volta o fantasma da maior humilhação já sofrida pelo torcedor brasileiro. E não, eu não esqueci daquele domingo em 1950. Não que eu estivesse presente, mas pelos detalhes meticulosos passados a mim por meu pai e de forma resumida, eternizados aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=Xbs1tAuyEdE

Quando teve Copa…

Eram muitas as faturas abertas. A da Copa de 1950 quando se cristalizava a identidade de um país. Brasília ainda não havia sido construída. Aquele domingo teria sido decisivo para a formação da percepção de um pais sobre si mesmo e sobre suas potencialidades. As rodadas anteriores tinham ido bem demais para o Brasil não sair vitorioso na Final no Maraca. Esse mesmo efeito teve a Alemanha com “O Milagre de Berna” (Das Wunder von Bern) quando saiu vitoriosa da Copa de 1954, somente depois de 5 anos de Fundação do Estado Alemão. Depois da Guerra o país também procurava a sua identidade.

Uma equipe vitoriosa

Depois dessa catástrofe coletiva, vieram muitas vitórias e o Brasil, digo, a seleção brasileira (separo alhos dos bugalhos conscientemente já que o Brasil tem milhões de técnicos) teria um caminho de glória. Pelé, Garrinha encantavam o mundo e desesperavam seus adversários. Certa vez em entrevista à TV aberta ZDF, o apresentador mostrou um lance, quando a bola vinda de Pelé, passava entre as pernas de Beckenbauer. O “Kaiser” que tem um status inusitado de monarca na república, saiu, como sempre, super bem: “Se alguém pode fazer isso comigo, esse alguém só pode ser o Pelé”.

O que aconteceu…

Com o Tricampeonato em 1970 no México, o Brasil ficou mal-acostumado. Automatizou-se a percepção de que bastava entrar com a camisa da seleção canarinho no campo que o Brasil sairia vencedor como se fosse uma lei da natureza. Além do mais, Deus é brasileiro!

Nem a derrota na partida da Copa de 1982, quando um maledetto, vestindo a camisa 20 e atendendo pelo nome de Paolo Rossi, destruiu o sonho da seleção de se tornar tetracampeã, ela que antes mesmo da partida contra a Itália havia sido eleita pela imprensa internacional como a melhor do torneio, com Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Éder, entre outros , foi surpreendida por um Paolo Rossi, ate então invisível no torneio, mas que exatamente naquele dia, decidira mostrar serviço marcando os três gols da Itália na partida.

Me lembro que precisei de horas para fazer do jornal velho, papel picado, a ser jogado do quarto andar pela varanda abaixo sempre que a bola da canarinho invadisse o gol da Itália. Nos dois gols que o Brasil fez ainda deu para esvaziar a bolsa de supermercado pela metade. E agora, o que fazer com o outro restante? Mas o pior de tudo era lidar com a decepção daquela super-equipe  ser eliminada com um placar de 3 x 2 nas quartas de final quando um empate teria garantido a permanência no torneio.

O Fenômeno de 1998….

Talvez seja essa a Copa em que ficou incontestavelmente claro, as mazelas e os interesses pérfidos e as táticas fora de campo que regiam no futebol brasileiro. A aura e o superpoder de um “Fenômeno” ratificado pelo técnico, neutralizara todo o potencial dos demais da equipe, pairava no ar a frase de cunho filosófico apocalíptica: “Ronaldo vai jogar?” desestabilizatório emocionalmente a equipe. Preparação psicológica para os jogadores não perderem de vez a autoconfiança logo depois que a equipe adversária faz um gol, não rolou. Psicólogo é coisa de boiola. Brasuca cabra-macho sim senhor não precisa disso”. Resultado do erro técnico e de estruturação de toda uma equipe possibilitou a França “aniquilar” o Brasil. E eu, cercada em massa por franceses e suíços na sala de imprensa do Festival de Jazz de Montreux, queria me dissolver na atmosfera. Em todos os anos no estrangeiro, eu nunca senti tanta vergonha de ser brasileira.

Dali pra frente…

Em 2007 veio o anuncio sobre o Brasil sediando a Copa. Me lembro que esse dia eu estava no Rio e assisti no RJ TV, os torcedores se Ju tando ao redor do Maracanã. Seria essa a grande Revanche? Por 1950,1982,1998, pensei. Finalmente poder ganhar a Copa em casa e possibilitar gerações a assistirem os jogos na própria cidade, no próprio país! Eu já tinha visto de perto a Copa da Alemanha, mas no Brasil seria especial. Queria ir com eu pai no estádio.

Como se não bastasse toda a vergonha que o Brasil passou devido ao atraso na construção dos estádios, alguns deles predestinados a ser tornarem elefantes brancos, o FIFA-Bose Jerome Valcke deu uma de colonizador. Ficou no Brasil para inspecionar as obras.

Na mídia alemã não faltava uma matéria sobre aquilo que Ufanista, com eximia habilidade de fazer vista grossa e em adesão incondicional, quase de cunho religioso a politica do governo, juram que iria acontecer. Na Europa, se espalhava o escárnio sobre o Brasil e sobre “A República das Bananas”. Logo a Alemanha, que provou ter capacidade e mostrou a Copa mais bem organizada de todos os tempos, tinha credibilidade para criticar de camarote.

O dia em que a seleção morreu

Ao contrário dos internautas, que na semana da suspensão de Neymar, afirmaram que o 7×1 seria águas passadas, isso não procede. Ate o meu ultimo dia na terra, eu vou lembrar do caráter dramático desse dia. A casa caiu! Não “somente” no campo, mas o que aconteceu durante o jogo foi o Clash de Culturas. Na forma de jogar, de agir dentro e fora do campo e mais do que tudo isso. Na forma de pensar o futebol. Eu poderia delinear inúmeros exemplos, mas talvez baste somente este: No Twister, um torcedor inglês se eternizou na mente dos alemães com a frese: “Argentina tem Messi. Portugal, Cristiano Ronaldo, Brasil, Neymar. A Alemanha tem uma Mannschaft” (uma equipe). Por essa razão, acima de todas as outras, a Alemanha levou a Taça na Final na Copa das Copas do Brasil. Literalmente!

A seleção brasileira, seus Cartolas e Dirigentes ainda não entenderam que…

O jogo só se ganha dentro do campo!

Que e a maior furada colocar toda responsabilidade de vitória num só jogador, que e um ser humano, que ficam doente ou que perde as estribeiras frente ao juiz!

Ou que atribuir a derrota para um time de um país desse tamanho como o Paraguai para uma virose que deu na equipe é uma desculpa esfarrapada!

Desde que Pep Guardiola, o técnico do Bayern de Munique, usou desse argumento e causou a demissão, ainda no vestiário, do medico que trabalhava há mais de 25 anos para o clube, ele esta com a corda no pescoço e vai ter que mostrar serviço desde o primeiro jogo da nova temporada.

Quando eu me lembro da arrogância e da teimosia irrevogável do Felipão e da sua incontida vaidade (ratificada pela mídia global) ou quando me lembro da entrevista de Carlos Alberto Parreira (a quem eu ate então tinha apreço, já que ele foi colega de faculdade da minha mãe) para a rede aberta ZDF, pouco antes do inicio do jogo praticamente comunicando que iria vencer o jogo, eu constatei que o futebol brasileiro não aprendeu nada com as derrotas e com os vexames anteriores, mas que as prioridades dos Cartolas, são bem outras: Se manterem nos cargos, assegurar o gozar de influência, prestígio. O posicionamento de Marco Polo del Nero, divulgado segunda-feira (28) em manter a equipe técnica até 2018 é o melhor exemplo disso. Moral da história: Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Em seu livro “Futebol”, Alex Bellos, ex correspondente da BBC no Brasil, descreve muito bem algo que pode ser confirmado pelo arquivo Canal 100: No principal jornal daquele domingo em 1950, saíra uma foto da seleção brasileira com a manchete. “Essa é a nova seleção campeã do mundo!

Em 2007, na final da copa do mundo de futebol feminino na China, as brasileiras já começaram a comemorar no túnel bradando canções de vitória mesmo antes de entrar no campo, enquanto as alemães se mostravam altamente concentradas e foram as que comemoraram quando o juiz apitou o final da partida. Alemanha foi campeã e o time brasuca teve o tempo do vôo da China para o Brasil para choramingar e engolir a seco o ditado: “Quem ri por último, ri melhor.”

Não torço e nunca torci para a seleção da Alemanha, apesar de ter que concordar que a vitória na Copa do Brasil foi merecida pela sua postura dentro e fora de campo. Joachim Löw sempre ressaltou não “somente” formar uma equipe tecnicamente forte, mas impreterivelmente formar “uma equipe de caráter”. Também não sou da ala que acha que tudo que é bom para a Alemanha é bom para o Brasil. Existem diferenças culturais que devem ser respeitadas e podem até mesmo ser usadas para angariar vantagem sobre a equipe adversária (não vale algo como a perfeição dos teatrinhos ridículos do Cafu).

Não aguento mais ver uma seleção desestruturada, mentalmente no ground zero toda a vez que o adversário faz um gol, seja esse gol no início do primeiro tempo. Não vou mais vislumbrar um bando de barata tonta e um treinador achando que um problema desses cai do céu.

Se nem a tragédia do 7×1 e a humilhação dentro de casa fez os cartolas da CBF repensarem o futebol brasileiro, não será uma eliminação através de uma paizinho chamado Paraguai que vai trazer mudanças necessárias muito menos quando o atual dirigente, Marco Polo del Nero desperdiçou suas as primeiras semanas no comando da Federação, tentando convencer sua então namorada a “fazer carreira” de apresentadora de programas esportivos. Como ela “tinha seus próprios projetos” o relacionamento não vingou. Esse era o assunto na mídia. Nenhum outro.

Nas diretorias dos clubes (veja a situação de engodo cruz-maltino) com técnicos e com jogadores como nesta última semana no exemplo de Leo Gomes, que se deixou influenciar pela reação da torcida nas redes sociais, desistiu de integrar a equipe de São Januário com medo dos torcedores da Gávea e agora cogita voltar para os EUA.

Até o dia de uma profunda reforma do futebol brasileiro, eu serei fiel ao clube das Laranjeiras, mas isso é tudo. Do resto, estarei naquilo que a língua alemã chama de heimatlos (sem pátria (para torcer)).

Cansei de suar a camisa para quem não está nem ai para ela e muito menos para os torcedores com imperativos “Mete o pé!”.

Enquanto a mudança não vem, eu vou torcendo pelo Fluzão (que apesar de ser gigante, também precisa parar de viajar na maionese de águas passadas) e entender que há sim, uma vida depois da Unimed.

Pelos gramados daqui eu sigo firme e forte com o clube que adotei por convicao e por paixão pelo futebol introduzido por Jürgen Klopp mas o Borussia é mais do que isso. Ele espelha muita coerência: na hora de lidar com manifestações de violência nas torcidas, com posicionamento claro e tolerância zero com manifestações de extremismos e radicalismos e que é dirigido por pessoas que amam o clube, respeitam a sua historia e tem fome de vencer. #echteliebe (amor verdadeiro) e sem dúvida, de mão dupla, correspondido.

Se até o Galvão (até hoje sempre super solícito com técnicos e sempre fazendo vista grossa para os atropelos da canarinho) pleiteia “o zerar a pedra e começar de novo” é porque realmente a casa caiu. E pra quem isso ainda não é suficiente: depois de ser eliminado da Copa América pelo  Paraguai, o Brasil, depois de 1992 e 1995,  fica mais uma vez fora da Copa das Confederações.

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