Fim de semana na Bundesliga: a penúria do Borussia, a humilhação do Bayern e o triunfo do Wolfsburg

Fátima Lacerda

01 de fevereiro de 2015 | 13h18

A segunda rodada do campeonato alemão de futebol começou pelo avesso. Tradicionalmente é o Bayern de Munique, o time de recordes de títulos, que ganha, arrasa e ratifica a sua inconstentável predominância.

Daqui pra frente…

Nesse fim de semana foi escrita história futebolística. A partida entre o Wolfsburg, equipe do norte do país, da cidade fabricante de carros contra o Bayern, rico e do sul, deu a pitada de sal que a Bundesliga estava precisando. A luta entre o norte e o sul. A ateu contra o católico. A eterna rivalidade. Depois de 21 jogos invictos pelo campeonato, o Bayern inaugurou a rodada de volta com uma derrota notória.

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A vitória do Wolfsburg não foi unicamente no campo, mas pela superação emocional dos jogadores no primeiro jogo depois da morte trágica no último dia 10/01 do jogador Junior Malanda (20) num acidente de carro. “Uma vitória para Malanda“, declararam os jogadores no final da partida.

A humilhação

Jogando em casa, o Wolfsburg demoliu a equipe de Munique. A manchete do jornal hanseático Hamburger Abendblatt tocou no exato da ferida: “O Bayern simplesmente foi atropelado!” E o desastre não parou por ai.

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Dante, o brasileiro jogando na defesa não conseguia fechar a passagem dos esfomeados do Wolfsburg e foi criticado na análise do jogo no programa de esportes, líder de audiência no fim nas noites de sábado. O tabloide Bild lhe condeceu a note 6, que na Alemana é a pior nota que se pode tirar, um notável zero. “Em algumas jogadas de início, Dante parecia sem uma estratégia e na hora do contra-ataque, desorientado”, critica o tabloide. O placar só não foi de 4 x 0 para o Bayern devido à falha do zagueiro Naldo.

Com uma dinâmica insana do ataque e consequentemente do surgir dos gols, não teve como não lembrar daquele fatídico jogo em Belo Horizonte…

Manuel Neuer carrega, merecidamente, o título do melhor goleiro do mundo. Há pouco mais de uma semana era altamente cotado nas redes sociais e nas apostas como possível zebra na corrida pelo título de melhor jogador de futebol do mundo, foi humilhado em frente à torcida adversária. “Deu tudo errado. Aconteceu uma catástrofe. Estamos cientes que temos que trabalhar muito”, declarou após o jogo.

Kevin de Brue, autor de gols do Wolfsburg nos 53 e 73 minutos chorava ao comemorar. Para os jogadores da nova geração é um verdadeiro sonho que acaba de ser realizado. Quem é jogador de futebol na Alemanha e não faz parte da folha de pagamento do clube de Munique, carrega esse sonho consigo desde garoto. Vencer o Bayern se torna um lema de vida.

No final do jogo, o diretor esportivo Klaus Allofs (ex-Werder Bremen) e o técnico do Wolfgsburg, Dieter Kecking em declaração frente às câmeras não deixaram dúvida de “que o Wolfgsburg está de volta” e entre linhas enviaram um aviso de que vão lutar pelo menos pelo terceiro lugar e garantir uma vaga na Liga dos Campeões.

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A derrota humilhante do Bayern vem num momento em que seu treinador, o espanhol Pep Guardiola vem dando a entender que não pretende prolongar o contrato vigente até 2016. Numa visita à sede do fã clube na cidade de Ingolstadt (sul do país), Guardiola mencionou estar disposto a discutir sobre o contrato somente no próximo verão e se referiu ao tempo no Bayern usando o pretérito perfeito: “Pra mim, minha esposa e para os meus filhos foi um grande desafio vir para Munique. Não importa o que aconteça, eu fui muito feliz aqui. Ser treinador desse time, foi realizar um sonho!”

Vale lembrar que Guardiola tem colado no seu pé, 24 horas por dia, o diretor esportivo do clube, Mathias Sammer, um saxão arretado e obcecado pelo sucesso, o que de fato caracteriza o Bayern, que já anunciou como objetivo repetir nesse ano o êxito alcançado no campeonato de 2012/2013 quando a equipe ainda estava sobre o comando de Jupp Heynckes, que entrou para história do clube com a conquista dos títulos do campeonato alemão de futebol, a vitória na Liga dos Campeões e a vitória na Taça da Federal Alemã de Futebol (DFB Pokal, em alemão). 

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Schürrle de volta à Bundesliga

A especulação sobre o anúncio da contratação do campeão do mundo, André Schurrle, pelo Wolfsburg ainda na noite de sexta-feira (30) não se realizou. Entretanto, está sacramentado. Schurrle, que já ligou para o seu futuro treinador parabenizando-o pela vitória contra o clube de Munique, fechou um contrato com o Wolfsburg. Depois de uma conversa de 4 horas entre seu empresário Ingo Haspel e do pai do jogador Joachim Schürrle no Hotel Ryatt em Wolfsburg com os dirigentes do clube, como expressa um dito popular daqui: “A tinta (do contrato) está seca”.

No Chelsea sobre o olhar rígido e invocado de José Mourinho, Schürrle amargou no banco de reserva. Enquanto o Chelsea desembolsou 22 milhões de Euros para a compra do passe do jogador no ano passado, o clube alemão bancou com 30 milhões.

A penúria do Borussia

No mais tardar depois do Derby na final da Liga dos Campeões contra o Bayern, o Borussia havia se estabelecido como segunda potência futebolística no país. Ao contrário do time de Munique que é naturalmente odiado pelos seus adversários, o Borussia é respeitado e considerado e o mérito é de Jürgen Klopp, que constava como natural sucessor de Joachim Löw, caso a Alemanha não voltasse vitoriosa da Copa do Mundo no Brasil.

O deus do futebol (Fußballgott, em alemão) muito convocado em situações dramáticas, quis mexer os pauzinhos e mudar a história. A primeira rodada do campeonato 2014/2015 foi um desastre. O sorriso e o bom humor constantes de Jürgen Klopp foram desaparecendo. No final do ano, o Borussia lutava contra o rebaixamento. As declarações de solidariedade de dirigentes esportivos, jogadores, adversários vieram em massa. Até Joachim Löw, técnico da seleção alemã vendo a penúria do time, tentou acalmar os ânimos: “Eu estou certo de que o Borussia vai se recuperar no próximo ano”. A situação estava tão desolável que se fez necessário uma declaração de apoio do maior dos treinadores.

O estilo Klopp

GettyImagesKlopp0ce207ca-a974-11e4-a4f7-f80f41fc63ce.jpg© Mathias Hangst

O técnico do Borussia, no cargo desde 2008, goza de grande admiração pelos jogadores, tem um estilo anti-hierárquico ao mesmo tempo que consegui associar a vitória e o sucesso à uma boa quantia de leveza e isso tornara o time contagiante!

O tempo das vacas magras, para dizer ao mínimo e a penúria do Borussia deixou rastros no cara bem humorado de outrora. Na primeira partida da segunda rodada para o jogo contra o Bayer 04 Leverkusen, Klopp apareceu de cabelo curto, mais gordo e bem mais reflexivo. As brincadeiras com os repórteres e até mesmo a leveza de poder dizer na coletiva de imprensa depois de um jogo perdido na Liga dos Campeões: “Nós perdemos um jogo. Nada mais do que isso aconteceu”.

A leveza se foi. O otimismo também. O sorriso largo se transformou em cautela. As palavras na entrevista depois do jogo que teve resultado final de 0 x 0 ratificam o momento que vive o técnico que se diz “satisfeito” com o desempenho do time e se mostra “grato com a compra do atacante Kevin Kempl” que veio do clube austríaco Red Bull Salzburgo. Kevin, o melhor jogador no campo, livrou o Borussia de uma derrota que teria efeito desastroso na autoestima do clube.

A fase da penúria do Borussia mostra claramente um processo de maturidade de Klopp que afirma “No momento, a LC não me interessa nem um pouco. O meu foco é nos manter na primeira divisão”, declarou Klopp ao portal Spiegel Online em matéria publicada no dia 21/01.

Links relacionados:

https://www.vfl-wolfsburg.de/

http://www.borussia.de/wir-sind-borussia-herzlich-willkommen.html

http://www.redbulls.com/de

http://www.fcbayern.de/

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