O Fim de uma Era e o meu comentário no artigo do jornal Berliner Morgenpost

Fátima Lacerda

10 de junho de 2015 | 12h29

Um artigo publicado ontem (09) pelo jornal berlinense Berliner Morgenpost anunciava a venda da KaDeWe, um templo de consumo no centro da ex-Berlim Ocidental, para uma rede tailandesa italiana.

René Benko, proprietário até agora, decidiu abrir mão de uma casa de tradição para a rede italiana La Rinascente, que por sua vez, é composta por sócios majoritários da Tailândia. Ou seja. Do templo culinário de Berlim Ocidental, o símbolo da liberdade de mercado, da fartura, do luxo, tudo o que a parte ocidental do mundo exibia.

Berlim é, muitas vezes, um “deserto em prestação de serviços”. Judith também pinta por aqui e causa sequelas permanentes à alma do consumidor. Porém a KaDeWe era um oásis no deserto berlinense de prestação de serviços. Lá, rege uma cultura muito particular que tem como pilatras, a eficiência, a rapidez e um luxo elegante e não como aqueles que existem no Barra Shopping ou no Cittá no Rio de Janeiro onde novos ricos tem sua plataforma de realizações econômicas.

Na KaDeWe você encontrará os ricos do bairro de Charlottenburg, encontrará funcionários que trabalham nas redondezas, os aposentados que, em sua exercício social diário, vão tomar champagne no final da tarde e lá encontram outros que ali estão pelo mesmo motivo. Irá encontrar turistas querendo levar um chocolate especial para alguém querido ou simplesmente para levar pra casa e sentir o gostinho de Berlim. Há poucos dias quando retornei de Paris, comentei com Achim, meu amigo alemão, que encontrei em Paris um biscoito chamado “Figolu”, parecidíssimo com o goiabinha que eu levava de merenda pra escola. Apesar de não gostar e figo e morrer por uma goiabada verde, amei o biscoito e trouxe uns 10 pacotes pra Berlim. Contando sobre a memória culinária que me arrebatava quando me deliciava com os biscoitos, já em Berlim, Achim disse: “Eu já perdia a conta de coisas que trouxe de países que visitei e quando cheguei em casa, o gosto não era o mesmo”. Isso não acontece comigo. O palmito trazido do Brasil, é gostoso aqui do mesmo jeito. O palmito, de valor salgado comprado para o arroz do Natal na KaDeWe, também tem gosto de Brasil.

Adentrar o andar culinário da KaDeWe, principalmente na época de Berlim Ocidental, era fazer uma viagem pelo mundo. Se deixar surpreender e se permitir levar artigos exóticos pra casa, localizada numa ilha. Berlim Ocidental.

A notícia sobre a venda da KaDeWe para a promissora rede italiana, mas que está em mãos tailandesas (Central Group de Bangkok com 50,01%, causou tristeza e preocupação expressada nas redes sociais. O pós-globalização traz essas mudanças, para que a competência no setor, seja assegurada. O volume de dinheiro que os tailandeses querem investir no continente europeu é de 270 milhões. O valor pago ao todo pela KaDeWe em Berlim, a loja de departamentos Oberpollinger em Munique e a deslumbrante Alsterhaus na cidade hanseática de Hamburgo, “é bem abaixo disso” divulgou uma fonte que não quis se identificar.

O outro lado da moeda do avançado processo de pós-globalização, é que ambiciosos empresários acham que podem fazer de tudo, uma salada, algo com aparência internacional e posicionado em todo o país independente

No meu comentário no Facebook no artigo que divulgava a venda, eu o titulei “O Fim de Uma Era” e escrevi: “Existem coisas que não deveriam ser mudadas para pior. KaDeWe é um pedaço do coração de Berlim Ocidental (!!!) e além disso, possui um paraíso culinário de classe mundial”.

A redação do jornal Berliner Morgenpost usou o título do meu comentário como título do artigo de hoje, que espelha a reação preocupante de muitos berlinenses nas redes sociais e citou o meu comentário quase integralmente:

Fátima Lacerda schreibt:

Eine Ära geht zu Ende. Das ist sehr bedauerlich. Es gibt Dinge, die sollte man nicht – zum schlechten – verändern. KaDeWe ist ein Herzstueck West-Berlins (!!!) und hinzu kommt das kulinarisches Paradies erster Güte.”

O artigo inteiro você acessa aqui:

http://www.morgenpost.de/bezirke/charlottenburg-wilmersdorf/article142239235/Eine-Aera-geht-zu-Ende-Das-sagen-Leser-zum-KaDeWe-Verkauf.html

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