O governo Merkel e suas similaridades com o mundo de “pipi meialonga”

Fátima Lacerda

17 Maio 2016 | 18h52

O personagem da literatura infantil da autora sueca Astrid Lindgren pinta do mundo da forma que a agradava. Depois da conversa informal na manha de hoje (17) com correspondentes estrangeiros na Alemanha, os paralelos com a premiada obra da literatura infantil, são inevitáveis. Um importante expoente ligado ao governo alemão (a fonte exata não pode ser divulgada) chegou simpático, se mostrou arrogante no meio do caminho e deixou uma péssima impressão ao sair já que pintou bonito demais tudo concernente ao governo Merkel.

O acordo da UE com a Turquia

“O acordo é correto e importante” foi uma das primeiras frases do convidado que se mostrou extremamente irritado quando eu me referi ao acordo como “Deal”, no sentido de barganha mesmo, afinal a Turquia fez um negócio da China com a UE além da barganha de voltar a negociar a sua entrada para o atual “Clube dos 27“. 

Relembrando…

Um déspota chamado Erdogan, que processa todos que falam mal dele, que condena jornalistas por terem exercido o ofício de jornalismo investigativo agora é quem manda e desmanda na UE. A fonte de “informação” se nega também em acreditar no dossiê veiculado na mídia pela Amnesty International que comprova que muito antes do acordo com a Turquia entrar em vigor, o governo de Erdogan já havia deportado centenas de sírios de volta ao país quase totalmente destruído. A fonte tentou sair pela tangente alegando: “Nós estamos verificando essas críticas através de um organização neutra”, o que faz o governo Merkel ganhar tempo até o que a pauta caia no esquecimento.

A “Causa Böhmmerman”

O humorista do programa Neo Royale da rede pública ZDF é tema constante na mídia. Devido ao seu “recitar de uma poesia” quando esculaxava Erdogan, foi aberto um inquérito contra ele. A chanceler, que em seu estilo de governo não é de tomar decisões precipitadas, pisou na bola na “Causa Böhmermann”, quando precocemente considerou as declarações do humorista com “intencionalmente ofensivas”, deixando à justiça em saia justa e com a corda no pescoço, ou seja, abrir o inquérito. Ao ser confrontado com um fato que é unânime na opinião de analistas políticos, a fonte de informação do governo, irritada, disse: “O que a Sra. está falando é uma besteira“. Ela, não vê nenhuma correlação entre a decisão da chanceler em deferir positivamente a abertura de inquérito com a subserviência perante ao ditador Erdogan, do qual Merkel e a UE precisam para reduzir, consideravelmente, o número de refugiados que entram na Europa, especialmente na Alemanha. Afinal, em setembro de 2017 Merkel quer ser reeleita e precisa “arrumar a casa”, se reafirmar  perante aos eleitores como “boa empresária de crises”. Os refugiados nos acampamentos da Turquia e os que são deportados, ninguém vê. Só vendo? (Para o governo Merkel), Nem vendo!!!

Wladimir Putin

Perguntado por uma correspondente russa, se a chanceler ainda conversa com o déspota da Rússia, a resposta foi vaga como tantas outras sobre tantos outros assuntos relevantes no âmbito da política externa: “A chanceler e o líder russo conversam sempre. Putin fala alemão muito bem*, a chanceler fala russo, não tao bem quanto Putin alemão, mas de toda a forma, uma tradutora está sempre presente“.Sobre se Putin irá ficar banido do exclusivo clube do G7, a fonte não mencionou.

Turquia – Direitos humanos e liberdade de imprensa

Exatamente no período em que a TV mostra cenas de pancadaria no parlamento turco, com o déspota Erdogan tentando teimosamente tirar a imunidade dos parlamentares da bancada do partido curdo (HPD, na sigla), fala-se da Turquia como “um importante parceiro”.  Caso a impunidade seja sacramentada, quem fizer oposição, digo, ousar contrariar a “majestade” pode ser processado e ir para a cadeia. Com uma medida com esta, Erdogan quer neutralizar a bancada, legitimamente colocada onde está pelos eleitores curdos.

Can Dündar und Erdem Gül foram condenados a respectivamente 5 anos e meio e 5 anos por realizarem jornalismo investigado sendo acusados por Erdogan de sabotagem. A organização “Reporter sem Fronteiras” classificou a sentença como “escandalosa”. A Organização de jornalistas alemães” também recriminou a sentença.

Espanha

Uma correspondente, com um alemão quase initendível perguntou o porque da “turminha” de 5 na recente visita de Barack Obama à “metrópole” de Hannover e se isso significaria “um desprezo ao país espanhol” que ficou de fora da roda compostas por Merkel, Cameron, Hollande e o premiê italiano, Matteo Renzi.

Holanda

Uma correspondente indagou se a fonte não “elogiaria” a Holanda pelo seu desempenho na negociação do acordo com a Turquia. A fonte elogiou o desempenho da Holanda nos 6 primeiros meses em que preside o conselho da UE. “Um monte de holandeses aqui” disse a fonte em tom de “quebrar o gelo”.

Grécia

Um correspondente quis saber sobre “o relacionamento entre o premiê Alexis Tsipras e a chanceler”. “Para dois políticos com convicções políticasdiferentes, os dois se entendem muito bem”, garantiu. O correspondente ainda quis saber se a UE vai reconsiderar uma parte da dívida da Grécia, arrancando risos do colegas. “Eu não acho isso nada engraçado, disse a pessoa de confiança de Merkel” que, para não fugir do hábito, não deu uma resposta concreta.

Irã

Um correspondente iraniano quis saber o porque da relutância da chanceler em visitar o país ou receber seu chefe de Estado em Berlim: “A visita será feita quando a agenda permitir”, retrucou. A chanceler não teria nada contra a visita?” insistiu a correspondente: “Quando a visita acontecer, acontecerá”. É nessas horas que você se pergunta o porque de ter levantado tao cedo, saído numa temperatura de 10 graus para ouvir tao abstração.

Brasil

Em relação à situação de transição de governo no Brasil, a fonte declarou que o governo alemão está “acompanhando atentamente o desenvolvimento no Brasil”, mas que não haverá um pronunciamento oficial: “No próximo G20, acho que Temer estará presente”, disse a fonte em tom lacônico. Vale ressaltar que o Brasil é o maior parceiro de comércio da Alemanha em toda a América Latina. Este ano, serão comemorados 100 anos de atuação de firmas alemães no Brasil. Só em São Paulo são aproximadamente 1500 empresas.

Estado de Direito

Concernente ao abacaxi diplomático causado pelo humorista Böhmermann, a fonte se embaralhou na hora de se explicar, se enrolando em contradições. Nesse caso a postura da chanceler foi errônea em se antecipar afirmando que “o recitar do poema teve a intenção de ofender”. Desta forma, o parágrafo 103 do código penal tinha que ser usado. Este é procedente quando se trata de “ofensas a órgãos ou representantes de Estados estrangeiros”. Como se o absurdo de Merkel capitular frente à um déspota, com o qual ela há bem pouco tempo não queria nem dialogar, é que logo depois da decisão que causou divergência entre membros do governo incluindo os do partido de Merkel, o CDU e os socialdemocratas, o SPD nas pessoas respectivamente do Ministro da Justiça e das Relações Exteriores que foram contra a autorização do governo alemão para que a justiça abra inquérito contra o humorista. Ao mesmo tempo, nessa confusão toda, foi determinado que o parágrafo será extinto ao longo de 2017. O repórter da TV espanhola perguntou: “Por que não extinguir esse parágrafo imediatamente?”. “Esse parágrafo teve, durante muitos anos, serventia. Eliminá-lo de um dia para o outro, não seria cabível com o trâmite do estado de Direito. Que bom que o estado de Direito ainda vale para solos alemães. Isso não acontece com os sírios que são deportados da Turquia nem mesmo com os imigrantes que ainda adentram o terreno de Schengen quando passam Brenner, a fronteira da Itália com a Áustria, ameaçada de ser fechada para controlar o fluxo de refugiados que adentram, por terra, a Europa central.

Suécia

Um repórter queria saber como a chanceler consegue segurar a dura agenda e como ela é como chefe. O ego da “fonte” esfolou e ele usou de uns 6 minutos para elogiar a chefe: “Ela é uma pessoa atípica. Daquelas que ficam, se preciso, 24 horas sem largar o osso até resolver um problema.” E como chefe:”Ela tem imensas expectativas em seus funcionários, mas quando eles eventualmente falham, ela se mostra muito humana”. Melhor adaptação do universo de pipi meialonga ainda está para ser inventado.

 *Wladimir Putin atuou durante 5 anos como chefe da KGB na cidade de Dresden, leste do país.