O início do fim de Pep Guardiola no Bayern de Munique

Fátima Lacerda

18 de abril de 2015 | 12h29

PEPKneffelDPA.jpg©Kneffel/DPA

O início do fim de Pep Guardiola em solos bávaros

A primeira coletiva de Pep Guardiola como treinador havia sido aguardada com muita expectativa. Como seria ter um técnico estrangeiro no Bayern, que, como a região da Baviera é a mais conservadora da Alemanha?

Antes de Pep…teve Trappa...

O trabalho conjunto com o italiano Giovanni Trappatoni havia sido caracterizado por muito drama, polarização e sua memorável incapacidade de falar um alemão razoável, que conseguisse botar panos quentes na intransponível diferença cultural entre a Baviera e a Itália. Num primeiro momento, a comparação, am âmbito geográfico, pode parecer misturar alhos com bugalhos. Quem vive na Alemanha (especialmente da perspectiva do norte) sabe que a Baviera é algo a parte, um lugar que graças ao seu ex-Ministro Presidente Franz-Josef Strauss conseguiu a união de dois elementos aparentemente inconciliáveis: A calça-de-couro (Lederhose), ponto mór de identificação da cultura bávara e o lap-top, que simboliza o avanço tecnológico. Foi Strauss que concedeu esse verniz à região.

Da forma mais paradoxa possível e pelo fato de não saber falar alemão e quando a fazia, da forma mais rudimentar possível, acabou se tornando imortal no dossiê midiático do país, numa coletiva inesquecível, onde ele perdeu as estribeiras. O ódio pela então intriga e falta de motivação por parte dos jogadores levaram Giovanni Trappatoni “à sua melhor Performance”, assim consideram os analistas esportivos. Expansivo, vaidoso, polêmico e jogando tudo no ventilador, Trappatoni convocou uma coletiva e, ao vivo e a cores, acertou as contas com quem estava lhe apunhalando pelas costas, esse espelhado na inatividade no campo e na desobediência ao treinador.

De braços abertos e com os ombros cerrados espelhando assim a pressão que sofria e ao mesmo tempo a clara decisão de atirar tudo no ventilador, ele iniciou o verdadeiro e até na memória dos torcedores, um memorável discurso de ódio (Wutrede).

“Existem momentos em que os jogadores dessa equipe esquecem que, de fato são”. Reagindo à crítica de imprensa, que quando se trata do Bayern, não deixa barato na severidade da crítica, Trappatoni retrucou ao mesmo tempo que cometeu um erro imperdoável: “Concernente a crítica de que não teríamos feito um jogo de ataque…Não há nenhuma equipe que jogue tão de ataque como o BAYER“, citando a equipe do Bayer Leverkusen, em terreno bem outro.

Se referindo ao baixo desempenho de alguns jogadores como Mehmet Scholl, Carsten Jancker e o não menos polêmico, Mario Basler, Trappatoni semeou discórdia: “Vocês sabem por que esses jogadores não são contratados por times italianos? Porque eles jogam mal! Não servem para jogar na Itália!”, esbravejou.

Depois dessa coletiva, exibida ao vivo e em cores nos maiores noticiários do país, o vão cultural (expressão pelo linguístico) entre a Itália e a Baviera se tornara intransponível. Uma intriga iniciada internamente se tornava pública. Era um caminho sem volta. Porém, o polêmico italiano não foi embora sem deixar 3 expressões que foram aderidas imediatamente no uso da língua alemã: São elas: “Flasche leer” (garrafa vazia, em tradução literal). Algo que não presta, não funciona, um fracassado. “Ich habe fertig” (Acabou, Terminado!) é a outra contribuição. Como a conjugação da frase, e todo o discurso recheado de erros gramaticais, “Ich habe fertig” (ao invés de Ich bin fertig) Trappa trocou o estar pelo ser. “Ich habe fertig” pode ser um bocado de coisas: Eu terminei (no sentido concreto e abstrato), eu não tenho mais paciência.

Outro que também ganhou bronca foi o jogador Thomas Strunz. “O Strunz está no time há 2 anos e só jogou 10 vezes”. A expressão “O que o Strunz se permite?” é o nosso “Quem esse M. pensa que é?”. “Was erlauben Strunz?” agora é usada para qualquer um/uma, que se mostra ousado, sacana, desaforado. (Veja Link).

Pep Guardiola – A chegada em Munique

Não se trata de propaganda enganosa quando o título do texto suscita algo que se encontra somente na segunda parte do texto. Isto se faz necessário para espelhar a inviabilidade cultural de um técnico estrangeiro em solos bávaros. Isso não quer dizer que um técnico de proveniência do norte do país (Berlim, Hamburgo, Wolfsburg) não teria que transpor barreiras culturais. Entretanto, como diz o baiano Caetano: “Minha Pátria é minha língua”. Mesmo com as diferenças de sotaque, a comunicação se coordena bem mais facilmente.

O início

No preâmbulo da primeira coletiva como técnico do time mais poderoso da Alemanha e um dos melhores da Europa, a expectativa dos jornalistas era imensa. Além do mais, Pep teria chegado num momento, em que a equipe havia conquistado o Triple. Todos os troféus possíveis da temporada.

Solícito e humilde, assim se mostrou Pep na coletiva. Com suas palavras de um respeitável alemão, adquirido aulas particulares em ritmo de intensivo em Nova Iorque, ele prontamente colheu elogios dos jornalistas e não somente pela complexidade dessa língua de Schiller e Goethe, mas pelo alívio dos jornalistas e da opinião pública. Você só pode ter sucesso no Bayern, se falar a língua deles. É simples assim. Um clube que tem o foco da vitória a sua filosofia-mór. Atualmente, o responsável pela preservação dessa filosofia é o Mathias Sammer (Ex-técnico do Borussia Dortmund), um cara com cabelo no nariz, muito ambicioso e que ocupa o cargo de chefe esportivo.

O tempo passou e o discurso de Pep foi mudando. Seu alemão piorando. Nas entrevistas de TV depois dos jogos já se fazia preciso uma intérprete. Seu aliado Uli Hoeness, ex-presidente do Bayern, foi parar na cadeia condenado por sonegacão de impostos. Com a saída do ex-grande poderoso da Bundesliga, Pep ficou desprovido do suporte de seu maior aliado.

Temporada de volta, 2015

Depois das férias do inverno (europeu) nada mais funcionava como devia. Como no Brasil se alimenta a convicção que “Deus é brasileiro”, a lei natural no Sul da Alemanha é que o Bayern é feito pra ganhar. Quando isso não acontece, a tragédia não está longe. O processo de rolar das cabeças chega rapidinho.

Tradição…

Todo o final de partida da Liga dos Campeoes, há um banquete para a equipe. Se ela sai do jogo vitoriosa, há um discurso positivo, todos sorridentes e a cerveja rola sem medo de ser feliz. Em caso de derrota, a cerveja rola também, mas fica entalada na garganta. O discurso, ou o sermão é feito pelo atual presidente do clube e ex-capitão da seleção alemã nas finas das Copas de 1982 e 1986.

O fim de uma era

Depois da derrota para o Porto na última quarta-feira, valendo uma vaga nas quartas-de-final do torneio mais prestigioso do velho continente.

mueller-wohlfahrt104_v-gseapremiumxl.jpg©GSA Premium

A culpa é de quem?

Quando o time do Bayern se vê confrontado com uma derrota, a busca pelo culpado já inicia no vestiário. Tudo bem que durante o banquete, servido na sequência do jogo, o técnico Pep Guardiola e o médico Dr. Müller-Wohlfahrt, até poucos dias somava a função de médico do Bayern e da Seleção Alemã de Futebol. Para entender o poder e a influência do médico no espectro futebolístico. Tomemos Dr. Lídio Toledo, médico da seleção brasileira no fatídico ano de 1998 . Müller-Wohlfahrt é 50 vezes mais influente.  Com uma lista de feridos que não se deseja ao time mais odiado, Guardiola se frente à limitadas possibilidades de escalar um time robusto e colocou a culpa pela derrota no médico do clube, alegando-o lentidão em colocar os jogadores aptos a entrarem no campo. A condição mental do jogador Jerôme Boateng não era das mais favoráveis. Antes de embarcar de jatinho para o Porto, ele esteve no tribunal de justiça em litígio pela a guarda de suas duas filhas.

A cena do dois sentados e sorridentes na mesa do banquete, depois da partida é só um cenário para alemão ver. Na mesma noite, no banheiro, o presidente do clube acusou diretamente o médico de culpado pela derrota e resultante dos desfalques de jogadores como Arnje Robben, Sebastian Schweinsteiger, Frank Ribery, só para citar alguns. Agravante do quadro é a péssima atuação do zagueiro Dante. Há semanas o brasileiro vem perdendo, de forma vertiginosa, o respaldo da torcida do seu clube.

Os comentários nas redes sociais depois do jogo contra o Porto deixam bem claro o termômetro de simpatia: No portal do diário de Munique, um torcedor desabafa: “Uma cara como Dante que só se preocupa com o penteado, não se ganha partida. Ele não deve mais estar na equipe do Bayern. Nao precisamos disso“. Um outro torcedor, analista tecnicamente: “Com falhas como no jogo contra o Porto como feitas por Dante, na segunda divisão você é expulso de campo. Uma atuação dessas não tem nada a ver com o nível da Liga dos Campeoes.”

A outra coletiva…

Em coletiva de imprensa realizada na sexta-feira (17) o porta-voz responsável por assuntos midiáticos, um tipo de porta-voz, tentava botar panos quentes e não responder perguntas sobre a demissão de Wohlfahrt, anunciada na noite anterior. Tentando usar o que ele aprendeu na faculdade de Gestão de Mídia, ele iniciou: “Temos a informar que o Dr. Müller-Wohlfahrt se desligou do clube. Sentimos muito e temos muito o que agradecê-lo”, mas esse fato não será tema na coletiva, garantiu ele com a calma de quem tem a faca no pescoço. (Veja link). Entretanto, os jornalistas presentes não se deixaram enrolar e insistiram num posicionamento, já que havia vazado na imprensa que a demissao teria sido a gota d’água das divergências (para dizer ao mínimo) entre o médico e o técnico. Não havia como dar continuidade a coletiva, sem conseguir um posicionamento de Guardiola. Os jornalistas insistiram. Guardiola cedeu. Não para acalmar os ânimos, mas para ter seu gostinho de vinguanca. Usando um pseudo-politicamente correto e cínico no conteúdo, ele soltou: “A decisão de se demitir foi dele” (Wohlfahrt) enquando balancava os ombros em sigal de indiferenca. “Eu respeito. Estava em casa ontem a noite e fui informado. Foi a decisão DELE, repetiu e para tirar o seu da linha de ataque: “Além disso, se os jogadores estão não é culpa do médico” esboçando um sorriso cínico, finalizou: “Isso acontece”.

Com final do meio-tempo ganho contra o médico mais influente do futebol alemão, Guardiola ainda precisa jogar os 90 minutos do segundo tempo que, provavelmente não terá prorrogação. Pode até ser que ele chegue até o final do contrato em 2016, mas o caminho até lá, será recheado de percalços e de muita picuinha, além do desfalque resultante da perda de solidariedade da imprensa esportiva alemã. Torcedores do Bayern usaram as redes sociais para clamar: “O Hoeness tem que voltar para botar ordem na casa e mandar esse espanhol de volta para a Espanha!”

Pep sai enfraquecido dessa disputa e está, a partir de agora, sobre constante vigilância. Um paço em falso, propositalmente ou não, lhe custará o cargo do qual ele mentalmente parece já ter se despedido, afinal, MaNu is calling!

https://www.youtube.com/watch?v=xvrjD5IqLyw

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