O Jazz morreu. Viva o Jazz!

Fátima Lacerda

07 de novembro de 2015 | 17h14

JFB15_web_Startseite.jpg©Berliner Festspiele

Enquanto no centro de Berlim, o Berlim-Mitte, o governo ainda continua procurando um denominador comum na política dos refugiados, o pacato bairro de Wilmersdorf, vive o seu fim de semana com toque internacional. O JazzFest. 4 dias recheados de grande qualidade musical, num evento em que não é o Jazz a sua maior característica, mas sim, ter se mantido teimoso num formato que já existia na época da Guerra Fria, “época dourada” de Wilmersdorf. Da perspectiva de Mitte ou mesmo do bairro multiétnico e caótico de Kreuzberg, os Wilmersdorfer são uns caipirões elitistas. E são mesmo. E daí. Os 30 minutos de bicleta até chegar ao bairro que tem fama de “fechar a calçada a partir das oito da noite”, valem, sim, a pena; especialmente no mês de novembro.

Esse ano, o JazzFest está de curador novo; o britânico Richard Williams e apresenta artistas de 30 países. Porém, o festival, nada mudou: “História e tradição do jazz são o fundamento que fará jovens músicos, parte da nossa programação, reflete o Booklet desse ano. Mesmo com novo curador, o formato é estático e, no sentido bom e ruim, é uma relíquia do paraíso cultural da parte ocidental de Berlim.

Surpresas musicais

Uma das razões pelas quais vale a pena, independente da temperatura do odiado mês de novembro, são as supresas musicais que o festival apresenta. Críticos das revistas Jazzthetik e Jazzecho viajam para Wilmersdorf com um olhar bem diferente do meu. Intencionalmente não estudo de forma prussiana a programação e vou checar as músicas dos respectivos artistas na Internet antes. Me permito o deleite de sentar na tribuna da imprensa e me deixar surpreender, e esse ano a surpresa foi logo na primeira noite, com o “Quarteto Cécile McLorin Salvant“. Cécile, filha de uma francesa com um haitiano, nasceu e cresceu na metrópole consumista Miami. Estudou no Conservatório na Aix-en-Provence e já com 20 anos, levou o prêmio na competição de jazz, Thelonius Monk. Com um vestido cinza prateado, sandália dourada, extravagantes óculos brancos, ela foi a segunda banda do primeiro dia (05). “Infelizmente eu não falo alemão, mas todos os alemães que eu encontrei, falam um inglês de responsa“, disse ele sem jeito ao chegar ao palco. Para ratificar que a tese de Wilmersdorf confere, alguém nas cadeiras ao lado da tribuna de imprensa deu um grito de “Buhh”. Pois é. Lá estava ele: o Wilmersdorfer caipirão!

Depois de cantar a música que fala sobre estar apaixonado por aquele que só te percebe como amigo, ela anunciou: “A música que vou cantar agora, se chama “Fog” e ainda achando necessário uma aproximacao cultural, ela perguntou: “Como se chama “Fog” em alemão?“. “Nebel!”, gritava um daqui, outro de lá. Várias tentativas foram necessárias até que ela pronunciasse de forma que fosse satisfatória para os alemães, esses que não deixam mesmo barato quando, finalmente, conseguem a chance de dar uma aulinha representando a língua de Schiller & Goethe e isso em cena aberta e no contexto de um Festival de Jazz que se autodefine internacional. Bem-vindo. Você está em Wilmersdorf e é nessas horas que você pensa, saudosista e cheio de nostalgia, na internacionalidade do Festival de Montreux. Dá pra comparar? Claro que não!

O baterista Lawrence Leathers foi a pérola que sofisticou o canto de Cécile. Daqueles que você sente a presenca do divino ou então, adentra o êxtase musical quando ela, no Bis, canta a capella uma música que traz todo o lamento das plantações de algodão do sul dos EUA, quando os trabalhadores cantavam para espantar a fome, a exploração debaixo de sol a pino e a exaustão. Tava tudo ali. A moça que nasceu e cresceu em Miami transportou, via memória cultural, todo o feeling, mas claro, sofisticado pelo canto de timbre perfeito, cristalino, contagiante. Vi no figurino a inspiração em Rachel Ferrel, mas ainda bem, sem as caretas terríveis que ela faz. Na voz, a inspiração em Billy Holliday era incontestável. Sua última canção do show, não antes de divulgar “Agora nós temos tempo para somente mais uma música”, ela apresentou uma versão de “What A Little Moonlight Can Do” numa dinâmica, para dizer ao mínimo, instigante: do total minimalismo à uma expansão de crooner na segunda parte da estrofe. No final do BIS, ela se curvou duas vezes para a plateia, deu um tchauzinho ao mesmo tempo comedido e simpático e saiu, elegantemente. “Low profil” diria meu amigo chileno. Bobby McFerrin, também um adepto do Menos é mais, teria ficado encantado com a performance da melhor surpresa do festival que tem na noite de sábado (07), o seu ápice programático com o saxofonista Charles Lloyd no projeto “Wild Mann Dance Project”. Nem tudo está perdido. Em Wilmersdorf!

Links relacionados:

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