O perigoso jogo de Merkel com a Turquia e a UE respirando por aparelhos

Fátima Lacerda

07 de março de 2017 | 09h56

Não há um dia em que o conflito entre a Alemanha e a Turquia não ocupe a imprensa e pipoque nas redes sociais. Comunicado dos Ministérios da justiça e das Relações exteriores exibem o desagrado da política de Ancara em Berlim. A chanceler Merkel só se pronuncia, quando a pressão da opinião pública fica insuportável. Nem um minuto antes.

Erdogan está com a corda no pescoço. Merkel também.

Eleições chegando

Enquanto Erdogan está prestes à uma votação sobre a mudança de sistema em seu país para que tenha plenos e ainda mais podres poderes num sistema presidencialista, Merkel usa a pior estratégia, a de fazer vista grossa e a do come quieto, já que esse mesmo Erdogan é quem “segura” os refugiados vindos da Síria em seu país, os oferece asilo político para que eles não pipoquem a estatística de refugiados chegando na Alemanha e a “Crise dos Refugiados” volte à baila.

Erdogan e seu (ainda) primeiro-ministro Binali Yildirim procuram a solidariedade de turcos residentes na Alemanha (1.4 milhões). Esses turcos, se sentindo cidadãos “de segunda classe” em uma sociedade hermética e cada vez mais avessa ao Islã, se mostra um solo fértil e caminho fácil para instrumentalização política do governo turco que precisa sair vitorioso das urnas.

Dirimir atiçou o ânimo dos turcos na última semana na cidade de Oberhausen localizada na região da Renânia do Norte-Vestfália, onde residem 500.000 detentos de um passaporte turco.”Quem ama seu país, diz sim”, apelou o Ministro.

Já o Ministro da Justiça, Bekir Bozdag, teve sua “apresentação” na cidade de Gaggenau, na região de Baden-Württemberg, cancelada num cenário que se torna, cada vez, mais absurdo. Quando a República de Berlim não decide, a batata quente fica na mão dos municípios, que sim, tem poder de decisão no sistema de democracia parlamentar regente na Alemanha e que oferece respectivas autonomias em âmbito de município, âmbito regional e federal. “Por questões de segurança”, foi a única saída pela tangente que a cidade de Gaggenau encontrou para ficar longe de toda a arruaça e toda a polêmica envolvendo a campanha eleitoral dos turcos e o desdobramento dela. Afinal, seria um comício de um político turco de um estado antidemocrático e repressor em plenos solos alemães.

A reação do governo turco foi chamar o embaixador alemão, Martin Erdmann, para dar explicações. A síndrome de vira-lata não tem mesmo limites e sai massacrando tudo o que vê pela frente. É assim no âmbito dos relacionamentos pessoais, no corporativo e no político.

Como se não bastasse o turbilhão que a Turquia está fazendo na Europa, o Ministro da Justiça, frente ao cancelamento por parte dos alemães, declarou: “Isso não pode se chamar de democracia”. Em protesto, ele cancelou a visita de encontro com o Ministro Alemão da Justiça, o social democrata, Heiko Maas.

A picuinha de vaidades masculinas sem limites acompanhadas de uma desastrosa síndrome de vira-lata, não termina por ai.

A festa de campanha eleitoral, agendada para a cidade hanseática de Hamburgo, também foi cancelada. O Plaza Event Center saiu pela tangente com a justificativa de “falta de uma instalação de prevenção de incêndio apropriada”, declarou uma porta-voz.

A Ira dos Turcos

Essa medida concernente a Gaggenau instigaram ainda mais a ira do aparato governamental turco. “Eu vou para a Alemanha, ninguém pode me conter“, declarou Mevlüt Cavusoglu, Ministro das Relaçoes Exteriores, decidido em fazer sua campanha eleitoral em solos alemães, mesmo porque só Deus e Erdogan sabem o que ele sofreria de represália se reagisse de forma mais suave e menos polêmica. Se nada mais der certo  quanto a encontrar um lugar “de acordo”, o Comitê Eleitoral do PKK, partido de Erdogan, garantiu que o encontro acontecerá, mesmo que tenha que ser “na residência do Consul-General” em Hamburgo.

Oberhausen, Gaggenau, Hamburgo. A Turquia está mesmo acionando todos registros para mobilizar os turcos residentes na Alemanha.

As redes sociais

A internet não só não perdoa, mas tamé,, não espera. Nela já circulam petições para impedir visita do Presidente Erdogan à Alemanha. Essas peticoes não vem “somente” de fóruns democráticos, mas também de populistas de direita.

As relações diplomáticas (se é que esse substantivo ainda cabe) entre a Alemanha e a Turquia nunca estiveram tao abaladas como nesse tempo acalorado e quando Merkel e Erdogan, mesmo com intensidades diversas, estão com a corda no pescoço. Eu já vi vários casamentos por conveniência, mas nenhum com tanto potencial masoquista, juntado à vista grossa e a um permanente quebrar de porcelana.

Depois do cancelamento do comício a favor da mudança de sistema, o lado turco deixou em aberto se ainda seguirá a agenda que prescreve encontro com Sigmar Gabriel, Ministro das Relações Exteriores do lado alemão.

Longe da Europa

A Turquia nunca esteve tao longe de fazer parte de um ex-clube de escolhidos. Erdogan sabe muito bem que a UE precisa da Turquia e, nesse meio tempo, se lixa para o clube que se tornou obsoleto perdendo cada vez mais respaldo da população, também devido ao crescimento incessante das forcas populistas de direita no continente.

Europa em “Diferentes velocidades”/O encontro em Versailles

Os primeiros-ministros da Itália, Paolo Gentiloni, e da Espanha, Mariano Rajoy, e a chanceler da Alemanha se encontram em Versailles, a convite do presidente francês, Hollande “para decidir o futuro da Europa”. Esse encontro, protagonizado por Hollande, também com a corda no pescoço e vai entrar nos anais da história como o presidente francês com menos popularidade, precisava ter seu último Momento Holofote ao lado de Merkel. Os representantes italianos e espanhóis foram renegados ao papel de ponta, aquele que entra mudo e sai calado. Merkel, por sua vez, precisa de imagens como líder europeia e o Palácio de Versailles e sua simbologia são perfeitos para o restante do eleitorado de Merkel. Porém a Alemanha se vê confrontada com um aumento vertiginoso de aversão à política centralista de Bruxelas.

Só o nome dado ao encontro “Para decidir o futuro da UE” é um tiro no pé. Na melhor das hipóteses, a UE tem um presente, o seu futuro dependerá do resultado das eleições federais na Alemanha em setembro próximo. A União chegou nesse ponto não apesar de Merkel, mas por causa de sua teimosia em fazer vista grossa no que acontece na porta de casa. No último sábado, por exemplo, grupos da direita populista e neonazistas fizeram passeata ao lado da Chancelaria Federal sob o lema “Merkel tem que sair“. Essa passeata acontece todos os meses no mesmo lugar e virou um solo de ataques à jornalistas que são insultado, agredidos fisicamente sobre o grito irado de “Imprensa mentirosa” (Lügenpresse, em alemão).

O caráter paliativo do encontro álibi em Versailles me remete aos chefões do Politburo em 1989 quando os alemães já estavam nas ruas afirmando “Nós somos o povo” e a diretoria decidiu implementar medidas menos repressivas. Já era tarde demais. A dinâmica da história já havia ultrapassado o regime e provavelmente, a UE está indo pelo mesmo caminho. Em entrevista à BBC no programa “Hard Talk” veiculado em outubro de 2016, a candidata à presidência do partido Front National, Marine Le Pen, declarou que, eleita, uma das primeiras medidas do seu governo será a campanha para o FREXIT. E isso, é só o começo da nova constelação política, no mínimo preocupante, que está se delineando na Europa do futuro, que já começou. Apesar da vista grossa de Merkel.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.