A picuinha político-econômica entre Atenas e Berlim

Fátima Lacerda

19 de fevereiro de 2015 | 16h47

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Desde a vitória de Syriza nas eleições há menos de um mês, os gregos contavam com um efeito dominó nos países da UE. Uma rebeldia contra a política de austeridade da chanceler Merkel. Logo ela, adepta do princípio de que “não se pode viver ao custo de dívidas” nem muito menos ao custo das futuras gerações.

Dando o exemplo, Merkel e seu braço direito, o Ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, conseguiram a proeza de não precisar fazer dívidas no orçamento de 2014. Para 2015, o governo divulgou para a imprensa a sensação de orçamento totalmente equilibrado e bem longe do vermelho. Isso, pela primeira vez desde 1969, quando a Alemanha Ocidental ainda existia e os desafios contemporâneos de natureza geopolítica e econômica eram inimagináveis.

O novo governo grego deixou, logo de início, bem claro sua antipatia pela chanceler alemã, digo, pelo o que ela representa.

De praxe, logo depois de tomar posse em seu país, todo o chefe de governo da UE parte logo no dia seguinte para Berlim. Depois para Paris e de lá, para Londres. Esse é o percusso diplomático que espelha a relevância política.

Contrariando a correnta, logo depois de sua posse, o premiê Alexis Tsipras fez visita oficial aos seus colegas em Paris e Roma (nessa ordem).

Perguntado pela imprensa internacional se marcaria ponto em Berlim, Tspras respondeu: “Frau Merkel é somente uma de 27 chefes de governo na UE”.

Logo em seguida, o Ministro grego das Finanças, um rebelde pela causa, e que foi chamado do exílio no Texas (EUA) para ocupar a pasta, expulsou o chefe da chamada Troica, que controla se as medidas exigidas estão sendo cumpridas pelos países credores.

Depois de muita medida de força, ameaça e a declaração (com efeito Déja vù) “Nós estamos perdendo a paciência com a Grécia”.

Na semana passada, dois encontros de Ministros das Finanças fracassaram, até o Eurogrupo deu um ultimato à Grécia de fazer o requerimento de prolongação da ajuda financeira até sexta-feira, 20.

“A carta enviada pela Grécia não contém nada substancial” foi a frase curta e grossa do Ministros alemão das Finanças, Wofgang Schäube, frase essa que rejeita o requerimento, publicado em original no portal Spiegel Online, incluindo o trecho:

“As autoridades gregas entendem que os procedimentos acertados por governos anteriores se tornaram obsoletos por consequência das recentes eleições presidenciais o que resulta em sua invalidade.”

O tom uníssono na mídia alemã é o perigo de falência da Grécia. Nos comentários de artigos como também nas redes sociais, os alemães se mostram “fartos de bombar dinheiro na Grécia”. O partido anti-euro e populista de direita, AfD, pleiteia, não é de hoje, a saída da Grécia da zona da UE.

O twitter do portal esquerdista Attac da Áustria, postou: “A postura do Eu-sozinho de Schäuble arrisca a explosão da Zona do Euro”.

Um outro usário no Twitter, indaga: “Alguém já pediu a renúncia de Schäuble?”

O portal Metropole an der Ruhr, atesta: “Com a rejeição da carta dos gregos, Schäuble ultrapassou os limites de sua competência”.

O governo grego se encontra entre a corda e a caçamba. Entre a posição acirrada motivada pela ideologia, entre as promessas feitas ao povo grego no período de campanha e a dura real situação financeira em que o país se encontra.

A questão nesta sexta-feira no encontro a ser realizado em Bruxelas, será como o governo grego vai colocar mais substância no requerimento que pede o prolongamento da ajuda financeira sem ficar desmoralizado perante os eleitores. Isso foi exatamente o que aconteceu com o atual presidente François Hollande que foi eleito para cologar barreiras na política austera de Merkel e hoje é o seu aliado mais obediente. Em contrapartida, detém o pior percentual de simpatia dos eleitores fato que o tornara um dos motivos mais presentes em várias edições do semanário Charlie Hebdo.

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