O “presente de Deus” para Erdogan, a rotina do terror e saudades mundanas

Fátima Lacerda

16 de julho de 2016 | 17h54

Ainda no domingo passado (10) (e que me parece uma eternidade) eu me encontrava na UEFA Fan Fest à procura de um gatos pingados, torcedores portugueses para entrevistá-los para o Esporte Interativo. Na sala de imprensa, com vista para o Portão de Brandemburgo só haviam 5 jornalistas. No VIP-Lounge ao lado, a cena – habitualmente – decadente de quem quer pegar a pulseirinha e garantir ainda bebida  grátis, disponibilizadas pelo patrocinador. Havia tempo de balançar a cabeça freneticamente, porque uma equipe tão sem graça, que não mostrou futebol atrativo e que não ganhou nenhuma partida em tempo regular, pudesse sair campeã da Eurocopa. Isso só ratifica que o Deus do Futebol tem um senso de humor peculiar. Não faz nem mesmo uma semana que podíamos nos ocupar, zangar e jogar conversa fora sobre deliciosas coisas mundanas. 

A Eurocopa acabou e as nossas noites de verão (acima da linha da Equador) ficaram vazias por muito, muito pouco tempo. Nem tivemos tempo de ficar de luto pela falta do ritual futebolístico noturno.

Primeiro cinema, depois o terror

Na quinta-feira (14), conferia uma semana de cinema promovida pelo departamento de imprensa do governo alemão. Durante 7 dias, ao ar livre e grátis, há uma seleção de filmes sobre os temas imigração, fuga, começar de novo a o perrengue que é se adaptar à sociedade alemã. “Fogo no mar” estava na programação daquela noite, o filme que levou o Urso de Ouro na última edição da Berlinale. O diretor escolheu dois plots: a visão de um menino hiperativo que vive na Ilha de Lampedusa. O outro, a odisseia insana que milhares e milhares de imigrantes que deixam tudo para trás e só trazem a roupa do corpo passam numa embarcação, por vezes, de borracha em mar aberto depois de terem pagos quantias astronômicas para chegar ao El Dorado. Como pudemos perceber, ainda existem embarcações com a divisão de primeira, segunda e terceira classe, essa última no porão do navio. No mais tardar depois desta cena, você não consegue mais rir da letra da música dos Paralamas:”Entrei de gaiato num navio”. O fim da insustentável leveza carioca.

Chegando em casa, já no fim da noite, a linda do tempo do Twitter fervia com notícias sobre o tragédia em Nice. Igualmente naquela sexta-feira fatídica de Paris em novembro de 2015. Havia estado num concerto de música clássica no Instituto Cultural da Finlândia, lugar onde regia um clima como se o mundo fosse o melhor dos lugares para estar. Final de noite. O Terror aparece: em Bruxelas, Paris, agora na beira da praia. Há poucas semanas foi Orlando. Flores. Velas. Pessoas sem saber o que aconteceu, na inútil tentativa de entender. Isso em Bruxelas, em frente a Embaixada francesa em Berlim na Pariser Platz ou mesmo em frente a dos EUA.

O terror se tornou rotineiro em nossas vidas. Vem junto com notícias de renúcia de políticos e de prognótisco de tempestade climática. Nos últimos meses, a Torre Eiffel foi iluminada em solidariedade com países vítimas de ataques terroristas. Há bem pouco tempo, o Portão de Brandemburgo foi iluminado com as luzes da bandeira da Turquia.  Nova Iorque Madrid, Jacarta, Istambul, Bruxelas, Paris 1, Paris 2 e agora Nice. Quando será a vez da Alemanha? Sempre que o assunto é política, o denominador comum na percepção de berlinenses é que isso “é só uma questão de tempo”.

Constantes sobressaltos

Na noite de sexta-feira (15), a banda Living Colour, do qual o virtuoso baterista Will Callhoun é simplesmente apaixonado pela riqueza musical do Brasil, finalmente, voltou a Berlim e levou os fãs a um êxtase musical de luxe. Em conversa depois do show, Will comentou comigo que depois da passagem da banda pelo “Hollywood Rock ’92” ele queria ficar, em definitivo, no Brasil. Anos depois, largou tudo em NY, ficou 3 meses na Bahia e semanas no Recife, incluindo aulas de forró e maracatu.

Desta vez, na Setlist constava a música “41 tiros” (41 Shots). Antes de executá-la, o cantor avisou: “Tínhamos tirado essa música do repertório, mas por motivos atuais, decidimos retomá-la”. A batida final da batera, intuindo os 41 tiros deixou a sala com 500 pessoas num silêncio mortal dentro do Frannz Club no bairro de eferverscência cultural de Prenzlauer Berg.

Saudades mundanas

Como não querer um Vale a Pena Ver de Novo com o espetáculo que foi a participação dos islandeses na Eurocopa, somando ao fato que eles nos remeteram ao genuíno do futebol, que havíamos achado perdido? Pode ser pueríl, mas a vontade de normalidade inquieta, aflige, mesmo que em todo esse tsunami, Berlim ainda seja um oásis.

No final da tarde também de sexta-feira, chegou a notícia da morte repentina de Hector Babenco, que depois de ter uma passagem pelo deserto em anos na luta contra o câncer, teve uma parada cardíaca. Quando em 2001 ele foi membro do júri da Berlinale, eu sentei na fileira de trás da reservada para o júri e juntei toda a coragem para falar com ele. Ele foi seco, mas educado. 10 anos depois, no contexto da Mostra “Premiere Brasil” e uma conferência via Skype com a plateia desde Berlim, eu o fiz tantas perguntas que ele deu autorização para que Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio me desse seu e-mail. Quando enviei a primeira mensagem, ele respondeu pessoalmente: “Fátima, estou aqui à disposição para o que você inventar.” E o canal estava aberto, o que desmembrou em exibição de vários filmes do diretor na mostra de cinema na “Oficina das Culturas”. Que eu perdi a cabine de “Meu amigo Hindu” quando estava no Rio de Janeiro no mês 03, ficará na conta de um desencontro infeliz.

Policemen stand on a military vehicle after troops involved in the coup surrendered on the Bosphorus Bridge in Istanbul, Turkey July 16, 2016. REUTERS/Murad Sezer

© REUTERS/Murad Sezer

O Golpe na Turquia

Na madrugada de hoje então, a tentativa de golpe na Turquia, esse país que virou uma permanente batata quente para a EU e especialmente para a Alemanha. Desde a assinatura do “Acordo com a Turquia”, em alemão se fala muito em “Deal”, intuindo o aspecto de um toma-lá da cá, o governo de Merkel está de rabo preso com o governo de um déspota que conseguiu o que parecia impossível. Roubou a cena de Putin, esse um outro déspota ergomaníaco e que desde a anexao da Crimeia, está banido do exclusivo clube do G7 (anteriormente, G8) e agora é persona non Grata. A conferência da OTAN em Varsóvia no último fim de semana mostrou claramente que a Aliança não tem um Plano B para Rússia, a não ser o esquema requentado da Guerra Fria, em estacionar mais e mais soldados na Polônia. Nem mesmo no âmbito da OTAN, a relação entre Alemanha e Turquia funciona. Depois de conversar particular com o déspota, tentando convencê-lo permitir a visita de parlamentares alemães aos soldados do exército alemão (Bundeswehr) estacionados na base área de Inclikr, saiu com as mãos abanando. Erdogan quis dar o troco depois de se declarar “decepcionado” com Merkel devido à resolução da Câmara Baixa do Parlamento Alemão, o Bundestag, que votou a resolucao que condenava o massacre contra o povo armênio.

Semelhanças

A picuinha do toma lá da cá ou puxar o freio de mão é comum tanto em Putin quanto em Erdogan. Depois de uma noite temerosa na Turquia ele, na manhã de sábado, declarou: “A tentativa de Golpe foi um presente de Deus”.É inacreditável o bagatelizar cada vez mais frequente de “Deus”: O Bolsonaro faz. O Feliciano faz. Erdogan também. Pelo menos a premissa de que “Deus é brasileiro” deve ter se dizimado, depois do 7 x 1.

Quando trabalhei  no Consulado Geral da Coreia do Sul, no semestre de férias que tirei na faculdade, os cônsul zoavam muito sobre os costumes da parte do Norte do país ainda divido. Certa vez, em reunião, um deles comentou: “Quando há um jantar no Palácio do ditador da Coreia do Norte e alguém elogia o peixe servido, alguém outro retruca”. “Foi o nosso Líder que ensinou o peixe a ser saboroso”. Essa megalomania acomete políticos lesados de uma total perda do senso de realidade e Erdogan já tem a receita. Quando começa a lhe faltar respaldo, ele simplesmente convoca novas eleições. Quando em visita à Alemanha, ele fecha estádios de futebol, faz discursos patriotas, acaricia a alma calejada e socialmente excluída dos “turcos imigrantes”: “A porta da casa estará sempre aberta para vocês”, assegura o populista. 

Depois do “Deal” com a UE e muitas divisas pagas pela Alemanha para que Erdogan “segure” os refugiados e não os deixem chegar à Alemanha, Erdogan está em posse da faca e do queijo e nem mesmo a UE nem a chanceler querem saber que destino é dado aos refugiados que Erdogan não deixar passar.

Merkel, coerente com sua dialética, vem tampando o sol com a peneira. Na manhã de sábado, ela continuou coerente no seu discurso cosmético e não menos comprometido:

É preciso que cesse o massacre na Turquia. Canhões nas ruas e ataques aéreos contra a população civil não combinam com o Estado de Direito“.

Segundo fontes do Ministro Presidente Binali Yildirim, o golpe custou a vida de 265 pessoas, entre elas 104 golpistas. Mesmo que a imprensa turca tente convencer que a „situação está sob controle“, a esmagadora maioria da imprensa alemã se mostra cética.

Chega de Terror

Eu não quero mais ver páginas criadas no FB para se solidarizar com esse ou aquele país, essa ou aquela cidade. Neste ano que acaba de chegar a metade as tragédias e morte já foram tantas, que o Twitter publicou um trending topic sugerindo: “2016 em 3 palavras”. A avalanche de adjetivos negativos mostra que muitos, muitos estão cheios desse ano arrebatado de percalços, num mundo que fica cada dia mais complexo, difícil de administrar e de entender: A “Casa Europa” caiu. Um extraterrestre que atende pelo nome de Boris Johnson será o Ministro do Exterior da era pós-Brexit, o governo de Merkel tem que sentar e comer na mesa com o ditador turco. O terror, seja ele motivado por convicção política, por desequilíbrio mental, por racismo ou pelo ódio como meio de expressar a imensa solidão, agora faz parte da minha rotina.

Se a saudade dos encantadores Vikings continuar a bater no peito, dá pra segurar. Provalvemente a insana dinâmica do momento convulsivo em que o mundo atravessa, nos fará esquecê-los, mais rápido do que gostaríamos, mas o bom mesmo seria… Viver Sem Tempos Mortos.