O Presidente convida e berlinenses “invadem” o Pálacio Presidencial

Fátima Lacerda

12 Setembro 2015 | 11h09

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Festa dos Cidadãos” acontece sempre no mês 09 no Bellevue. O nome francês pode suscitar a comparação com os palácios de Paris. Não pode. O Bellevue é austero, mas nao tem nada de pomposo. Neste fim de semana, no Palácio onde reside o Presidente Joachim Gauck, o foco é o exercício da cidadania. 

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A sexta-feira (11) foi para convidados que se destacaram pelo trabalho voluntário, fator chave para a sociedade, assim a crença de Gauck, que nasceu na Alemanha Oriental, onde exerceu durante décadas a função de pastor evangelico-luterano. Seu discurso como Presidente não deixou de ser humanista.

Pesquisas contabilizam Gauck percentuais de pularidade que seus antecessores, desde que Berlim se tornou capital, jamais alcançaram. Gauck, que apesar de ocupar um cargo de representativo (assim prescreve a Constituição), sempre se posiciona e instiga questionamento, discussão e por vezes colhe críticas de políticos de vários partidos.

4000 mil convidados marcaram presença na sexta-feira (11). A programação inicia sempre com a entrada oficial de Gauck e sua companheira, a ex-jornalista Daniela Schadt. Vale mencionar que no papel, Gauck ainda é casado, mas se negou a seguir o protocolo e se divorciar e casar de novo. É a primeira vez na história de 66 anos de existência do Estado Alemão que um Presidente teima em viver  amigado ou como se diz politicamente corretíssimo em forma de união estável, porém a descrição em alemão me agrada bem mais: “Casamento selvagem” (Wilde Ehe).

Depois da passagem pelo jardim, o Presidente se dirige ao palco e inicia o discurso. Toda a imprensa espera que, de acordo com a atual situação do país, o tema principal não poderia ser outro, senão a chegada de refugiados e da importância de encarar juntos aquilo que a chanceler Merkel denominou de “Desafio Nacional”.

Na primeira fila, muito bem humorada, vestindo blazer azul claro e calca branca, estava a chanceler que é presença rara nessa anual festa. Porém, marcar ponto nesse ano quer dar o exemplo de unidade. “Eu me alegro especialmente com a sua presença, Sra. Chanceler que, como todos sabemos, tem atualmente uma agenda constante de compromissos”, colhendo aplausos calorosos do público. Sentada ao lado do Embaixador de Israel em Berlim, também tinha grande valor simbólico, como ratificou o Presidente.

Nós experimentamos nessas semanas que a nossa democracia ainda tem muito o que aprender. Ela precisa mirar novos objetivos, novos deveres. Precisamos dizimar com trâmites burocráticos para podermos, operativamente, topar os desafios desse momento”, mencionou o Presidente, se referindo ao elefante burocrático que é a Alemanha quando se trata de requerimento de asilo político. Não é raro, famílias esperarem 3 anos para obterem uma definição de seu status político, incluindo a permissão de trabalho e com ela, uma real perspectiva de integração e independência econômica. 

O retrato que tem sido visto na Alemanha dos últimos dias, e nós estamos experimentando isso de uma forma conjunta, me faz sentir grato, feliz e também um pouco orgulho. Se dermos ao nosso país uma cara de humanidade, é desta maneira que daremos a resposta aos xenofóbicos, aos incendiadores de abrigos e aos que tem aversão crônica pelo ser humano”.

Outras “terras” outros costumes

A “Festa dos Cidadãos” traz para Berlim, num fim de semana, inúmeras pessoas dos cantos mais escondidos do país, até de vilarejos minúsculo. Num das minhas investidas jornalísticas, mas assim como não quer nada, encontrei numa das mesas, Irma e Margit, duas senhoras lá pelos seus 65 anos. Depois de inciar com o comentários sobre o tempo e a chuva que caiu durante quase todo o dia, elogiei o Presidente e atestestei uma boa conexão dele com São Pedro. O dia foi só chuva até a hora do início do discurso, às 17 horas, horário local. Enquanto conversávamos na mesa e o Presidente acabara de passar juntamente com Angela Merkel ao nosso lado e cercado de um exército de repórteres, São Pedro deu o ar da sua graça, mas coisa rápida. Na conversa, descobri que elas moram na cidade de Erding. “Ah, a da cerveja?” (uma das mais famosas do país), perguntei. Margret sorriu. Ela contou que seu engajamento voluntário é na igreja da pequena cidade incluindo ajuda à pessoas da terceira idade que sofrem de demência. Irma ficava só de olho na nossa conversa, que até esse ponto ainda se mostrava de mão única. Quando comecei a perguntar sobre a política da Baviera, ai Irma se animou. Entrou na conversa. Eu disse que, da perspectiva prussiana, fora o que sai na mídia, eu sei muito pouco da Baviera. Bingo! Margitt é membro do partido bávaro, o CSU. Me contou tudo. O que acha de fulano. Perguntei se o autodenominado Príncipe Regente, tem chances de “desbancar o Rei Horsthofer”, atual chefe do partido e por muitas vezes uma cola e pedra no sapato de Merkel. “Ele não tem nenhuma chance. Afinal é não é nem da Baviera, ele é da Francônia!”. Vale mencionar que as duas regiões fazem, em termos políticos, do mesmo estado. Porém, existe uma fronteira (!), os dialetos são bem diferentes, as mentes também. São nessas horas que me lembro do fenomenal “milagre linguístico” que o Brasil representa. Você viaja de ônibus do RJ para Fortaleza, que leva 40 horas, atravessa a Bahia, passa por Petronina, pela Caatinga de Pernambuco e as pessoas falam a mesma língua!

Aprofundamos a conversa no âmbito político e quando mais ela respondia, mais eu percebia que boa fonte de Informação eu havia encontrado.

Quanto aos refugiados, ela mencionou a “situação indescritível” na cidade de Munique. “De onde vem os refugiados que vivem na cidade de vocês?”, perguntei. “A maioria, até agora, era proveniente do Afeganistão“, disse Irma que já estava incluída na conversa que agora fluía como com a intensidade das correntezas do Rio Isar em Munique. “Eles se integraram muito bem, fisgaram as vagas no mercado de trabalho e fazem muito progresso com a língua alemã”. “O que estão chegando agora são de Eritreia”, enquanto exibia um semblante de desagrado. Margit se mostrou cética no “dia seguinte”, ou seja, quando a chegada em massa, diminuir ou passar, o que será do país. “O que vocês acham da Merkel?”, indaguei, mas já intuindo a resposta. “Gostei dela sempre”, disse Irma com uma voz resoluta que até agora eu não conhecia. Margit deu seu veredito com um balançar da cabeça de cunho afirmativo. Quando elas falavam entre si, em dialeto bávaro, caracterizado por uma articulação rasgada e vocais em tom de barítono e eu só entendia a metade, perguntava. “Como é mesmo?”. Elas sorriam, exibindo o orgulho da regionalidade e repetiam num quase alemão standard. Em primeira visita em Berlim e já convidadas para ir ao Palácio Presidencial elas estavam o no sétimo céu. Pediram dicas para aonde ir e o que “impreterivelmente” conhecer. Fiz 3 sugestões, uma delas de uma exposição, mas elas queriam mesmo é passar o pente fino em Berlim. A pé. “É mais cansativo, mas bem mais legal”, disse Margit.

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Mais tarde, já com o dia anoitecido, nos reencontramos por acaso e fizemos fotos no jaridm. As prometi não vinculá-las no artigo, o que é uma pena, pois Margit usava um vestido típico da Região da Baviera, mas combinado é combinado.

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Um outro “achado” nos jardins do Palácio foi Sven Latteyer, o motorista de ônibus que ficou famoso em todo o país, quando no início de agosto, saudou 15 refugiados que transportava para o primeiro abrigo depois de chegar ao país.

Depois do discurso de 31 de agosto da chanceler, discurso esse que mudou paradigmas, o clima no país é pro refugiados. Porém quando Sven tomou posição, eram férias parlamentares e a chanceler ainda teimava em fazer vista grossa para o clima de hostilidade que regia no país. Sven foi um pioneiro e como reconhecimento pela sua atitude, recebeu um convite pessoal do Presidente, para fazer parte da Festa dos Cidadãos e Sven não escondia nem um pouco o seu orgulho por tão renomado convite. Em entrevista exclusiva ao Blog, Sven fala com espantoso discernimento sobre o que o incentivou ao ato, sobre o interesse da mídia em sua pessoa e como é, hoje, dirigir ônibus sendo tão famoso. Como o tempo não permitiu a introdução de legenda no vídeo, seguem alguns dos pontos mais importantes, em formato de transcrição:

FL: Como foi no dia da mensagem? Foi algo espontâneo?

SL: “Eu já tinha percebido que eles entraram no ônibus muito amedrontados. Começou um processo interno em mim e eu entendi que precisava fazer algo contra isso. Sabia também que tinha que ser em inglês, já que é a língua mundial. O fiz de coração: Peguei o microfone e falei.”

E o grau de reconhecimento atingido pela notícia? Você esperava essa abrangência?

“De forma alguma. Fiquei surpreso que a imprensa apresentou interesse na minha pessoa. O que eu fiz, foi o que qualquer pessoa deveria fazer, que é um ato humano. Estou feliz com a repercussão, mas espero que o meu exemplo não permanecera o único.”

Você mencionou antes da entrevista que houveram também reações negativas. Como foram elas?

Ah, o pessoal disse que eu era um puxa saco ou foi tudo planejado. Eu acho lamentável. Eu acho que isso é um inveja e isso é decepcionante“.

Independentemente se estou presente como jornlista na A “Festa dos Cidadaos”. Nao “somente” pela postura do Presidente, mas pelo cunho democrático do evento, que espcialmente em termos de segurança é um verdadeiro desafio para funcionários da Presidência e para o aparato policial. No final da noite, eu a as correspondente da Noruéga, fomos para um local perto do lago para vislumbrar de forma mais tranquila, a música ao vivo. Imediatamente veio um policial à paisana inspecionar o nosso “movimento”. Policiais em grupos de 3 passeiam pelos jardins. Segurancas, militares do exército assim como policiais a paisana. O planejamento é tao bem feito, que a presenca não causa constragimento algum, pelo contrário, da uma impressão de que o evento foi bem planejado.

Nessa dialéitica de “Democracia de base”, nao tem como deixar de fora o fato de para ir ao Palácio, preciso somente de 15 minutos de bicicleta. Juntando essa facilidade com o clima de confraternizacao para uma sociedade mais humana, é de grande beleza. Quando o Presidente diz “Danke” aos voluntários, esse agradecimento é honesto, autêntico e emociona.

Entrevista em Original:

https://www.youtube.com/watch?v=Os8UNuthMh4