O presidente de 140 caracteres e a saída de emergência de Angela Merkel

Fátima Lacerda

17 Janeiro 2017 | 20h37

MerkelReuters ©Reuters

Ficou na história e uma ferida aberta nos alemães que vem os EUA, desde sempre, como uma pedra no sapato. Rumsfeld, então Ministro da Defesa do governo Bush, em coletiva de imprensa se referiu à França e à Alemanha como “Old Europa” (velha Europa) alegando que os países do leste eram a “Nova Europa”. Essa frase resultou num baque para nos alemães, especialmente a geração que vivenciou a Guerra Fria e o estacionamento de soldados americanos em todo o país.

George Bush sumiu das lentes midiáticas num tempo que o mundo estava farto de vê-lo. Nem mesmo a memorável do sapato sendo atirado nele (o que no mundo árabe é sinônimo de total desprezo) acalentou o mundo, cansado de suas mentiras e de suas idiotices.

Yes, we can

A eleição de Barack Obama, em novembro do ano de 2008, um ano que, de muitas maneiras, ficou na história do mundo e na minha biografia pessoal também e isso não “só” porque “Tropa de Elite” levou, merecido, o Urso de Ouro da Berlinale.

Aquela noite história, eu passei com Luís, meu amigo mineiro de Caeté a noite inteira no então centro de cultura americana em Berlim, a “Amerika Haus”, que hoje abriga uma das galerias mais representativas no quesito da fotografia contemporânea. Sentamos no chão, músicos tocavam guitarra, alguém recitava poesia. Quando os gráficos começaram a aparecer, era só faísca que saia do olhar das pessoas.Eletricidade se espalhava no ar daquela noite memorável.

Na tarde de 20 de janeiro de 2009, assistindo ao vivo Live Stream a CBN, eu coloquei no mais alto volume o som e gritava YES, YES, YES. Um conhecido meu da época tecia discussões acirradas comigo na certeza de que ele não tomaria posse e se o fizesse, seria assassinado. A posse de Obama foi uma vitória pro mundo, mas também para quem teimava em não alcancar o momento histórico ali na nossa frente. Depois daquela percepção errônea, vieram outras e outras. Para os cegos, equivocados e amarrados no próprio recalque, só o céu é o limite.

O cenário cor de rosa de “Obama Darling”

Obama não foi o bonzinho. Sabia das espionagens do Serviço Secreto com a sua melhor amiga no continente europeu. Quem tem amigos assim, não precisa de inimigos. Obama foi inteligente e, apesar de tudo, conseguiu Merkel como aliada, ela, que tem como menina dos olhos, o relacionamento transatlântico. Vale lembrar que mesmo antes de ser chanceler, Merkel foi a Washington assegurar Bush seu apoio em 2003 e com um texto publicado no “Washington Post” desmoralizou o então governo do socialdemocrata Schroeder que, de forma absoluta, foi contra a Guerra do Iraque. A chanceler alemã passou a borracha nesse tiro no pé típico de CDFs, o que Merkel, aliás, sempre foi.

Ao menos usou de sue poder constitucioal 3 dias antes de deixar a “Casa Branca” e encurtou o período de prisão de Bradley Edward Manning, hoje Chelsea Manning que será libertada em maio próximo depois de 6 anos de pena cumprida numa sentença que estava planejada para durar 35 anos.

Em sua conta, de Twitter linkando um artigo veiculado no jornal “The Guardian”,, Snowden mandou mensagem de apoio ao ex-colega: “Mais cinco meses e você estará livre. Obrigada pelo que você fez por todos, Chelsea. Aguenta mais um pouco“. O sueco Julian Assange, preso na Embaixada do Equador em Londres havia declarado que se entregaria à justiça dos EUA, caso Manning fosse perdoado.

Obama poderia ter, sim, ter mostrado coragem e fibra perdoando Edward Snowden, um herói do nosso tempo. A promessa de fechar Guantánamo também não foi cumprida pelo democrata e detentor do Prêmio Nobel da Paz. 

Apesar de muitas falhas de Obama e alguns deveres deixado por fazer, o mundo não poderia imaginar que, na sexta-feira (20), um imprevisível, um homem que provadamente despreza mulheres, zomba de deficientes e, como delineou de forma brilhante Meryl Streep, legitimidade a todos os outros a fazerem o mesmo.

O que esperar de Trump?

O mundo todo espera que, pelo menos, os assessores de Trump evitem o pior. Um ex-assistente de Bush Junior, que trabalhava no Oval Office disse que Bush gostava de saber das novidades “em viva voz”. “Não de nada para ele ler. Ele não gosta”. Trump é daí pra pior. A especulação de que será seu genro que dará as coordenadas, vai de vento em popa nos artigos de análise política ou naqueles de alto índice depressivo.

Donald, o presidente dos 140 caracteres através dos quais ele vomita seu ódio, expressa sua ignorância e sim, faz jus ao homem de negócios que é. Trump acha o BREXIT show de bola, classifica a política de imigração de Merkel como “catastrófica”, diz considerar a OTAN, “obsoleta”, ameaça cobrar impostos de carros alemães produzidos no México e também acha que o país do  Senhor Guacamole e  da Tequila tem que arcar com as despesas de um Muro a ser construído entre os dois países. Um roteiro de filme de Oliver Stone ou até mesmo de um Michael Moore é café pequeno comparado ao abismo que podemos, desde já, vislumbrar.

A sátira dos debates presidenciasi envolvendo a atriz Kate McKinnon, como Hillary, o ator Alec Baldwin como Trump e um Tom Hanks absolutamente brilhante como o mediador Chris Wallace é uma das poucas possibilidades rir de um espetáculo patético, devido ao grande talento de todos os envolvidos,

Sonia Seymour Mikich, jornalista do conglomerado de emissoras de rádios e tvs públicas, ARD, e por muitos anos correspondente em Moscou fez um comentário, ao mesmo tempo sarcástico e corajoso no jornal da noite de segunda-feira (16) sobre a entrevista concedida por Trump ao chefe do tabloide sensacionalista Bild, Kai Diekmann que esse realizou com seu colega Michael Gove, do London Times. Gove deve ter sido persona muito bem vinda na Trump Tower. Ninguém menos que Gove foi Ministro no Gabinete do ex-premier britânico David Cameron e traindo seu chefe, foi um dos mais decididos porta-vozes do Brexit. Para tornar esse encontro ainda mais bizarro, Diekmann fez questao de ser o mensageiro na entrega de uma lasca do Muro de Berlim, assinada por Helmut Kohl, Bush Pai (1924) e Mikhail Gorbachev.

Diekmann680x382 © DPA

Ereções verbais, uma profundidade intelectual de, no máximo 140 caracteres. O que Trump falou não foram posições, nem ideologia, mas palavras de um narcisista da época da Roma Antiga, algo entre Nero e o Pato Donald. Fora do lema “Make America Great Again”, até agora não conhecemos os planos de Trump. O próximo presidente da maior potência mundial diz isso, aquilo, depois ao contrário, mas sempre rápido e sempre bem alto.”

Mikitsch vê a intenção de Trump em “desestruturar” o que até hoje percebemos como política trocando pelo “Quanto custa?” e pelo “Quem paga mais?”.

O que sobrou para Merkel

A biografia de Angela Merkel faz entender o porque de sua obsessão pela harmonia no relacionamento transatlântico e a fieldade absoluta aos EUA, país que recentemente, em visita de Obama na capital para dizer Bye-Bye, ela mais uma vez ratificou: “O que une os EUA e a Alemanha é uma parceria de valores comuns”.

Não foi “só” a dinâmica que fez desmoronar o Muro de Berlim em 1989 que nos mostrou que o dito hoje, pode ser atropelado pela dinâmica dos fatos; se tornar obsoleto amanha. Contrariando a maré, a frase do ex-líder russo Michael Gorbachev pronunciada naquele 07 de outubro de 1989 ainda continua valendo. “Quem chega tarde demais, é punido pela história”. Trump já chegou tarde. Todos nós já perdemos, mesmo antes do “Inauguration Day”. Também a frase de Sting, eternizada no álbum “Nothing like the Sun” também continua valendo: “A história não irá nos servir de lição alguma” (em tradução livre).

Até nunca mais ver…

Pouco mais de um mês da visita do Mr. Yes, We Can em Berlim, Merkel já teve que mudar seu discurso e logo na parte mais sagrada dele.

A chanceler se deixou colocar contra a parede pelo imprevisível, pelo narcisista ou como descreveu o ex-Ministro das Relacoes Exteriores, Colin Powell, pelo Desastre nacional”. Só sobrou o ataque expressado na frase: “O destino da Europa está nas nossas mãos”. Nem tudo que brilha é ouro e na Alemanha, terra-mãe do ceticismo, do tipo “confiar é bom, controlar é melhor”, como ensina um ditado popular das terras daqui.

Merkel fazia bom uso de Obama para obter vento mais favorável para legitimação de suas medidas de mão de ferro na Zona da UE, da qual ela, há tempos, é a manda-chuva. Foram exatamente essas medidas estranguladoras, decretadas e implementadas pelo aparato burocrático de Bruxelas que colocaram a “Casa Europa” como a Torre de Pisa: Balança, mais não cai. O andar na carruagem na Grécia é um exemplo. A assencao do movimento “Podemos”, partido segmento, surgido da indignação das ruas da Espanha, da sociedade civil. O filme documentário “Política, manual de instrucciones” do diretor Fernando León de Aranoa que será exibido para mostra paralela “Panorama” da Berlinale mostra a indignação com as políticas de estrangulamento com o aparato central de Bruxelas.

A Casa caiu?

Aquela Europa que Adenauar, Mitterand e Kohl imaginaram, não existe mais e Merkel está “Sozinha em casa”. Por enquanto só sobrou o Primeiro-Ministro espanhol, o conservador Mariano Rajoy que veio de uma acirrada luta política na qual seu país que ficou mais de 6 meses, literalmente, sem governo porque as forças políticas não conseguiram se unir por algo maior.

O que sobrou…

Merkel tem tantos perrengues para resolver em casa, que a reação à entrevista de Trump foi uma obrigatoriedade midiático protocolar para que o carrossel midiático continue rodando como também para garantir a picuinha do “quem começou foi ela!” pudesse continuar. De conteúdo, o pronunciamento, vendido por grande parte da imprensa como “reação”, não mudou nada, já que não sabemos o que vem por aí.

O mundo todo está apavorado com a chegada da posse de Trump. “1984”, o romance de George Orwell é café pequeno!

Naquele janeiro de 2009, quando eu aqui em casa gritava “Yes! Yes! Yes!” e me emocionava em ver o primeiro negro, um democrata a ocupar a Casa Branca, nesta sexta-feira (20) eu me permitirei um raro, mas indispensável, momento de alienação política. Não irei assistir ao espetáculo patético.

Nas duas semanas que estive de férias em Lisboa e, na sequência, Barcelona, me permiti ficar quase totalmente offline experimentando um raro deleite de não ter que estar de sentinela porque o mundo pode acabar a qualquer momento. Nesses lugares a dialética regente é viver um dia de cada vez, sem a paúra constante que acomete vários lugares da Europa, especialmente a Alemanha.

A jornalista Sonia Mikitisch instigou e quem sabe a chanceler embarca nessa inusitada viagem: “Make Europe Great Again” (Faça a Europa grande outra vez), o que seria para a Alemanha, por motivos históricos, como andar de bicicleta sobre uma camada de gelo fino. Mikitisch, numa reação de teimosia já que Trump esculacha com a Europa, sugeriu: “Na Europa temos que adquirir uma nova estima e exibir nossa força de poder”.

Não é preciso de uma bola de cristal para saber que 2017 será o ano mais difícil da carreira da chanceler. Como os partidos de direita populista “invadindo” os parlamentos regionais e, segundo as pesquisas de intenção de votos, prestes a fazerem parte da Câmara Baixa, o Bundestag, depois das eleições de setembro próximo, a Alemanha terá uma mudança de pradigma em seu espectro político partidário.

2017 político já começou…

Em fevereiro haverá eleição presidencial e um socialdemocrata estará no Palácio Bellevue, algo que Merkel, já pensando na possível constelação depois das eleições federais de setembro, tentou evitar até o último momento. Os candidatos favorizados por ela tiveram “frio nos pés”, como ensina um ditado popular dessa terra gélida. De um jeito, ou de outro.

“Que os países do mundo preparem seus diplomatas para grandes negociações, grandes barganhas”, alerta a jornalista na frase final de sua análise que, ao contrário da esmagadora maioria da imprensa alemã foi recheada de cabeça fria, análise brilhante assim como uma indispensável dose de sarcasmo, mesmo porque, na Alemanha, não saia de casa sem ele.