O que acontece quando mulheres decidem meter a colher na politica?

O que acontece quando mulheres decidem meter a colher na politica?

Fátima Lacerda

30 Setembro 2018 | 17h02

©DPA

Politica e futebol são setores ainda dominados em massa pelo sexo masculino. Por isso, mulheres que decidem se atirar nesses setores precisam ter, como diz um ditado em alemão, “pele grossa” para que os ataques, as represálias, o assédio e a resistência em acreditar em seu potencial e competência, não sejam injeções de desânimo e descrença no próprio potencial.

O exemplo da chanceler alemã, Ângela Merkel, ratifica a minha tese. Ao se candidatar, ela teve que tolerar deboche sobre seus ternos, seu penteado. Chacota, ela também sofreu por ser do leste do pais, algo para ser tido como “alemães de segunda classe”. Como tantas outras mulheres, a menina nascida em Hamburgo e crescida no leste, foi subestimada. Ao contrario de outras mulheres que se recusam a abdicar da feminilidade percebida como um ponto de fraqueza num campo dominado por homens, Merkel não teve de abdicar de nada que tivesse antes e optou pela luta pelo poder sem o diferencial externo e de comportamento, de uma mulher. Decerto que ela foi aluna aplicada em aprender a usar as ferramentas usadas pelos homens no quesito procurar aliados para se manterem no poder, se livrarem dos inimigos e as aprimorou como ninguém, em “desovar” quem não anda na linha e quem, para ela, é (ou pode se tornar) uma ameaça.

A trajetória de Merkel mostra bem o que e necessário para uma mulher, não “somente” para se candidatar a um lugar que não foi pensado para ela que foi a primeira chanceler mulher da história da Alemanha. Exatamente o momento politico atual de Merkel mostra que ela, assim como os homens, não quer largar o osso. Pior do quemisso. Já passou do tempo em faze-lo com dignidade e comedimento para que a transição não seja abrupta. Seu pior inimigo, Horst Seehofer é um ministro de seu próprio gabinete e Merkel não tem Cojones para demitir aquele que cada semana cria uma crise de governo. A mais recente, quase levou a coligação ao fim.

A ex-presidente Dilma Rousseff teve no cargo um dos piores desempenhos da história do Brasil. Ao contrario de Merkel, sua chegada ao poder não teve nada de emancipatório, mas foi resultado da escolha de um homem que precisava dela para dar continuidade ao poder do partido. Independente ou não do desempenho, as ofensas que Dilma sofreu no final de seu governo, da forma odiosa e na intensidade que foi, ela sofreu por ser mulher.

Numa passeata em março de 2016 na Praia de Copacabana, na qual eu estava presente, em cima de um carro de auto-falante estava um carinha que atirava a massa a fazer um coro chamando a presidenta de “Vaca!”e gritos de ” Sai, vaca!”Fosse ela um homem, as ofensas seriam em forma, conteúdo e vocabulário bem outras para aquela, que igualmente como Merkel, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo em seu país e isso atiça a ira dos machistas de plantão e dos machistas vestidos de liberais.

Com a candidata da Rede, Marina Silva, não é diferente. Não é a sua proposta programática o foco da maioria da opinião pública, mas sua voz fina de Taquara rachada, seu penteado, sua magreza. O StandUp Comedy de São Paulo, em uma de suas performances (apesar de ter confessado simpatia por ela) declarou que, antes de mudar o Brasil, a Marina tinha que tomar um Toddy, deveria “almoçar” e ainda zoa que magrelas desse tipo quebram a perna quando pulam amarelinha. Video  “Debate dos Presidenciáveis” (Band) veiculado no You Tube em 12.08.18

Em bem outro nível, o multitalento Marcelo Adnet em sua serie de tutoriais ele, com sua brilhante capacidade de observação e amor pelos detalhes, conseguiu ressaltar a personalidade de Marina Silva, mas sem ridiculariza-la.

Quebra de tabus

De forma bem mais exacerbada e visceral desde o processo de Impeachment, o Brasil se dividiu entre coxinha e mortadela, entre aqueles que são “enviados” para Cuba, Venezuela. Entre Alexandre Frota e Tito Santa Cruz e aqueles que, vestindo a camisa da Seleção, juram um Brasil correto, sem corrupção com Salvador da Pátria chamado Sergio Moro. Esse abismo se aprofundou ainda mais e está culminado no preâmbulo das eleições de 07 de outubro próximo. A dicotomia entre os eleitores do PT e do candidato que carrega Messias no nome é o ápice do antagonismo e da divisão em que o Brasil se encontra. Verdadeiras disputas, brigas e xingamentos na Internet são o resultado do discurso de ódio de Jair Bolsonaro. O grupo de Whats APP da Família, tinha em maioria, adeptos do Bolsonaro. Enquanto outrora conversávamos sobre futebol e coisas de família, nos últimos tempos o grupo servira somente para uma plataforma em prol do Capitão de reserva do Exército. Depois de torturante semanas de muito equívoco histórico e politico, eu avisei que sairia do grupo e voltaria depois das eleições e a pergunta do meu Tio, foi:” Você é comunista?” A pergunta ficou sem resposta, simplesmente porque os seguidores do Messias não querem e nunca quiseram o diálogo. A pergunta é só uma falácia para dar continuidade a*polêmica.

Assim como o discurso nacionalista-racista pseudo-patriota do partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla) deu carta branca, aval moral para os radicais extremistas e neonazistas saírem a* caça de imigrantes (não somente na cidade leste de Chemnitz) fazendo “justiça” enquanto vai minguando o tabu da saudação hitleriana, que é crime prescrito no código penal alemão, o discurso glorificando a tortura e ratifica do com Postings, negando o holocausto, pleiteando a posse de armas e uma imagem retrógrada da mulher no ambito pessoal e profissional teve no Brasil, o mesmo efeito que na Alemanha: a quebra de tabus e a bagatelização deles. Sem motivo, mulheres são atacadas nas ruas do Brasil. Uma das organizadoras do grupo do Facebook “Mulheres contra Bolsonaro”, Maria foi pega de tocaia em frente a sua casa na Ilha do Governador, RJ. Levou coronhadas de três capangas. Fatos como esse de brutal violência contra a mulher  é só o inicio de uma retórica do ódio que chegou ao seu ápice. O ataque no momento em que o grupo já possuía a adesão de milhões, não vem por acaso.

 

Mulheres escrevendo história

Num solo contaminado de ódio, foi a campanha #Elenao#Elenunca que se tornou um movimento nas redes e nas ruas. No sabado29/09, mulheres de todos os cantos do Brasil e também de várias cidades no exterior, foram as ruas para dizer não ao machismo, a desigualdade dos salários exercendo o mesmo cargo e ao discurso de ódio promovido pelo candidato Jair Bolsonaro.

Na Alemanha, mulheres de Bonn, Frankfurt e Berlim foram as ruas com cartazes criativos, alfinetantes e de escárnio. Até Madona, a ícone da musica Pop se posicionou:” Chega de fascismo”. É um equívoco acreditar que esse assunto só diz respeito a quem está no Brasil. Não! As mulheres nas ruas, tomando espaço físico, esbanjando diversidade cultural e religiosa em frente ao Teatro Municipal na Cinelândia (RJ), tocando violino no protesto em Barcelona ou cantando um Berlim “Eu já falei, vou repetir. Nessa eleiçao Bolsonaro vai cair!”. Por motivo de viagem de férias, não pude estar em Berlim em presença física, o que me doeu muito. Nessa hora, independente da distância geográfica, se trata do meu país, da minha biografia e sobre a expressão em que mundo eu quero viver e em quais valores eu acredito.

Me enche de orgulho ver as maranhenses, as pernambucanas as curitibanas em pleno exercício da emancipação em sua melhor vertente: a consciência da necessidade e do livre arbítrio em dizer não!

Uma semana antes do primeiro turno das eleições, as mulheres pararam o Brasil. Estão fazendo história e, decerto, irão influenciar o resultado das eleições: elas que criaram seus filhos sozinhas, elas que foram expulsas de casa pela sua orientação sexual. Elas que deixaram o emprego seguro para viajar pelo mundo. As que corajosas que decidiram exercer a profissão de jornalista esportiva e narradora e comentaristas de jogos de futebol e sofrer assédio quando trabalhando em frente a câmera ao vivo e em cores, guerreiras teimosas e sem medo de ser feliz, mostrando que a melhor forma de combater a opressão é tomar o espaço físico de suas ruas, de suas cidades e procurar aliadas.

Repercussão na Alemanha

O principal noticiário alemão, o Tagesschau, veiculou materia sobre o protesto em seu portal:

https://www.tagesschau.de/ausland/brasilien-bolsonaro-103.html

 

 

 

 

 

*Como estou de viagem e o corretor ortográfico do meu Tablet não mostra a opção da crase, peço desculpas nas partes do texto em que ela esteja em falta.

 

Instagram:rioberlin2018