O que os muros destroem e uma dinâmica de catástrofes diárias

O que os muros destroem e uma dinâmica de catástrofes diárias

Fátima Lacerda

27 Janeiro 2017 | 12h46

Andacht 13-08-2013 22;05;51©Berthold Noeske

Pra quem achou que as polêmicas promessas de Donald T. durante o período de campanha eleitoral seriam esquecidas quando ele tomasse posse como o poderoso chefão, errou. Analistas políticos cometeram o erro de não levar a sério o “Bozo”, a “Tragédia Nacional”. Esse erro já aconteceu uma vez na história.

É muito fácil comparar ditadores e seus podres poderes. Quanto mais os dias passame  aumenta  o estado de choque em que o mundo se encontra pela rapidez de Donald em cumprir suas promessas, as similaridades com o maior ditador do século XX fez à tona com mais força. Na mídia isso ainda é discreto, mas nas redes sociais e nas conversas em âmbito de trabalho e em âmbito pessoal até mesmo num vagão de trem entre a pacata cidade de Hanover e Berlim. Na noite de domingo, 22, a tensão provocada por catástrofes diárias, era paupável. Os alemães, que não gozam da fama de ser o mais comunicativo, conversavam com pessoas estranhas. Trump, pra lá. Erdogan, pra cá até que alguém no corredor soltou um grito: “Nós estamos vivendo o final dos tempos!”.

Enquanto Hitler queria fazer a Alemanha grande e para isso ignorava as fronteiras de países vizinhos, Trump quer se separar do vizinho México através da construção de muro. O que pode ser mais segregatório do que um muro de concreto separando dois países? O playboy, adepto da pegada grab by the pussy é um analfabeto político e um ignorante para entender o impacto que muros causam na vida de pessoas e como eles abrem feridas imensas muito além de suas dimensões concretas.

Muito mais do que o caráter de concreto dos muros, ele separam, segregam, fazem os do “outro lado” se sentirem pessoas de segunda classe, toli sonhos, desmantela projetos de vida. Ele mingua esperanças.

Quantas vezes, vindo a parte oriental de Berlim ou simplesmente fazendo baldiação na estação ferroviária de trem que viaja por cima e de metrô em Friedrichstrasse, lugar que era o caldeirão urbano cultural da Berlim nos “Anos Dourados” e que durante a cidade dividida, passou a ter um semblante adormecido ou até mesmo paralisado, eu vi famílias aos prantos, se despedindo sem saber quando se veriam novamente. Essas famílias eram vítimas de um sistema criminoso, um apartheid ideológico segurado por uma polícia secreta que fazia, de todos os habitantes da Alemanha Oriental, refém, por natureza. O Muro de Berlim dividiu a cidade, o país e a Europa em dois instranponíveis antagonismos ideológicos. O muro havia sido construído para durar “uma eternidade”. Quanto tempo terá de vida o(s) muros de Donald T.?

Quantos anos Berlim precisou para superar a divisão que até hoje se exibe, as vezes de forma gritante e as vezes de forma silenciosa? Depois da queda do Muro de Berlim como consequência da “Revolução Pacífica” e, na noite de 07 de outubro e 09 de novembro 1989v uma penca de acasos que favorizaram o deslanchar da história, o ex-chanceler e ex-prefeito de Berlim, o social-democrata Willy Brandt, declarou: “Agora, precisam ser desmontados os muros nas cabeças das pessoas”.

O que Donald T. está fazendo, não é “só” dar porrada na mesa e mostrar quem é “o cara”. Nein! Servindo a sua clientela e seus mais fiéis aliados, o setor bancário e o setor automobilístico, ele quer sinalizar que latinos são pessoas tao pegajosas que é preciso se proteger delas. O resultado desse muro que está para ser construído, será a apologia do ódio, da discórdia social e do rótulo de classes sociais, de exclusão.

Do outro lado do Atlântico, o partido autodenominado “Alternativa para a Alemanha” foi no fundo do baú para buscar expressões usadas no período do nacional-socialismo de Hitler e tentar desconstruir o tabu em torno deles. A expressão “völkisch”, por exemplo, é uma das relíquias de tempos marrons que o AfD tenta “reintegrar” na linguagem diária ou como declara a chefe da legenda “dar a ela um significado positivo”.

Quem navegar no Ngram Viewer do Google poderá constatar que a expressão “völkisch” que é muito mais do que um simples adjetivo, teve uso explosivo durante os 12 anos do nacional-socialismo de Hitler. O historiador Uwe Puschner menciona essa expressão como usada por nacionalistas-antisemitas de direita na Alemanha.

Assim como Donald T. o AfD, agora mais do que nunca com vento favorável soprando de Washington, também intui na segregação, na diferenciação de quem é sangue puro, sangue alemão e definem assim, o ser alemão.

Em comparação com o cenário apocalíptico vindo de Washington, fatos como a posse de Sigmar Gabriel, atual vice-chanceler como também detentor da pasta do Ministério das Relações Exteriores, ele, que muda de opinião como muda de camisa. Aquele que até a noite de quinta-feira (26) foi Ministro da Economia e que antes de tomar posse no cargo havia prometido “radicalmente diminuir” a exportação de armas da Alemanha, duplicou o percentual de “negócios da China” em somente dois anos e não pestanejava em sentar na mesa com ditadores e déspotas, tudo pelo capital. Gabriel, teve que abdicar de sua ambição de ser chanceler por não ter percentual significativo para encarar a sua atual chefe, Angela Merkel. Gabriel deixa também a chefia do partido e, de quebra, vai brincar de Ministro das Relações Exteriores num dos momentos mais complexos e dramáticos da contemporaneidade. Logo agora que o mundo precisaria mais do que nunca de um brilhante diplomata como o também social-democrata Frank-Walter Steinmeier, assume, em fevereiro, depois da Assembleia Nacional Constituinte, o cargo de Presidente da República porque a chanceler Merkel nao encontrou candidato melhor e a tempo de formar uma base social robusta, para quem nao venha a acontecer como com seu último escolhido, o seu pupilo, o inexpressivo Chrisitian Wulff, que em 2010 precisou de 3 votações para ser eleito e protagonizou o maior mico da história da República Berlinense, num procedimento que durou mais 7 horas para ser finalizado.