Os populistas de direita, o racismo no futebol e o que significa ser negro na Alemanha

Fátima Lacerda

15 Junho 2016 | 12h53

Não são poucos os exemplos de pessoas da terceira idade que decidem por usar de forma digna e coerente seus dias de merecida aposentadoria. Fazer leitura de contos para crianças carentes, dar aula de para crianças de classe social baixa ou dar aula de informática em centros comunitários, são algumas das alternativas. A lista pode ser longa. Seja na Alemanha ou no Brasil. Mas deste e do outro lado do oceano tem também os da terceira idade que, recheados de amargura de objetivos não antes realizadosè, procuram de forma oportunista e sórdida, os holofotes alheios. Assim eu poderia delinear a história de um dos chefes do partido que se denomina uma “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla em alemão). O dito cujo não merece ter seu nome mencionado. Porém foi ele, que em entrevista a um jornal conservador, mandou a frase que ocuparia o país durante uma semana e quase se tornara um affair político entre os partidos estabelecidos e o AfD. :

O Boateng (se referindo ao jogador camisa 17 da seleção alemã) é um ótimo jogador, mas a maioria dos alemães não quer tê- lo como vizinho“.

Bastou isso para as redes sociais começaram a chicotear o senhorzinho populista de direita e que está super animado para adentrar o parlamento alemão em 2017 e finalmente sair do armário e vomitar todo o seu racismo pelos quatro cantos da República.

Depois de tudo no ventilador e de até um pronunciamento da chanceler Angela Merkel, classificando a declaração como “de baixo nível”, o dito cujo, convidado do programa político de auditório de maior audiência do país, e usando uma gravata repleta de cachorros, ele declarou: “Eu nem conheço esse jogador“, declarou um dos  líderes do grupo que vem tirando o fôlego dos partidos estabelecidos e, muito provavelmente, vai mudar a constelação partidária na câmara baixa, no Bundestag, depois das eleições federais em setembro de 2017.

O próprio jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung sentado também na roda exclusiva, teve que ouvir: “O Sr. me enganou direitinho!” Tentar desmentir ou dar uma justificativa esdrúxula para tiros no pé é estratégia useira e vezeira dos populistas de direita. Uma vez que a declaração está na mídia, a internet não esquece e a desmembra com dinâmica e intensidade próprias.

Pacote de chocolate e a “quebra de um tabu”.

A declaração daquele que já deveria estar curtindo o luxo da aposentadoria, mas que prioriza semear o ódio e instigar o apartheid social veio depois em que uma fração desse mesmo partido da parte do sul do país que se mostrou “irritada” com uma edição especial de uma marca de chocolate muito tradicional da Alemanha: O Kinderschokolade. Ao invés do garoto loiro, de olhos azuis e cabelos lisos, a edição em homenagem a Eurocopa 2016 traz fotos de antigos e atuais jogadores da seleção alemã da época quando eram crianças. Entre eles, Mehmet Scholl (ex-FC Bayern e hoje comentarista de futebol), Jerôme Boateng, nascido em Berlim, crescido no bairro de tradição proletária de Wedding, norte da cidade, filho de mãe alemã e pai ganês. Já neste momento pré-Eurocopa, a solidariedade com Boateng nas redes sociais foi imensa. A fração do sul da Alemanha do AfD, postou: “Isso é brincadeira ou está mesmo pra vender?” insinuando o caráter “pouco alemão” dos jogadores estampados no pacote do chocolate. Tudo indica que eles ainda percebem a questão da nacionalidade germânica tenho como principal determinante a questão de sangue, a mesma que regia na Alemanha na época mais escura de sua história, a do nacional-socialismo de Hitler. Porém esses membros do partido populista já demonstraram conexões diretas e até mesmo parcerias com a cena neonazista das cidades do leste como Leipzig, Dresden, Erfurt, Chemnitz, entre outras, não estão sozinhos. Uma pesquisa feita pela Universidade de Leipzig e divulgada na mídia na quarta-feira (15) atesta:

58,5% dos alemães afirmam que Sinti e Roma são chegados à criminalidade.

41,4% são da opinião que a imigração de muçulmanos na Alemanha deveria ser proibida.

40,1 dos alemães declaram que acham “nojento quando dois homossexuais de beijam em público.

Por um lado, especialmente depois do escândalo envolvendo o pacote do chocolate produzido pela Ferrero, uma multinacional italiana e a mesma produtora do Kinder Ovo e a declaração de que Boateng, como vizinho, é persona non grata, o apoio à seleção alemã se mostra vasto. As zoeiras que viralizaram na internet atestando Boateng “um ótimo vizinho”, vão de frases como: “Se ele viesse morar no meu bairro, eu até ajudaria na mudança“, um outro usuário do Twitter, constatou: “Se eu fosse vizinho do Boateng, as minhas sobrinhas e sobrinhos viram me visitar todos os fins de semana e eu seria o tio mais cool do mundo“. Mesmo com o caráter simpático das mensagens, o problema é intrínseco e bem mais arraigado na sociedade alemã, do que se possa parecer, visto tanta euforia pela seleção comandada por Joachim Löw.

Depois que Boateng, no final de um primeiro tempo sofrido no confronto entre a Alemanha e a Ucrânia fez o impossível com uma acrobacia fenomenal, jogando pra fora, com uma massa abdominal que nem o Mr. World poderia ter, a bola antes que ela tocasse na linha do gol, numa exatidão e astúcia instigantes ele se tornou “o cara” do momento, a menina dos olhos da seleção alemã. Claro que a internet não demorou em reagir. Até mesmo Joachim Löw, técnico da seleção e avesso a qualquer pronunciamento de âmbito político (seguindo rigorosamente a política de comunicação da Federação Alemã de Futebol) não se fez de rogado e declarou na coletiva de imprensa, depois do jogo: “É muito bom ter um vizinho como Boateng na defesa do time“. Essas e as declarações que viralizaram na internet são solícitas, mas escondem uma imaturidade, senão alfabetismo político muito perigoso não “só” nos tempos de AfD e de um renascer de forças populistas de direita por quase toda a Europa. Não. O perigo é tentar legitimar, no caso um afrodescendente Boateng, através do seu sucesso e reconhecimento e pela seu status financeiro. Claro que Boateng é um jogador fenomenal e que destruiu o sonho dos ucranianos pelo empate quando a torcida já começava a se erguer na arquibancada para comemorar o gol que parecia inevitável . Além disso, Jerôme Boateng é considerado, por unanimidade dos analistas esportivos, um dos melhores jogadores de defesa do mundo. Porém se a legitimação para que um afrodescendente, “pouco alemão” não seja ofendido, constrangido e até mesmo atacado sem motivo nenhum a não ser pela cor da sua pele e, como “agravante”, assim a percepção dos populistas, a sua origem “não germânica”, não de “sangue puro”, ele precisa fazer sucesso, precisa usar roupas e óculos de grife, precisa ter dinheiro para morar numa vila onde nenhum membro do partido AfD vai ter dinheiro para pagar, isso mostra um racismo que ninguém quer ver. O mesmo racismo intrínseco no discurso da mídia que tenta justificar a imigração de refugiados argumentando que a Alemanha precisa de jovens qualificados para compensar a baixa taxa de natalidade no pais e a consequência disso para o sistema de saúde e para a caixa de aposentadoria.

Boateng  precisou livrar a seleção alemã de cenário tenebroso de sair do campo levando somente 1 ponto e ainda tendo contabilizado um gol contra na primeira partida da seleção na Eurocopa para se legitimar perante a sociedade. Mas se nem com essa bola toda, Boateng, nem o futuro jogador do Manchester City, Ilka Gündogan, se livram desses constrangimentos, o que será então de um estrangeiro pobre e afrodescendente e que não fala a língua alemã ou fala de um jeito que o alemão vai corrigi-lo e, de novo, constrangí-lo e deixar bem claro que ele não é para estar ali, seja esse ali onde for?

O que acontece então com um vizinho, morando em bairro de classe média, mas que comete o pecado de não ter um nome “alemão”? Ele terá diversas manifestações de alemães com sobrenome Schmidt, Schuhmacher, Rosberg ou Graf,  que irão, teimosamente e com relativa eficiência ratificar que ele não pertence aquele lugar e muito menos é bem vindo ali.

Junto com outros correspondentes radicados em Berlim, eu fui convidada para fazer parte de um livro que será lançado em setembro próximo e se terá o título de “Tipicamente alemão”. Essa pauta será delineada aqui no contexto do lançamento. O mencionar agora tem a ver com o depoimento de uma correspondente da Colômbia, que eu li ontem, quando nos foi enviada a edição para aprovação. A colombiana disse: “Quando eu cheguei na estação e pedi informação sobre o próximo trem, a mulher começou a me corrigir e disse que o meu alemão era horrível e então eu pensei”, disse ela: “Ok, eu estou na Alemanha“. Esse exemplo com cara de anedota tem um fundo muito sério. Ser estrangeiro na Alemanha é um fardo, que acaba virando o teu companheiro, mas é um fardo.

Boateng não precisa de ser corrigido. Nasceu e cresceu em Berlim. Gündogan nasceu na cidade de Gelsenkirchen. Também não precisa de ajuda na gramática.

Ser negro na Alemanha

O caso envolvendo o jogador Jerôme Boateng é simbólico em vários aspectos. Além de cometer “o pecado de ser negro” ele ainda tem um nome estrangeiro, “estranho”, “esquisito”. Em seu favor ele tem o status social, o financeiro e o álibi de ser um jogador extremamente importante da seleção alemã de futebol. Mesmo assim, ele não escapa dos comentários xenofóbicos e racistas. E como de lógico o racismo não tem nada, os Hooligans alemães incendiaram o centro de Lille no domingo (12)  partindo com tudo para os torcedores ucranianos e exibindo cenas que deixam grandes dúvidas sobre a capacidade das autoridades francesas, da polícia e do serviço secreto em garantir o decorrer pacífico do torneio. Ratificando o caráter irracional da xenofobia é que “nem mesmo a pele negra de Boateng” impediu que os Hooligans fossem para Lille e “defendendo a nacionalidade sangue-puro” da Nationalelf, sair na paulada com os torcedores ucranianos, esses também que não ficaram nada atrás quando o assunto é racismo no futebol.

Quem não pode usufruir de “critérios de legitimação social”, corta um dobrado em terras germânicas. Sendo estrangeiro. Sim. Mas sendo negro, ainda muito pior quano ele não se pode legitimar através do guarda-roupas de grife, gozar de uma situação financeira privilegiada, já que na Alemanha, ex-parte ocidental, a inveja material é uma característica cultural já percebebível no jardim de infância. Se você tem uma situação financeira estável e confortável e não faz questão de esconder isso, tudo será mais fácil numa sociedade tão hermética como a Alemanha. Se fará vista grossa, mas ser, de fato, aceito como um membro da sociedade, atuante, ativo é muito difícil. Alguns de vocês dirão: “Ah, Berlim é uma cidade cosmopolita! Tem gente de todo o mundo!”. Tem sim, mas tem o racismo diário também, como em outras cidades da Alemannha, claro, com distintas intensidades de racismo e pre-conceito.

Abaixo e acima da Linha do Equador: o racismo tem diversas faces. Muitas delas pérfidas e Berlim não chega a ser uma exceção, mas sim, é um solo mais favorável do que em cidades como Memmingen, Frankfurt nas margens do Rio Oder ou Dresden, Chemnitz, Erfurt, Leipzig.

Que é estrangeiro já tem um abacaxi pra descascar. Existe o estrangeiro de várias classes dependendo da cor do passaporte e dos outros fatores já mencionados acima. Quem é estrangeiro e afrodescendente precisa também procurar niches para ser aceito e respeitado. Como estrangeiro isso é um exercício de vida. Não tem pausa. Não tem moleza. Alguns tentam uma legitimidade através de engagamento político, mas nao conseguem passar do status de serem tolerados, mas não necessariamente levados a sério, digo, de igual pra igual.  É um trabalho árduo, constante e no exemplo de Berlim não livre de equívocos resultantes de feridas do passado, seja no Brasil ou mesmo em Berlim e vaidades mal resolvidas na ânsia pelo reconhecimento.

Um único atenuante da luta contínua com suas diferenças de intensidade é quando se domina a língua alemã. Sei que na Itália, uma sociedade ainda mais hermética do que a alemã, a língua é o fator único de possibilidade de integração num país extremamente racista, essa não no sentido de se comunicar no dia-a-dia, mas no sentido de poder discutir de igual pra igual, com um nativo. Essa habilidade não muda tudo e não neutraliza as outras “diferenças”, mas é um bom caminho andado. Um exemplo recente e que poderia passar desapercebido, não fosse eu, tao arraigada nas terras daqui. Christian, um colega dinamarquês e correspondente radicado em Berlim, conversando comigo durante um jantar, comentou em tom galante e de elogio ao mesmo tempo de consternação, olhando firme nos meus olhos, disse: “O teu alemão é melhor do que o meu”. Eu, também galante, sorri afirmativo-gentil mas sem pronunciar sobre isso. A consternacao de Christian foi honesta ao mesmo tempo que mostra que ele (ainda) percebe como inusitado que o alemão de uma brasileira seja melhor do que o dele. Vale mencionar que na Dinamarca, a língua alemã faz parte do currículo ginasial. Assim como as opções de francês e espanhol.

Christian teve que revidar seus conceitos e o fez, de uma forma sincera além de ser uma pessoa imensamente culta e esclarecida, mas como diz um ditado alemao: “A gente nunca deixa de aprender e de descobrir”.

Na Alemanha, na Itália e também no Brasil, os conceitos e os preconceitos estão todos ai e devem ser desestruturados das formas mais variadas, num luta que é e sempre será, diária.