O trauma do 7 x 1: como brasileiros lidam com isso e a mentirinha oportunista de uma “Revanche”

Fátima Lacerda

20 Agosto 2016 | 16h49

AlexBellos

A imprensa esportiva brasileira está em alvoroço nesses dias. A maioria das pautas esportivas fazem a profecia da “Revanche”. Finalmente uma oportunidade em acertar as contas com a seleção alemã e tirar o rótulo de freguês dentro do próprio terreiro. Melhor estratégia de Marketing, impossível. A hora é essa para instigar aos torcedores saudosos de verem a seleção brasileira na trilha da vitória, poder curtir estar sendo o centro do mundo nos Jogos Olímpicos e, finalmente, depois de tanta amargura, poder fazer a festa em casa.

Nas redes os #Hashtags vão de vento em popa. Muitos portais já estão contando com a vitória e isso me lembra de cenas que mostram uma característica cultural brasileira que não poderia ser mais antagônica da alemã.

Naquele domingo de 1950, onde o Maracanã era o palco da Copa do Mundo, a primeira realizada no Brasil, já na manha daquele fatídico dia, o jornal O GLOBO já tinha como manchete uma foto da seleção brasileira com o título: “Essa é a seleção campeã do mundo”, assim explica em seu livro “Futebol”, o inglês Alex Bellos, durante anos foi correspondente da BBC no Brasil.

A mania de dar o jogo por ganho mesmo antes de entrar no campo é algo totalmente incogitável num país descrente como a Alemanha. Ver as jogadoras do futebol feminino da seleção brasileira tocando instrumentos e fazendo festa antes do jogo também é algo que causa estranhamento, para dizer ao mínimo, da perspectiva da Europa Central.

BUNDEsarchiv_herberger ©Bundesarchiv/Arquivo Federal

Sepp Herberger, ex-jogador e o treinador da seleção que se eternizou com o título apelidado “Milagre de Berna” em 1954 também será lembrado por uma das mais sábias frases futebolísticas: “O jogo dura 90 minutos” ou seja, comemorar antes, é a maior furada. Enquanto a bola rola no campo, tudo é possível.

Ao contrário do Brasil, na Alemanha não há crença religiosa e nem superstição, a não ser no âmbito futebol: “O Milagre de Berna” ou “Os 4 minutos do infinito”, atribuídos ao suspense da partida do Borussia Dortmund contra o FC Malaga (2013) valendo uma vaga na semifinal da Liga dos Campeões, são alguns dos exemplos.

A descoberta oportunista do Futebol Feminino

Enquanto a seleção de Neymar e da “geraçãoSelfie” começou muito mal na primeira fase dos Jogos Olímpicos, amargurando empates e especialmente doloroso contra o Iraque, as “meninas” arrancavam no torneio. Marta, já cinco vezes a melhor do mundo era o assunto do momento. Camisas originalmente com o nome de Neymar eram “atualizadas” para o nome de Marta. Até o ator Global Alexandre Nero, o inesquecível comendador da obra de Aguinaldo Silva, reclamou em seu instagram a falta da possibilidade de comprar uma camisa 10 da melhor jogadora de futebol do Brasil. Aqueles mesmos que nas redes sociais achincalhavam as “sapatonas” e zombavam da seleção, começaram a se tornar fãs. Como, frequentemente, dizia a Creuzette: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei“.

Que a seleção feminina de futebol sofre de falta de recursos e de funcionários com visão para conduzir a renovação da equipe. Em matéria veiculada no portal Agência Brasil, a meio-campista, Formiga, declarou: a evolução do futebol feminino tem sido lenta e não garante a renovação da seleção depois da aposentadoria de atletas importantes nos próximos anos. “Se a gente tiver esse trabalho de base, e se os clubes aceitarem o futebol feminino, a gente vai conseguir. Infelizmente, não vou ficar aqui pra sempre, e a Cris e a Marta também não”. Nem mesmo a conquista da medalha de prata em Atenas (2004) e em Pequim (2008) foram suficientes para instigar a vontade de fomentar o futebol feminino, do qual muitos comentadores da ala da vaidade masculina, juravam de pé junto que “nunca conseguiriam encher os estádios”. A estatística divulgada pelo Rio 2016, 70 mil pessoas assistiram dia 16, a partida no Maracanã.

SilviaNeid©Soeren Stache/DPA

As alemães, comandadas pela treinadora Silvia Neid, que deixa a seleção depois de ganhar o Ouro no Rio serão, juntamente toda a delegação alemã, serão recebidas na próxima terça-feira (23) pelo presidente da República, Joachim Gauck, na Villa Hammerschmidt, sua residência na cidade de Bonn à beira do Rio Reno.

A dinâmica

Depois da eliminação daquelas que a maioria da imprensa brasileira gosta de chamar de “meninas”, implicando uma ingenuidade que não cabe na, por vezes, sofrida trilha dessas jogadoras, dessas mulheres até chegarem a vestir a camisa da seleção.

Os cultos feitos às figuras, desculpe, aos “mitos” como Zlatan, Neymar, CR7 e o Pogba são de um outro patamar. Quando mais arrogante (Zlatan Ibrahimovi?), quanto mais mulherengo (CR7), quanto mais caro (Paul Labile Pogba) e quanto mais celebridade (Neymar) melhor funciona o mercado midiático resultando desses cultos exacerbados. Vemos aqui o torcedor sendo relegado à coadjuvante para ajudar as emissoras e os clube a angariar quantias astronômicas com a mercantilização das imagens e com a trasnmissao dos jogos.

Neymar está muito, muito longe de ser um mito. Nas redes sociais, tem até mesmo gente que chama o Gum, do Fluminense, de mito. O brasileiro é o povo dos exageros, do arrebentar a boca do balão e do bandeira pouca, é bobagem. Neymar, mesmo tendo entrado para a história por ter feito o gol mais rápido da história dos Jogos Olímpicos faz parte da “Geração Selfie” que combina muito bem com o exemplo mencionado no início do texto. Depois da vitória contra a Colômbia, o camisa 10 foi esticar a comemoração da casa de Nego do Borel, onde rolou um churrasco delícia, sem medo de ser feliz, como se fosse necessário da um pulinho no sábado no Maraca só pra pegar a medalha de ouro e claro, partir para mais um churrasco com a turma. Até a ex-de Neymar, Bruna Marquezine, outra também longe de ser uma atriz do talento que é atribuído a ela, voltou ao Brasil especialmente para o jogo e como Deus é brasileiro, nada mais pode dar errado. Nos postins enlouquecidos no preâmbulo do jogo, só se fala em “Revanche”, mas não se fala sobre a pressão psicológica que a partida traz para os jogadores, sobre não ter a mente livre para jogar sem o fantasma e sobre a preparação psicologia dos jogadores, que a CBF ainda continua a rotular como coisa de quem “não é cabra macho”, mantendo um erro que foi corrigido na seleção alemã de futebol na era Jürgen Klingsmann, quando assumiu o comando.

Foi e continua sendo a dialética de tampar o sol com a peneira, de empurrar os erros para debaixo do tapete e ir na onda do “Jornal Nacional” que o Brasil é o melhor do mundo, do tipo, porque Deus é brasileiro, é que tornou possível o drama daquele julho no Estádio do Mineirão.

A Nationalelf, a seleção alemã, vestia uma camisa vermelho e preta, o que já foi um aviso de que aquela noite não seria das melhores. Sofremos a maior humilhação em que se pode pensar. Em muitos anos, iremos nos perguntar: “Onde você estava quando as torres de NY foram atacadas?”, “Onde você estava quando morreu a Princesa Diana?” e “Onde você estava quando o desespero na face de David Luiz revelava de forma brutal a situação miserável do futebol brasileiro?” associada ao o automatismo de vestir a camisa, já que o técnico, totalmente isento de soberania e autoridade (também devido à pressão da mídia e do Galvão Bueno) escalava jogadores, a priori, não por questões técnicas nem táticas, mas para ficar livre da pressão. Foi a disciplina de Joachim Löw, desde 2006 técnico da Seleção Alemã que levou a Nationalelf à vitória no Brasil. Löw criou um time, uma equipe, uma Mannschaft e não uma turma de vaidosos que, pelo prêmio que ganham, só pensam mesmo é em conquistar a Liga dos Campeões, efeito resultante do marketing poderosíssimo dos clubes europeus, especialmente o Real Madrid, o FC Barcelona além dos times da Premiere League.

Em recente viagem ao Brasil, vi vários garotos vestidos com camisas de times espanhóis, alemães e italianos. Essa tendência não se concretizou na Alemanha. Se nas bandas daqui os garotos e jovens, ou vestem a camisa da seleção ou de um clube europeu. A geração mais velha prioriza seu clube, de sua cidade, mesmo que esse clube seja o Schalke 04, uma espécia de Vasco da Gama alemão: o eterno segundo e isso, na melhor das hipóteses.

Do lado de cá

Em conversa com analistas esportivos e torcedores não há aquele sentimento de massacre na partida do 7 x 1. Na realidade, esse tema só vem a baila muito raramente. O que porém frequentemente ouço é que os alemães tiveram pena do Brasil, não queriam que o placar fosse daquele jeito. O que restou foi a vitória e a alegria com ela. Recentemente, em sua conta de Twitter, o lateral-direito do FC Bayern, Phillip Lahm postou um comentário desejando sorte à equipe U23 no Rio: “Boa sorte pra vocês de nós que temos uma boa experiência no Rio” .

Nada será como antes

Se geração “Selfie” conseguir o Ouro será, com certeza, uma sensação de vitória para a torcida, a qual eu, desde julho de 2014, não mais pertenço. Desde então, a seleção brasileira do futebol masculino, morreu. Os jogos da mulheres guerreiras, eu assisti todos. Torci por todas elas. Pelas suas respectivas histórias de superação, de garra e de vestir a camisa num universo dominado por burocratas, muito mais do que o aspecto futebolístico, que teve muitas falhas técnicas, sim. Não há nem como e nem porque esconder isso ou empurrar para debaixo do tapete.

Achar que uma medalha de ouro no futebol irá zerar todo o desastre dos dois últimos anos (vide precoce eliminação da última edição da Copa América) seria mais do que tampar o sol com a peneira ou pensar tipo “bola pra frente” seria uma postura que faria demorar ainda mais a urgente renovação do futebol brasileiro e o foco midiático na da namorada do Marco Polo del Nero.

Os budistas dizem que quando você se encontra no caos, é preciso começar a varrer a casa. É disso que a a CBF inteira precisa. Aí sim, pode-se começar a varrer os escombros de uma administração incompetente, falha e, como declaram os órgãos responsáveis, corrupta.