Em novembro, Obama volta a Berlim para dizer Auf Wiedersehen

Fátima Lacerda

26 Outubro 2016 | 09h31

 Obama

A visita do presidente dos EUA no início do ano na Feira de Hanôver era para ser a sua despedida do continente europeu. No dia 25 de abril, Obama fez um discurso inflamado em prol da “Ideia Europa”. “Nós precisamos de uma Europa forte”, declarou endereçando a frase para Inglaterra, que já havia marcado o referendo para decidir sobre a permanência ou não na zona da UE.

Para Konrad Adenauer, o primeiro chanceler da Alemanha depois da II Guerra Mundial, Obama foi só elogios: “Gigantes como Adenauer arregaçaram as mangas e conseguiram, transformar inimigos em parceiros” e acrescentou: “Seu feito político é um dos maiores da contemporaneidade”, se referindo a babilônia que é a Europa com 500 milhões de europeus e 24 idiomas.

Desde a passagem de Obama em Hanôver muita coisa aconteceu. O Brexit se tornou realidade, seu carro-chefe, Mr. Johnson, é o Ministro das Relações Exteriores com a incumbência de administrar a massa falida junta com  a Premiê Theresa May já declarou que quer um procedimento digno.

Na Alemanha, a dinâmica insana continua de vento em popa. Desde abril, o percentual de popularidade de Angela Merkel, a batizada “Chanceler do Mundo” pela “Time” mais se assemelha a uma (com toda a ironia) roleta russa. Também o perrengue com o ditator da Rússia, Vladimir Putin que assim com Donald Trump tem sonhos terrivelmente semelhantes: “Make America Great again” é o slogan da campanha daquele que Robert de Niro chamou, entre outros, de “Bozo”. Assim como Putin, Trump de engraçado, não tem nada.Os dois são imprevisíveis!

Putin X Merkel: Tudo novo de novo

Na última quarta-feira (19) Putin esteve em Berlim para participar da convenção no “Formato Normandia”, formado pelos Chefes de Estado da Alemanha, França, Ucrânia e Rússia. Hospedado no Hotel Adlon, que não se deixa abalar por conflitos e diferenças políticas, postou na entrada do saguão uma bandeira da Rússia, outra da Europa e outra de Berlim. Todo a equipe de Putin também ficou no Hotel que fez um esquema de aeroporto, com detector de metais e apresentação de passaporte para adentrar o prestigio abrigo.

Pressionada pela situação bárbara e de dramaticidade humanitária ímpar, Merkel convidou Putin para participar do grupo. A situação da Ucrânia, que da perspectiva alemã ainda é irregular já que Merkel não engoliu (e nem pretende) aceitar a anexação da Crimeia acabou ficando em segundo plano. Putin, como o principal aliado de Assad é caminho inevitável para alcançar algum progresso na Síria. A prioridade número 1 era conseguir um cessar fogo para, pelo menos, que as crianças, idosos e pessoas doentes pudessem ser retiradas de Alepo.

O aperto de mão em tempos de Lei Seca 

Enquanto os encontros com Hollande e Obama tem beijinho nos dois lados do rosto, no tapete vermelho da chancelaria federal, o aperto de mão de Putin durou mais do que Merkel gostaria. Ficam as imagens nas câmeras de todo o mundo aquela atitude quando você quer tirar a mao do cumprimento e o adversário não deixa. Para o ditador russo, o convite a Berlim, depois de um jejum de 3 anos, simboliza o seu triunfo, como governante e, talvez ainda mais forte, o de âmbito pessoal.

Recordar é viver

Putin foi banido da cúpula do G8 que agora, sem a Rússia, se leva o nome de G7.

Com as sanções estipuladas pela UE em 2014 como represália à anexão da Crimeia pela Rússia, Bruxelas proibiu a entrada de Wladislaw Surkow, ex-vice do governo Putin, na Europa. Ele, na época declarou se “sentir honrado” com a proibição da UE.

Para ratificar que a vingança é um prato que se come frio (e nisso Putin exibe similaridades com Merkel) ele consegui “uma permissão especial” e trouxe para Berlim. No encontro no salão de banquetes da chancelaria, Surkow, sem medo de ser feliz, é fotografado ao lado de Putin. Do seu lado esquerdo está sentado o Ministro das Relações Exteriores, o socialdemocrata Frank-Walter Steinmeier ao qual só restou um sorriso amarelo para as câmeras. Humilhação em alto nível!

PutinmitNachbarCopyright: DPA

Cenários de Guerra Fria

O conflito na Síria está sendo travado nas costas da população civil devido à divergências entre os EUA e a Rússia num cenário nítido de Guerra Fria, como há muitos anos, não se via, incluindo o número de hackers que estão em ação para bloquear imensos servidores nos EUA e na Europa. Na última sexta-feira (21) só o Twitter ficou mais de 6 horas fora de área em muitos países da Europa. A candidata dos democratas, Hillary Clinton, não perde uma oportunidade em ressaltar o número de hackers da Rússia, tentando sabotar sua campanha rumo à Casa Branca, info que foi também confirmada pelo FBI que prometeu um “contra-ataque”, uma “resposta”. 

O exílio do Whistleblower Edward Snowden, que já amarga 3 anos de exílio em Moscou está sob a proteção de um ditador ao mesmo tempo que, através das redes sociais, teima em continuar a sua missa impossível. A Amnesty International, sucursal Alemanha em parceria com União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) e com a campanha “Pardon Snowden” criou uma petição, com texto em alemão, em prol daquele que é um herói do nosso tempo.

http://action.amnesty.de/l/ger/p/dia/action3/common/public/?action_KEY=10388

Snowden live!

Em Livestream no portal do jornal Süddeutsche Zeitung realizado na manhã de quarta-feira (26) horário local, em entrevista conduzida pelo jornalista Dan Gillmor e com a #Hashtag #EditorsLab, Snowden se expressou “desapontado” com a teimosa resistência do governo de Merkel em lhe conceder asilo político, “não por achar essa decisão errada, “mas por temer represália por parte dos EUA”, já que a aliança transatlântica é um ponto crucial na percepção de Merkel, parte da espinha dorsal de seu entendimento como política.

Agenda

Obama estará em Atenas dia 15 de Novembro. Entre os dias 16 e 18 o presidente estará em Berlim em consultações com os Chefes de Estado, além da Alemanha, da Itália, França e do Reino Unido. Depois ele segue para a A Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC) , no Peru.

As pautas 

A Guerra civil na Síria, a indefinição no conflito Rússia X Ucrânia como também a questão dos refugiados, além do über criticado Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês). A resistência de organizações ambientais, políticas e da área de agricultura é massissa contra o acordo.

Segundo fontes divulgadas ao longo de terça-feira (25) os berlinenses não terão “Obama Live” como naquele memorável julho de 2008, ainda como candidato ele discursou em frente ao monumento de 67 metros de altura, a “Coluna da Vitória” (Siegessäule). Como candidato, Merkel não o autorizou a discursar frente ao Portão de Brandemburgo. Isso só veio acontecer em 2013.

 Obama em Berlim: Ontem e hoje

Na época da primeira visita em Berlim, Obama representava o fim da Era do Clã dos Bushs e de uma política obsoleta, como também o fato histórico e a chance de, finalmente, ter um afro-descendente com o Chefe de Estado mais poderoso do mundo. Como presidente, Obama relativizou esse papel, exigindo mais parcerias, sempre alegando não poder “resolver todos os problemas sozinho”, postura que significou um deslocamento de paradigma da política externa dos EUA.

Ja´em sua visita no verão berlinense de 2013, a cidade se transformou num forte com um esquema policial de guerra e “nível de segurança número 1”, como diz o jargão, Obama já era presidente e o caso NSA acabara de estourar. Desta vez, discursando em frente ao Portão de Brandemburgo somente para convidados, Obama passou ao largo pelos berlineses numa visita tensa e que rendeu muitos protestos na cidade.

Desta vez, não se sabe se a surpreendente divulgação da vinda inesperada a Berlim, ainda mais depois da realização das eleições nos EUA, se Obama quer fechar o círculo aberto em 2008 ou se quer fazer uma última tentativa de apelo aos europeus para insistir numa Europa forte. Porém, de acordo com a situação na “Velha Europa”, como em 2003 denominada, pejorativamente, pelo ex-Ministro Donald Rumsfeld, a passagem de Obama pela capital é um gesto honrado como agradecimento a Merke, sua fiel aliada mesmo depois que descobriu que seu celular havia sido grampeado pelo FBl mas, provavelmente, aos berlinenses que foram peça-chave no seu tempo de candidato. Os encontros a 5 com os Chefes de Estado, terá, provavelmente,caráter cosmético, para não dizer que não honrou o Prêmio Nobel da Paz que lhe foi concedido, na época, como voto de confiança. Esperar mais do que isso, seria acreditar em Papai Noel.

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