O país dos rituais no período da Páscoa

Fátima Lacerda

25 de março de 2016 | 17h26

A Alemanha é um país, da qual uma das partes intrínsecas da cultura é cultivar e preservar rituais. Como depois do feriadão natalino é o feriadão da Páscoa o maior do país, o ritual não poderia faltar.

Antes do mega feriado que abrange a sexta-feira Santa, o domingo e, “de quebra” a Segunda-feira que também é feriado de Páscoa, inicia a grande compra de plantas de galhos longos, típicas do início da primavera calendário e propícias para nelas prender os ovos. Quem pensa que os ovos são aqueles empacotados num papel dourado ou colorido e depois irá fazer pilhas no lixo em algum lugar fora da visão periférica, se engana.

O pintar dos ovos

É um ritual que ainda persiste especialmente em famílias com crianças pequenas. Geralmente o chefe da família, essa que, se tratando de Berlim, pode ser de um formato patchwork e pode ter duas chefes de família, marca um dia para que, todos juntos, pintem os ovos. As tintas, os ovos, de preferencia de agricultura sustentável, são comprados anteriormente. Aí é só curtir a bagunça na mesa da cozinha ou da sala.

Ao contrário do ritual da nossa Páscoa em tempos de outrora, onde o ápice parar mim e para o Paulinho, meu irmão, era o domingo e a caça de ovos de Páscoa no jardim da casa da Vó Hercília e do Vô Miguel em Marechal Hermes, ocasião onde as meninas ficavam na desvantagem com tanta concorrência masculina, especialmente do meu primo Patrick, o ápice do domingo, na Alemanha, dependendo da região, é pendurar os ovos na árvore, que na realidade é uma planta, ou então, comprar ovos já pintados, usá-los como enfeite e pintar os que serão degustados no domingo e na segunda e Páscoa.

A tradição do bacalhau na sexta-feira Santa regente no Brasil não existe por esses solos gélidos daqui. Por vezes eu acho que o alemão só conhece o bacalhau do bolinho de bacalhau, a iguaria brasileira. O caríssimo peixe não tem, em solos alemães, nem um porcento da popularidade. A forma de fugir da carne vermelha em dia tão simbólico, é o bacalhau. Em Berlim, Cidade essencialmente Vegana, se evita comer carne (vermelha ou branca) o ano inteiro.

Ovos de chocolate

As delícias de chocolate são em esmagadora maioria , em forma de coelho. Tem o coelho branco, o coelho com chocolate e nozes, chocolate e amêndoas. A firma mais popular é a Milka ou a Lindt. Porém, notícias vinculadas na quinta-feira (24) divulgavam que a organização Foodwatch, testando vários Ovos de Páscoa, atestou os ovos da prestigiosa firma Lindt, estarem contaminados com óleo mineral MOSH, tido como causador de câncer e, em altas doses, pode causar lesão de órgãos. Além de Lindt, o laboratório do Foodwatch também encontrou contaminações nas marcas de prestígio Feodora e Niederegger e em marcas de redes baratas dos supermercados Lidl e Penny. Quem foi esperto, comprou os ovos da Milka.

Ritual dentro dos rituais

Como um país mór no quesito antecipação e planejamento, já no meio de fevereiro, enquanto ainda rolava a Berlinale, as prateleiras dos supermercados já estavam cobertas de coelhos e iguarias para a Páscoa. Os valores exorbitantes de Ovos de Páscoa como existem no Brasil são inimagináveis nas terras daqui. Fosse assim, o consumidor entraria num boicote nacional. Claro que no sábado antes da Páscoa os coelhinhos ficam mais baratos, mas é um percentual mínimo. Mesmo porque, no sábado, em cima da hora, vai ser difícil achar um coelhinho é infactível ter escolha entre vários produtos. O lance da antecipação da indústria é mesmo um cobertor de pobre. Quando acaba. Acaba. Não tem outras remessas e nem outros pedidos. Essa posição corporativa acaba exigindo atenção do consumidor para que ele não fique a ver navios.

Basílica de Berlim (Berliner Dom)

No domingo ou na segunda, a ida à igreja é uma tradição até mesmo na mundana e ateia Berlim. Mesmo ateus e pessoas que durante o ano não passam nem na porta de uma igreja, estão presentes na missa, até mesmo para um momento de paz e sossego ou mesmo para um concerto de orgão. O estar na igreja é mais do que uma prova de fé, mas um ritual, por vezes seguido pela família durante décadas e gerações e quem vai ousar quebrar isso?

Um discussão no período pré-páscoa foi se deveria ser proibido dançar na sexta-feira santa na cidade de Frankfurt. Uma proibição dessas também foi determinada para Berlim, mas que ninguém acatou. Os berlinenses, pela sua história, automaticamente questionam todo o tipo de autarquia, de ordens que partem “lá de cima”. Em cidades pequenas, será difícil encontrar uma discoteca aberta na sexta-feira, independente de proibição porque, igualmente ao Natal, a Páscoa é tradicionalmene uma festa de família. Em Berlim, regras como essa não tem nenhuma chance de serem acatadas. Cidade de solitários e desgarrados faz suas próprias leis acatando a premissa de demanda e oferta.E os solitários e desgarrados de Berlim não tem folga na sexta-feira Santa.

Berlim – Cidade fantasma

Além do Natal, o feriado da Páscoa é uma ótima chance para visitar a família para quem “é de fora”: de Colônia, Bonn, Hamburgo, Munique e até mesmo da cidade feira, Hanôver, a certamente, mais monótona do país. 

Já na quinta-feira (24) antes da Páscoa, a cidade parecia abandonada. Nem o carteiro deu as caras. Ficou tudo pra sábado e mesmo com um bocado de gente nos supermercados, o silêncio devido à disciplina dos alemães, é, senão inusitado (comparando com o Zona Sul ou com o Princesan na ZS do RJ), surpreendente.

Marchas da Páscoa/Ostermaersche

As marchas que são tradição em várias cidades durante o feriado da Páscoa, tem sua origem no movimento pacifista e antimilitarista na Inglaterra dos anos 50 e, na Alemanha, iniciou com adeptos contra armas nucleares na época da Guerra Fria, onde era importante ir às ruas, pedir pela paz, pelo desarmamento. Entre 1979 e 1982 a marcha atingiu o seu ápice protestando contra o uso da energia nuclear e contra a decisão dupla da OTAN em 1979. “Esta emanou de reflexões do Chanceler Helmut Schmidt sobre uma “zona cinzenta” que se estava a desenvolver na sequência do acordo bilateral entre americanos e soviéticos, negociado no quadro das Conversações para a Redução de Armas Estratégicas“. (Fonte: Nato.int.)

Hoje, no pós-moderno/pós-globalizado, a marcha possui menos adeptos do que de outrora, mas teima em ratificar como é importante pleitear pela paz, hoje, numa patamar bem diferente: a paz sem terrorismom entre as religioes e uma solidariedade e tolerância com os refugiados por uma sociedade onde de inclusão.

Para várias famílias que viveram o pós-guerra, a Marcha da Páscoa continua a tradição de gerações. Herbert, pai de Christian, um socialdemocrata bem das antigas e que já foi até prefeito em Kaltenweide, um distrito pertencente à região da Baixa Saxônia e, aparelhado de uma KOMBI, claro, da Volkswagen, foi itinerante e cabo eleitoral ferrenho pela região durante a campanha da eleições parlamentares para eleger Willy-Brandt chanceler, conta em reuniões de família que, para os socialdemocratas, as “Marchas da Páscoa” foram, durante décadas, tão importantes quanto as passeatas do Dia do Trabalhador, no primeiro de maio.

Outro ritual é o tradicional passeio à pé nos dias de Páscoa. Para isso é preciso ficar atento à previsão do tempo, já dias antes. Nada mais chato do que ficar dentro de casa curtindo as iguarias, dentre as quais, não pode faltar o “Pão de Passas” (Korithenbrot) ou o “Pão do Coelho” (Hasenbrot). Tem também a obrigatoriedade de comprar pequenos coelhinhos açucarados, um bem-vindo efeito visual para a mesa do café na manhã de domingo.

Na minha tradição não pode faltar o bolo de maçã com amêndoas raladas e passas ou Korinthen, um tipo mais seco e duro de passas, no domingo para o café da manhã. Não pode faltar também os coelhos de chocolate e nem a visita à basílica da Berlim, localizada à beira do Rio Spree (Rio que atravessa o centro da cidade) para a missa oficial da Páscoa.

O que não estava nos planos é que quando eu voltasse do calor senegalês carioca, Berlim ainda estivesse emergida no cinzento do inverno, dos cachecóis, das luvas e das botas. A primavera do calendário já iniciou, mas a árvore em frente a minha janela lateral do quarto de dormir ainda está nua como quando a deixei quando fui pro Brasil. Para essa época do ano, é um fator inusitado e também frustrante já que assim como goiabada com queijo, digo, Eisbein e chucrute, a Páscoa é sinônimo de primavera, de dias de sol.

Segundo a meteorologia, o domingo de Páscoa trará sol, o que torna factível o passeio a pé, como manda o ritual.

Um outro ritual não menos importante do que todos os outros acima mencionados, é o que o alemão chama de “Seele baumeln lassen”, que em tradução livre significa ficar de boa, sem a e insana luta contra o relógio e fazer aquilo que alegra a alma.

A seleção filmes, clássicos e ever greens,que são exibidos durante o feriadão convidam, de forma irresistível, para fazer o que chamamos de extrem-couching, fazer do sofá um bem-vindo recanto, arremata a lista de rituais.