Os Sem-Teto em Berlim e a crescente visibilidade no cenário urbano

Fátima Lacerda

31 Agosto 2018 | 10h36

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Cada vez mais fica visível o número dos Sem-Teto em Berlim. São estrangeiros que desembarcaram aqui há anos e não encontraram o caminho de volta, são alemães, poloneses e russos, do Caribe.

O sentimento que prevalece na biografia dessas pessoas é o da vergonha. Por isso, sua presença no cenário urbano era até pouco tempo silenciosa, quase invisível. O observador atento irá perceber nos gestos, nas situações que se repetem. Pessoas com grandes sacolas e carrinhos catando garrafas, latas e resto de comida.

A miséria existe desde sempre em Berlim, mas se exibe cada vez mais nas esquinas, debaixo das pontes, em parques. Fatores como colapso do setor imobiliário com a falta de moradia de um lado e a especulação imobiliária do outro que já vinha se delineando há anos devido à vista grossa do Senado de Berlim, o desdobramento da imigração de refugiados em 2015 (a Alemanha acolheu 1 milhão) e os desafios sociais que isso implica, transformou ainda de forma mais crassa o cenário social urbano de Berlim. Tudo isso somado à frieza de uma cidade grande e com alto grau de anonimidade como herança cultural. Entre dois lares em Berlim um deles é habitado por uma só pessoa.

A miséria na porta

Há duas semanas, na calçada na frente de um dos supermercados há duas quadras da minha casa, um homem acampou ali com todos os seus pertences restantes. Ele fala inglês. Ele dorme ali, come ali e faz contato com conterrâneos ou pessoas que sentam ao seu lado para conversar. Algumas colocam alimentos ao lado de seu colchão. Há poucos dias, ele “se mudou” para a calçada que fica de lado do supermercado, onde já não fica “exposto” na saída do mesmo. Fosse no Brasil os capangas dos donos de estabelecimentos, legitimados por crachás, já o teriam tirado dali a baixo de muito sopapo. Em Berlim a conivência e a tolerância se misturam como num mil-folhas. É difícil filtrar.

No centro politico de Berlim, entre a Estação Ferroviária Central e a Chancelaria Federal, onde fica o escritório de Angela Merkel é o lugar onde pode-se acompanhar com frequência, os Sem-Teto a caminho da Estação, onde a “Missão da Caritas” oferece refeição, possibilidade de tomar banho e também alguns minutos de interação social. Eles atravessam a praça do chafariz com uma rapidez no passo como se fossem pegar o último trem. Um desses mendigos, mas que não tem cara de tal, certa vez me pediu esmola uma vez enquanto eu aproveitava o chafariz para dar uma lavada na minha bicicleta. Ele elogiou a minha capacidade de sorrir. Quando semanas depois cruzou comigo por uma segunda vez no mesmo lugar e na mesma situação, mostrando boa memória, me reconheceu e seguiu adiante e com passos firmes e ligeiros, sem dizer uma palavra. No primeiro contato, ele me disse que é da região da Baviera (sul do país). A outra mulher que, ao anoitecer sempre está sentada no banco, que mais tarde será seu lugar de pernoite tem um olhar triste e vazio. As mulheres, especialmente acima dos cinquenta anos, são especialmente atingidas pela dureza social e queda ao último degrao do Estado Social.

Quando volto de um dos lagos onde costumo nadar no final da tarde, no bairro de Moabit, perto da penitenciária JVA Moabit e de uma igreja de trabalho comunitário, sempre vejo um sem-teto sempre sentado debaixo da árvore no parque, com seus óculos escuros. Ele, que parece ser uma figura conhecida no bairro ao mesmo tempo que um dos poucos exemplos de visibilidade, é magrelo e está quase sempre acompanhado de alguém que o conhece da vizinhança. Com a diferença que esses, depois do fim do passeio com o cachorro, terão para onde ir.

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Dinheiro no lixo

Quando você ver alguém olhando dentro do lixo, é porque essa pessoa está a procura de garrafas de vidro, latas de cerveja ou garrafas de plástico de refrigerante. Aquela medida que foi tomada por iniciativa dos partido Verde para instigar o consumidor para mais responsabilidade na hora de produzir lixo, se tornou não somente uma bem-vinda opção em obter um trocado de volta pela taxa paga no momento da compra. Essa prática se tornou indispensável para os Sem-Teto. Ela é a garantia de, pelo menos, um sanduíche por dia, de uma cerveja ou de uma carteira de cigarro.

Esse cenário inadmissível na capital da República que e a economia mais robusta da União Europeia tem vários motivos. A falta de infraestrutura para resgatar essas almas perdidas, essas biografias rasgadas, mas também a própria vontade delas em viver “fora do sistema” incluindo o controle das instituições de apoio como também um senso de responsabilidade. Os sociólogos dizem: quanto mais tempo uma pessoa vive na ruas, mas difícil e trazê-la de volta. Olaf, um sem-teto que sempre pegava as sessões de cinema exibidas no pátio do Kulturforum e quem eu conheci ao tentar, sem sucesso, achar onde havia estacionado a minha bicicleta, me confessou que não tem vontade de “voltar”, de se “adaptar a regras e ao controle” das instituições de caridade. Ele ganhava uns trocados, levando turistas das estações de trem aos seus hotéis e ficava irado quando a gorjeta não era robusta. Entre as regras contra as quais ele se posicionava, estão a hora de sair, de chegar e ter que avisar onde vai.

Estatísticas

Em maio de 2016, o então senador Mario Czaja contabilizava 17.000 sem –teto em Berlim, 7000 a mais do que no ano de 2014.Berlim, cidade tem o maior numero de sem-teto de toda a Alemanha. O atual governo da Cidade-Estado Berlim, formado por uma coligação entre os social-democratas (SPD), os Verdes e o partido esquerdista Die Linke almeja o audacioso projeto de mapear a lista de sem-teto na capital. Esse modelo já e realidade na região da Renânia do Norte –Vestfalia (NRW).

Os sem-teto em Berlim são produtos de vários âmbitos, vários setores. Enquanto em Paris, eles priorizam estar em grupos, muitos deles acampados debaixo de estações de metro como na Barbès-Rochechouart, distrito 18, os berlinenses são bem mais solitários, tentam se tornar invisíveis movidos por um grande sentimento de vergonha e de fracasso.

Mesmo quandomvoce não pode ver a cara do síndico e nem mesmo daquela vizinha de porta que esfrega na tua cara, todos os dias, como relacionamentos podem ser vampirísticos e estéreis tem dias que você quer dar uma banana para o mundo, entrar em casa, seu lugar de proteção e refúgio e fechar a porta e não deixar nem mesmo o George Clooney entrar. Pessoas sem teto não tem a chance de um mínimo de esfera privada. O homem em frente ao supermercado deitado no colchão coberto de um lençol abraçado no travesseiro, em sono profundo, foi uma das imagens mais dilacerantes que eu vi nos últimos tempos.

Na noite de quinta-feira (30) com a primeira chuva depois de semanas de ausência, ele se encolhia debaixo do teto do supermercado, porém sem conseguir evitar o molhar do colchão.