Os Verdes, o pragmatismo político e um ambicioso plano para voltar a fazer parte do governo

Fátima Lacerda

02 Junho 2016 | 06h55

O ex-chanceler socialdemocrata Gerhard Schröder (1998-2005) declarou, certa vez, que “governar é legal, da prazer”. Os Verdes, que na época formaram com os socialdemocratas uma coalizão, estão fartos de ocupar a bancada da oposição na Câmara Baixa do Parlamento. Por isso, o chefe dos Verdes, Cem Özdemir, nascido numa cidade vizinha à Stuttgart e de antecedentes turcos, aproveitando o vento favorável, agora quer pagar pra ver com um plano bem ambicioso.

A miséria dos socialdemocratas

É como se estivesse “amarrado”. Por mais que medidas de importante valor social que tenham sido implementadas por iniciativa dos socialdemocratas, que na décima oitava legislatura formam uma coalizão com o CDU, partido de Merkel, eles não conseguem subir em percentual na intenção de votos. Estão desabando nas pesquisas. Falando em números, as estatísticas dos últimos meses vem mostrando os socialdemocratas na margem de 20%, o que exibe uma ameaça de não conseguir o percentual necessário para dar continuidade à coligação com Merkel, o que não seria uma tragédia, já que os 3 partidos da União (CDU, CSU da Baviera e o SPD) vivem em constantes desavenças típicas de um casamento por interesse, o que de fato é a atual coalizão. Todos os integrantes tem ciência disso. 

Uma questão matemática

As picuinhas na coalizão ainda vão de vento em popa e os partidos já começam a cogitar as constelações possíveis para fazer parte do próximo governo. O partido Verde que tem uma chamada dupla-chefia que tem sempre que ser composta na dobradinha, um homem e uma mulher. Cem Özdemir é da corrente denominada Realos, aquela que segue a premissa de política com o foco pragmático. A outra metade representa o “corredor esquerdista”, que faz política motivado e pelo aspecto ideológico. O estatuto do partido prescreve exatamente a dualidade na chefia para que todos os membros se sintam representados.Já perdi a conta em quantas convenções do partido eu já estive em presença física. Em âmbito regional e federal, TODOS sabem que Özdemir foca na dobradinha com o CDU e uma parte do partido, o odeia por isso. Porém, na coletiva á imprensa da última sexta-feira (27) , o chefe do partido preferiu nao dar nomens aos bois: “Eu nunca falei claramente que queremos governar com o CDU”.

Com a situação miserável dos socialdemocratas e bem provável possibilidade do partido populista de direita, “Alternativa para a Alemanha” superar os 5% necessários (as estimativas do momento são de 15% de intenção de votos) para fazer parte do parlamento, a aritmética partidária na Alemanha mudará consideravelmente. Não tendo mais os socialdemocratas como possíveis parceiros, Merkel terá que, mais uma vez, mostrar seu pragmatismo, esse que é bem similar ao do chefe dos Verdes.

Em recente coletiva à correspondentes estrangeiros radicados na capital, Cem Özdemir não deixou nenhuma dúvida estar de olho no cargo de Ministro das Relações Exteriores.

Com frases de impacto misturando alemão e inglês, alemão e francês além dos tópicos tematizados como por exemplo as sanções da UE contra a Rússia, a guerra civil na Síria e a resolução que será votada nesta quinta-feira (02) na Câmera Baixa do Parlamento Alemão, o Bundestag, ele não deixou dúvidas de que a hora é agora. Özdemir é casado, desde 2003, com a jornalista argentina Pía María Castro. A combinacao Turquia-Alemanha-Argentina é, com certeza, um aspecto favorável nos planos de Özdemir.

O requerimento, assinado pelas bancadas da União e dos Verdes divulga: “Lembrança ao genocídio contra os armênios e outras minorias cristãs nos anos 1915 e 1916”. O requerimento que vem ocupando a mídia e aumentando ainda mais as divergências entre a Alemanha e a Turquia é de autoria de Cem Özdemir, que vem sendo severamente criticado e xingado de “traidor” pela imprensa turca. Até conseguir ser aprovado pelas diversas bancadas, o requerimento causou muitas divergências internas entre as bancadas dos partido. Uma das brigas foi sobre qual seria “o melhor momento” para apresentar o requerimento resultante de mais de um ano de preparação. O que faz do caso ainda mais complicado é que o Império Alemão (Deutsches Reich), maior parceiro militar do Império Otomano, é também responsável pelo genocídio. Um dos mais polêmicos itens do requerimento é que no final desta quinta-feira 02) sairá do parlamento com o nome de “Resolução” o “governo alemão não hesite em encorajar o governo turco a refletir sobre o genocídio e preparar um terreno de conciliação com o povo armemo”.

O debate que dura mais de 5 horas e não menos acalorado vem numa época propícia para Özdemir ratificar seu perfil de competência em assuntos de política externa. A curto prazo a resolução será mais estopim no clime de acusações recíprocas entre a Alemanha e a Turquia. A longo prazo, a ratificação para Merkel de que a única possível constelação do próximo governo seja a coalizão com os Verdes, sapo que o „corredor esquerdista“ do partido terá que engolir em formato de permuta para voltar a fazer parte do governo.

Depois do acidente nuclear de Fukushima (2011), Merkel roubou dos Verdes a sua maior pilastra temática: o meio ambiente e o fim do uso da energia atômica. A nova orientação do partido em direção ao centro pragmático é a única maneira de se colocar numa posição adequada para tornar factível a aproximação com o CDU de Merkel, o que seria, de novo, um casamento por conveniências. A dinâmica insana dos acontecimentos vão tornando, em vários países da UE, o exercício da política como um empresariado de crises: operativo, rápido e cada vez menos de cunho ideológico.