Palácio Presidencial em Berlim: “Festa dos Cidadãos” com presença brasileira

Palácio Presidencial em Berlim: “Festa dos Cidadãos” com presença brasileira

Fátima Lacerda

10 Setembro 2018 | 22h11

Bellevue, o Palácio Presidencial em Berlim foi construído em 1786 em estilo neoclassicista e foi usado muito tempo como a residência do Presidente sempre que ele estava de passagem por Berlim, numa época quando a capital era Bonn, cidade à beira do Rio Reno.

©Divulgação

A ideia de homenagear cidadãos pelo seu engajamento no trabalho voluntário é bem antiga. No primeiro fim de semana de setembro acontece, tradicionalmente, a festa. Na sexta-feira, são aproximadamente 4000 convidados de todas as partes da Alemanha. No preâmbulo do evento meticulosamente preparado, prefeituras, distritos e comunidades fazem a lista de candidatos e o Gabinete da Presidência escolhe os projetos a serem condecorados. O convite para ir para Berlim já é a premiação. Na sexta-feira os convidados tem um vasto programa musical, estandes com culinária variada e a possibilidade de conhecer pessoas, biografias e porque elas decidiram pelo trabalho voluntário.

O protocolo

No final da tarde, o presidente sai para o jardim do palácio e sobe no palco para o tradicional discurso. Durante esse período, não pode haver distribuição de bebidas nos estandes. O social-democrata Frank-Walter Steinmeier, ex-Ministro das Relações Exteriores, só está nesse cargo porque na época, ninguém queria a batata quente, quando o seu antecessor, Joachim Gauck, anunciou não querer se recandidatar. O partido de Merkel, o CDU, não concordava com os Liberais Livres (FDP), o tempo foi passando e Merkel teve que aceitar a sugestão do partido social-democrata (SPD), que sonhava com uma “virada” política, iniciada com um membro seu no Palácio Presidencial, o que não aconteceu. 

Steinmeier e sua esposa, a juizá, atualmente afastada do cargo, Elke Büdenbender subiram ao palco. Ela, num vestido cor de mostarda já como Trendstetter para a moda de outono, de mangas longas e cumprimento no joelho exibiu um dos melhores guarda-roupas da noite. O protocolo prevê que, durante o discurso, a esposa deve ficar meio metro atrás do marido, algo muito obsoleto para o século XXI, a primeira-dama fez o protocolo com elegância e muito charme, o que nao neutraliza o obsoleto. 

O cunho do discurso de Steinmeier, com o habitual irritante timbre de voz,  forçando a barra como um professor dando bronca no aluno para estudar mais com o volume alto demais e quase impertinente, falava da necessidade do trabalho voluntário e agradecia aos convidados pelo engajamento e martelava em argumentos como se o teor enfático os tornassem verdade. 

Sobre o perrengue político no país, o presidente não poderia fazer completa vista grossa e por isso mencionou o cenário de Guerra Civil  visto por todo o mundo na cidade de Chemnitz, região da Saxônia, leste do país poucos dias antes. Devido à morte de um alemão, os fascistoides de plantão tiveram seu adubo, sua legitimação para saírem às ruas e fazer verdadeira caça á imigrantes e à pessoas “com aparência pouco alemã”. Steinmeir contou que viajou por muitas cidades no seu primeiro ano no cargo e ratificou a criatividade e diversidade das regiões: “Eu e minha esposa vimos muitos problemas, mas também muita ajuda”.

O acaso

Desde 2011 acompanho a festa anual. Em 2017, entretanto, a data bateu com o show da estreia dos Rolling Stones na Europa, show que aconteceu em Hamburgo. No meu primeiro ano com Steinmeier como anfitrião, pude constatar o formato de ter dois parceiros temáticos. Neste ano o parceiro “local” foi a região da Saxônia, exatamente a região que mais toma o noticiário atualmente, pelo número de adeptos da extrema-direita e da cena de neonazistas e justiceiros que já jogaram fora a opção do Estado de Direito e foi esse o apelo de Steinmeier aos presentes. O Ministro Presidente, Michael Kretschmer, mais um pau-mandado de Merkel na região, fez tudo o de errado que poderia ser feito durante aqueles dias de um tsunami político e sua conferida no evento não modificou em nada os arranhos que sua imagem sofreu.

A dinâmica do fatos atropelou o planejamento anterior do palácio e Kretschmar teve, como prescreve um ditado popular daqui, “fazer cara boa para um jogo sujo”. Em visível protocolo ele, ao invés de ir conversar com voluntários estrangeiros ou refugiados, imbuindo em associações para autoajuda ou para ajudar pessoas na mesma situação, o ministro marcou presença no estande do “Stollen”, um bolo com frutas cristalizadas, uma especialidade natalina fabricada em Dresden e famosa no mundo todo.

Presidente conversa com mebros da ONG “Back to the Track”.

Kretschmar ficou batendo papo com o chefe da confeitaria, mas não sem deixar sua assessoria fazer uma Selfie, a ser veiculado na sequência, em sua conta de Twitter. Logo depois, ele deu uma passadinha no estande da água mineral Lichtenauer, que havia colocado em vários lugares, mini-mesas para Ping Pong. Se deixar levar por tal teor pueril, não fez nada bem à imagem de um governante, visivelmente, sobrecarregado com o cargo que ocupa.

Bella Itália

O parceiro internacional foi a Itália, algo que se constatava rápido na oferta culinária espalhada pelo lindo jardim do palácio. A produção não poupou em esforços em climar o clima italiano. Num lago minúsculo na parte leste do jardim, foi colocada imensa Gondola, incluindo Gondoleiro de camisa listrada e chapéu de palha. Só faltou ele cantarolar cancões antigas e melancólicas, mas ai já seria veracidade demais. Às vezes é melhor a fantasia decorada do que a realidade.

A Big-Band da Saxônia apresentou um repertório de ritmos caribenhos e, para a minha surpresa, com muito suingue. Só o trenzinho feito pelos músicos que beirou o ridículo, mas nessas horas de confraternização a gente deixa o senso crítico descansar e procura ir na onda da alegria.

O ápice da programação musical foi a Rainha do Rock e Pop italianos. Ninguém menos do que Gianna Naninni. Com tudo em cima apesar de seus 64 anos, ela mostrou que sua voz nada mudou. Vestindo uma jaqueta de couro com cor de vermelho diabo, ela animou um clima de politicamente correto, mas também muito quietinho. Em show de uma hora e meia, sucessos e Evergreens como “„Amore Gigante“, „Fenomenale“ e „Bello e Impossibile“ não poderiam faltar.

A última pedida musical foi a Big-Band do Exército Alemão, uma ideia do ex-chanceler Helmut Schmidt em 1974, ano em que a Alemanha conquistou, em casa, a Copa do Mundo de futebol. Com um repertório bem deprê já no fim da noite, o cantor hora pedia para que saudassem a sua esposa, mais lá pra frente, ao anunciar uma música “para aqueles que nos deixaram”, informou que sua mãe já estaria no céu. Os alemães tem mesmo um pé na retórica do copo vazio. Até mesmo em dia de festa e celebração e já no final da noite, quando o clima era para estar no ápice do regojizo da noite de clima e temperatura para berlinense nenhum botar defeito. 

No final da noite, sempre foi tradição a aguardadíssima queima de fogos. Porém o Corpo de Bombeiros pediu para que a produção abdicasse disso, devido à seca que vem maltratando Berlim que há mais de 6 semanas permanece sem chuva. Ao invés disso, um show de luz na fachada do palácio era um certo consolo. O jogo de laser, na sequência, especialmente desenhado por uma agência de Berlim, foi um fracasso de público.

Compaixão

Durante essa festa e depois da parte oficial do discurso de abertura, sempre vou caminhar pelo jardim. Entre uma beliscada e outra, sento numa mesa e puxo conversa com pessoas que, geralmente vem de fora. Quero saber sobre suas atividades, sobre suas experiências, suas histórias.

O balanço desse ano resultante das conversas, foi bem rico. Encontrei uma senhora da cidade de Kiel, costa norte do país, que trabalha com mulheres que possuem uma rara doença na espinha. Outrora vítima da própria doença, ela se emancipou e decidiu ajudar outras mulheres. Na Alemanha também existe superação.

Outro exemplo foi um casal de St. Peterburgo, radicado em Berlim e super bem humorado. Quando o marido foi pegar um Kebap para a esposa no estande turco, eu puxei assunto com ela e perguntei se era turca. “Euuuuu? Naoooo!”. “De onde, então, perguntei”. “São Petersburgo”, revelou com forte sotaque da língua russa. Seu Blazer rosa choque  o apetite pelo Kebap, o humor dela e do marido fizeram a conversa muito descontraída. “Fazemos trabalho de casa para crianças estrangeiras“, e revelou que faz isso “em Berlim mesmo”.

O terceiro exemplo foram duas mulheres da cidade de Dortmund, a mesma que abriga o meu time de coração. Quando soube do “pequeno detalhe” fiquei super animada, mas tive logo um balde de água fria jogado em mim: “Não me interesso por futebol”. Ok. Vamos em frente, pensei. Regina trabalha com o “animadora” para idosos que sofrem de dores crônicas. Ela faz exercícios com eles para melhorar a postura da nuca, da coluna, conta piada, conversa, leva empatia para quem já não tem mais ninguém. “Ninguém esquece meu nome!“, diz ela. “Gottschalk”, nome também do mais conhecido Silvio Santos alemão e que se chama Thomas Gottschalk.

Regina conta que da doença, tirou a motivação para ajudar outras pessoas e que, na realidade, elas lhe “trouxeram de volta para vida”. O time da voz, antes resoluto e teimoso, soa como uma canção melancólica. Sua ex-cliente e hoje amiga, como Regina mesmo quis enfatizar, é Renate Will. Também ela tem um sobrenome de um expoente midiático, a jornalista Anne Will, uma Marília Gabriela da TV alemã.

Ao lado da mesa está estacionado um carrinho que ajuda Renate se locomover. Ela tem um olhar mais sofrido, demorou um bocado para participar ativamente da conversa até que ela mandou: “Pegamos o ônibus na direção errada e foi ótimo. Conhecemos um monte de coisas!”. Perguntei se precisavam de dicas para conhecer a capital. O que eu sugeri não as impressionou nenhum pouco. Chegava a hora de andar para outras bandas. Renate e Regine para outras mesas e eu, para assistir o show da Gianna Nannini. Isso pra mim, foi Première. Nunca tinha visto rainha do Pop e da canção italiana.

A Alemanha não se encontra num estágio tão trágico quanto o Brasil, mas existe sim, uma semelhança. A vertiginosa ascensão e o desfazer do tabu do exercíco diário ódio é um fenômeno nos dois países. Entretanto, representantes do Brasil, como convidado pelo Ministério das Relações Exteriores através da coordenadora Elisabeth A. Müller” (centro), estiveram presentes com dois projetos que ratificam a necessidade da cidadania. Um deles, é de Recife e já de muito prestígio: A “Orquestra Cidade Criança” que até já tocou para o Papa Francisco. Rapidamente antes de voltar para o hotel com o restante do grupo, João Targino, que além de idealizador e coordenador geral do projeto cultural de peso, ainda é juiz em tempo integral, me falou cheio de empolgação originalmente pernambucana sobre o projeto.

O outro representante brasileiro foi o carioca Murillo Sabino, cofundador do “Projeto Ruas”, que foi iniciado em 2014 no modelo de uma Start-Up e com muitos voluntários, auxilia a população em situação de rua.

A internet e o cenário político árido cementaram o terreno para a ideologia marrom, para a “caca” de quem é “diferente”. Por isso que a “Festa dos Cidadãos” é uma válvula de escape, um momento que seja para se lembrar como é bom exercitar a cidadania através de instrumentos como solidariedade e compaixão pelo outro. Se lembrar com é se colocar no lugar do outro e viver num país de cidadania, que teima em festejar isso, pelo menos, uma vez por ano.