Parlamento alemão terá sessão para discutir atual situação política do Brasil

Fátima Lacerda

13 Outubro 2016 | 10h25

 DilmaReuters Copyright: Reuters

Desde o início do procedimento para suspensão da presidenta Dilma Rousseff e o capítulo final que a retirou do cargo, o governo alemão optou por não se posicionar e o faz até o momento.

Exceto um telegrama do Ministério das Relações Exteriores de “parabéns” ao colega José Serra por ter sido nomeado para o cargo. Assim respondeu, em off, a minha pergunta o ministro socialdemocrata Frank-Walter Steinmeier, em junho passado, depois do fim de coletiva para correspondentes radicados em Berlim.

Não faltam fóruns de pessoas mais e menos capacitadas, discutindo sobre a crise política pela qual passa o Brasil. Há algumas semanas atrás foi reportado, em detalhe aqui no Blog, a falta de organização temática & Co do encontro de parlamentares alemães em Berlim organizado pela Associação Brasil-Alemanha (DBG, na sigla), onde parlamentares de todas as 5 bancadas eram só regozijo sobre “como é intensa a cultura alemã no sul do Brasil”. No texto disponível no site do parlamento, sem medo de ser feliz e issentos de quaisquer senso de realidade, eles anunciam que foram “recebidos com banda e pessoas vestidas a caráter”. Tudo isso com o dinheiro do contribuinte.

Muitos Brasis

Nas palestras e fóruns sobre a situação pela qual passa o Brasil existem muitos equívocos, muita gente despreparada e que convoca, via Facebook para conversas e palestras e por ser brasileira, brasileiro acha que tem legitimidade para contar para os alemães como funcionam as coisas no Brasil, mas sempre num discurso ideológico-absoluto e de mão única.

É natural brasucas que ali vão para, dividir as perguntas, os questinamentos; tentar entender um pouco da avalanche que iniciou no início do ano e que passou por vários estágios, alguns deles mais dramáticos.

Talvez o único denominador em Berlim no meio de um labirinto político seja o estado de consternação e, para quem é imigrante, é acometido de uma angustiante impotência de ver as coisas acontecendo pelas telas de TV e de redes sociais.

Antes tarde do que nunca

Devido à um requerimento da bancada do partido esquerdista Die Linke, a câmara baixa do parlamento alemão, o Bundestag terá uma sessão de 30 minutos sobre a situação política do Brasil. Como a bancada do partido que é tido como herdeiro da ideologia comunista do partido SED, o único na RDA, é a segunda menor dos 4 partidos representados, compondo a atual bancada de 64 parlamentares, conseguiu uma janela temporária de somente 30 minutos e no horário mais ingrato do dia na Alemanha: às 19:55 horas (5+)). O partido exige que o governo federal critique o processo que levou à saída da ex-presidente Dilma Rousseff.

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Ingrato por que?

Já mencionei aqui algumas vezes que o país da cerveja é também o país dos rituais. Um dos ainda sobreviventes, apesar do pós-globalizado, é o noticiário das 20 horas, o Tageschau (O apanhado do dia, em tradução livre) exibido no conglomerado de emissoras abertas, ARD. O caráter agregador em frente á TV nessa hora já persiste há mais de 60 anos. No tempo quando a gente tinha que ir para a frente da TV, era sagrado ter a família reunida para ver o noticiário e saber das notícias do mundo. Assim me lembro também, ainda pirralha, aguardando com toda a família na sala de estar do apartamento da General Canabarro na Tijuca (RJ) aguardando o JN: primeiro a música tema, depois a voz impostada e de timbre grave do Cid Moreira, assim flashes com o brilhante Hermano Henning, com sua desenvoltura habitual, reportando dos remotos cantos do mundo.

Similaridades

Christian confirma que assistir o Tageschau era um ritual que juntava toda a tropilha: o pai, a mae e ao todo, 5 irmãos, até mesmo quando os irmãos começaram a chegar na adolescência e as discussões políticas na família se tornavam mais frequentes e cada vez mais acirradas. “Mas a gente esperava o Tageschau acabar” para começar as discussões”, conta ele. Hoje, bem ao contrário do Jornal Naciona que despendou no quesito qualidade, o noticiário Tagesschau permanece como uma grande referência de informação fundida, excelentemente pesquisada e o melhor de tudo, neutra e mesmo que agora não exista mais a obrigatoriedade de ir até a TV; ela vai até você, onde você estiver e o ritual de assistir ao principal noticiário e o de maior audiência do país, persiste ao tempo e a todo o resto. Os alemães não “somente” sabem jogar futebol. Preservar rituais é uma das maiores habilidades desse povo.

Pra não dizer que não se falou de flores

Não é preciso ter bola de cristal para saber que a chanceler Merkel não estará presente no debate que, por nenhum acaso, me lembra da época de escola primária quando todos os meus colegas de sala já haviam ido embora e eu tinha que repertir o ditado ou a redação sozinha junto com a professora. Talvez isso seja resultado de um intríseco pessimismo alemão e da dialética do copo meio vazio que predomina pelas terras daqui edo qual nem mesmo eu, carioca da gema, esteja permanentemente impune.

Agora é aguardar se, depois da sessão no parlamento na quinta-feira (20), o governo federal alemão se posicioná oficialmente, tanto sobre o afastamento da ex-presidente como também sobre a atual situação política no Brasil.

A sessão será exibida em tempo real pela TV do parlamento, semelhante à TV Senado no Brasil.