Partido da Baviera quer “motivar” estrangeiros a falarem alemão dentro de casa

Fátima Lacerda

13 de dezembro de 2014 | 12h55

 ©DPA

Da perspectiva prussiana, a região da Baviera, mais que isso, seu partido e seus políticos são algo culturalmente tão distantes (a recíproca é verdadeira) que quando se fala no CSU, Partido da União Social Cristã, falamos de extraterrestres.

Logo no início do meu período na Alemanha, em viagem de volta da Itália, tive que baldear na estação ferroviária de Munique. Totalmente perdida, procurando a plataforma da qual embarcaria para Berlim, vi um funcionário da ferrovia passar por mim e indaguei sedenta por informação: “De que plataforma sai o trem pra Berlim?”. Com voz resoluta, um sotaque infame e literalmente em passant, ele respondeu: “Não sei. Berlim é no estrangeiro!”

A ladainha com a língua alemã

Por ser uma das regiões mais ricas da Alemanha, a região da Baviera tem o maior percentual de integração de estrangeiros .Comparando com o caos da política de refugiados e imigrantes (que somam ao grupo de estrangeiros) que atualmente acomete Berlim, a região da Baviera poderia se dar por satisfeita, não fosse a vaidade incontida do diretor do partido, Horst Seehofer, apelidado “O rei da Baviera”, “O nosso cara em Berlim”.

Nesta semana, no preâmbulo da “convenção nacional” do partido, foram divulgados para a imprensa os pontos de ordem a serem tratados nos dois dias de convenção na cidade de Nuremberg. “Estrangeiros devem ser obrigados a falarem alemão também dentro de casa”. Não demorou muito e nas redes sociais,  sobre o #hastag YallaCSU (em árabe, bora CSU!), se multiplicavam comentários de chacota sobre o partido que, durante tantas décadas de existência, ainda não encontrou um discurso ético e que seja caracterizado pela contemporaneidade da situação resultante, por exemplo, da Guerra da Síria, do terror praticado pelo EI e das centenas que chegam todos os dias na costa mediterrânea de Lampedusa. A contemporaneidade, e muito menos a complexidade da situação que se mostra na Alemanha atualmente, ainda não chegou na Baviera. Não interessa que chegue.

Quem quiser viver aqui de forma duradoura deve falar alemão tanto nos espaços públicos como em casa”, instigava a frase polêmica.

A imprensa alemã causou uma avalanche midiática onde só regia esse tema e a polêmica intrínseca dele, com o subtexto: Os Bávaros são mesmo uns roceiros que não entenderam nada.

image-788803-galleryV9-sqte.jpg©DPA

Visita ilustre de “Angelika”, ou “Angelia”?

CDU e CSU são partidos irmãos e isso desde sempre. É de praxe um chefe de um partido visitar a convenção do outro. Porém, neste ano, Seehofer não compareceu à convenção do CDU no início da semana na cidade de Colônia . A vaidade e o medo de ser ser “degradado ao papel de príncipe consorte” no terreno da chanceler, foi provalmente o motivo real de sua ausência.

Merkel não nega fogo

Na manhã de sexta-feira (12), com pompa, circunstância e uma música de ensurdecer, ela foi anunciada pela vice do partido CSU, da seguinte forma: “A chefe do partido da União Social Cristã (CSU), Dr. ANGELIKA Merkel!!!”

Explicando

Um partido que se mostra “preocupado com a língua alemã”, como formulou um artigo manchete do portal Spiegel Online, não conhece muito bem aquela que há 14 anos ocupa o cargo de chefe do partido CDU. O próprio Seehofer, que acompanhou a chanceler em sua entrada triunfal pelo salão, não fez melhor: “Querida Angelia!!!!”.

Mestre no exercício de fazer vista grossa, Merkel fez não notar o erro linguístico fatal e fez a tarefa para qual foi a Nurembergue: “Estou muito feliz de estar aqui”. Elogiou o trabalho com o CUS no atual governo e falou o que os bavários queriam ouvir: sobre o projeto de implementação de pedágio para estrangeiros nas estradas regionais da Baviera. O projeto que em alemão leva o nome de “Maut” foi ideia de Seehofer ainda no período da campanha eleitoral para eleições federais que aconteceram em setembro de 2013.

O poder da Baviera

Num dos dois debates entre os dois candidatos a chanceler em setembro de 2013, perguntada pelo âncora sobre a absurdidade do projeto da cobrança de pedágio para carros com placa estrangeira e se isso seria compatível com os direitos da UE, Merkel, excepcionalmente, ousou um posicionamento claro: “No meu governo, não haverá pedágio algum”.

Um dia depois, numa festa típica da Baviera e regada a muita cerveja, Seehofer com um sorriso maroto, garantiu no microfone: “O projeto de pedágio vai ser realizado”.

Depois de uma maratona política, jurídica e infraestrutural, a “Maut” estar prestes à ser sacramentada numa reunião do gabinete, agendada para o próximo dia 17. “O ministros dos transportes tem a minha palavra…” insinuou Merkel e, como seguro morreu de velho, acrescentou “a nao ser que surgam novos aspectos…”. Mostrando sua ímpar habilidade estratégica, Merkel deixou “uma portinha aberta” para empurrar o criticado projeto com a barriga para o próximo ano.

Correndo atrás do prejuízo

Depois de dois dias de pauleiras midiáticas, a direção do partido modificou o texto do requerimento a ser votado durante a convenção: “Os estrangeiros devem ser “motivados” (e não obrigados) a falarem alemão em casa.

Sem pestanejar, o heute show programa de sátira política com uma audiência de 2 milhões de telespectadores e exibido na noite de sexta-feira (12), fez uma paródia. Um “motivador” foi à casa de duas turcas e um turco. Enquanto o homem tenta de toda a forma “motivar”, os turcos leem o jornal alemão “Die Zeit” (O Tempo) , corrigem o “motivador”, sempre que ele escorrega no dialeto bávaro e até que ele por fim, desiste.

O partido da Baviera e seu “Eei” Seehofer tem mais poder em Berlim do que deveria. Mesmo assim, nunca deixa de escolher um tema polêmico no preâmbulo de convenções nacionais, para a mídia e consequentemente o país, pare tudo para olhar para a escondida Baviera. Para a vaidade de Seehofer, o céu é o limite. Bem menos vale a constituição que prescreve que no artigo número 1: “A dignidade do ser humano é intocável”. Não para o CSU, ainda mais quando se trata de pisar nos mais fracos da sociedade.

Mesmo com o texto anterior modificado, o efeito já está nas mídias e sublinha cada vez mais a incapacidade do partido da Baviera em se atualizar. Seehofer continua querendo vender para seus eleitores, a imagem de que a Baviera é um céu em terra, isento de todas e quaisquer mazelas e caso elas venham a aparecer, ele mesmo “da um jeito” de coabí-las seja isso o infame requerer da obrigatoriedade do uso do idioma alemão dentro das próprias quatro paredes

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