PEGIDA: o bicho de 7 cabeças ficou órfão

Fátima Lacerda

28 de janeiro de 2015 | 20h42

A “brincadeira” com a divulgação da caricatura de Hitler causou no movimento PEGIDA, um efeito dominó pra alemão nenhum botar defeito.

A cronologia

Na semana passada, depois do portal Anonymous ter hackeado, a tese de que a Internet nada esquece e o Post ter ganho o mundo através do tabloide Bild, Bachmann, carro-chefe do movimento teve que pegar o caminho da roça, assim a versão oficial pra inglês ver. Entretanto, por trás das cortinas ele insiste em continuar ditar as regras, o que causou um clima de tensão na Associação.

Paralelamente, alguns integrantes da chamada diretoria começaram a perder clientes em sua firmas. Em termos econômicos, senão políticos, não faz bem a nenhuma empresa estar conectada com um movimento que politicamente acolheu hooligans, neonazistas e eleitores insatisfeitos com os tradicionais partidos políticos e estão se deixando levar para a extrema direita reacionária. 

Paralelamente foi divulgado na imprensa uma nota emitida no dia 26/01 pelo Departamento do Estado americano que adverte cidadãos americanos na Alemanha,a “evitarem grandes multidões em cidades”.

Foram especificamente advertidos turistas com viagem planejada para as cidades de Frankfurt, Munique, Dresden (cidade onde se originou do movimento), Leipzig, Colônia, Berlim como também uma passeata agendada na cidade de Duesseldorf, na segunda-feira de carnaval. Vale mencionar que nas regiões da Renânia do Norte Vestifalia, onde estão localizadas Colônia e Duesseldorf, os foliões tomam as ruas e os bares durante todo o período de carnaval.

OertelAFPimage.jpg©AFP

A casa caiu – de novo

Katrin Oertel, na função de porta-voz era a segunda peça mais importante no jogo perigoso do PEGIDA. Durante semanas, ela foi alvo de sátira nas redes sociais até com tutorial no YouTube. Era posivel aprender como pintar os olhos como a “face feminina do PEGIDA”, uma “PEGIDA Girl”.

No vídeo, em tom de sarcasmo, a tutora explica: “Primeiro de tudo eu tenho que botar o meu cabelo pra trás pra dar um toque severo, pra mostrar que eu gosto de ordem na minha cabeça”.

https://www.youtube.com/watch?v=5Zv-cN9-ea4

Oertel alega dois motivos como causa da renúncia: A indefinição do papel de Bachmann na organização assim como ameaças de morte do grupo de ativistas Antiga, um grupo muito forte e que de fato, realiza uma oposição fora do parlamento.

A equipe organizadora do movimento possuía 12 membros. Hoje renunciaram ao todo 4. O movimento esta de cabeças cortadas.

A renuncia de 4 membros e a teimosia de Bachmann de continuar ditando as regras exibe sem cosméticos a situação de não clareza nas hierarquias do movimento. O cerco esta se fechando e a maturidade política não existente, causa o pânico de sair do navio a deriva.

Enlouquecidos, alguns meios de comunicação do pais já contam com o fim do PEGIDA.

A diretoria caiu e o PEGIDA se mostra mais perdido do que cego em tiroteio. A passeata marcada para essa quarta-feira na cidade de Colônia, foi adiada com a justificativa de que o organizador estaria doente.

O movimento que iniciou em novembro de 2014 já tropeça na própria ambição.

Mesmo que o dia de hoje seja de alívio para o permanente sobressalto em que o país vivia, não se pode subestimar o potencial ante democrático desses que, ao contrário do pleiteado por Merkel em seu discurso de fim de ano, seguiram a convocação para irem às ruas nas segundas-feiras, gritando “Nós somos o povo”, torpedeando a frase que originou da Revolução Pacífica que culminou com a queda do Muro de Berlim.

Em 1989 os alemães orientais foram para as ruas protestar contra um estado opressivo, um ditadura. O grito de “Nós somos o povo” do PEGIDA se refere aos alemães de forma exclusiva, do tipo: Nós alemães é que somos o povo, que merece ser tratado como gente. E não aos refugiados, e não os exilados e ainda muito menos aos muçulmanos que os adeptos do PEGIDA percebem como uma ameaça. Uma delas é  que em alguns anos “fique proibidoa a comemoração do Natal” ou ate mesmo as tradições culinárias corram perigo de extinção. Muitos dos receios e medos vão totalmente de encontro com que dizem as estatísticas. Uma delas, é que a Alemanha, economicamente falando, precisa urgentemente de mão-de-obra especializada devido ao crônico baixo indíce de natalidade e que o o medo da Islamização da sociedade é infundado. Na região da Saxônia (leste do país), por exemplo, somente 1% é adepto do Islã.

Com a casa caindo seria agora o momento propício e urgente da classe politica arregaçar as mangas e mostrar competência frente a uma sociedade divida. As cabeças podem ter caído, mas a ideologia que fez o movimento emergir em velocidade relâmpago, ainda precisa ser combatida. Alguns políticos se mostram a favor do diálogo “com eles”, outros, entre outros o partido esquerdista Die Linke,representado na bancada do parlamento alemão se mostrou totalmente contra.

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