Política e Futebol: A Copa do Mundo, seus retoques, micos e paradoxos

Política e Futebol: A Copa do Mundo, seus retoques, micos e paradoxos

Fátima Lacerda

14 Junho 2018 | 08h57

Mesmo que não seja Al Gusto dos Cartolas, por vezes, a dinâmica dos fatos atropela os seus planos. A Copa da Rússia será uma das mais políticas dos últimos anos. Nem mesmo a cerimônia de abertura, nem mesmo o espetáculo que será seguido pela maior parte do mundo, esconderá os podres do líder russo, Vladimir Putin. Se a Guera na Síria ainda continua, é porque a Rússia apoia o Regime Assad com toda a logística e com arsenal de armas. O Irã e a China, também são atores nesse espetáculo pérfido. Ao invés de posar na no Lounge Vip do Estádio de Moscou, Putin deveria estar frente ao tribunal de Haia, na Holanda, por crimes contra a humanidade.

A Copa da Rússia será a mais cara de todos os tempos. Putin não poupou esforços para, no dia da abertura, recuperar seu Status de força mundial. Durante anos, a comunidade internacional se recusou a considerar a Rússia, desconvidou o líder russo para as convenções do G8 (agora G7) a conversar e dialogar com Putin, tentando lhe mingar forcas. Um desses exemplos são as sanções implementadas pela UE depois da anexao da Crimeia. Seus efeitos são café pequeno para Putin. Ele, que foi chefe da KGB é um excelente estrategista e soube esperar até o seu dia chegar.

Protesto light

Somente o país minúsculo chamado Islândia foi decisivo logo de início. “Protesto diplomático” do torneio na Rússia, ou seja, nenhum membro do alto escalado do governo do país do gelo estará nas arquibancadas durante o torneiro. Os outros chefes de estado deixaram em branco, indefinido. Para manter o ritual, a chanceler alemã já marcou ponto numa visitinha ao campo de treinamento da Nationalelf, na Áustria. Dessa vez, a foto que rodou as redes não foi de Merkel na cabine com um Mesut Özil sem camisa e de cabelos molhados. Nessa foto, Özil está lá no finalzinho da fila da esquerda, só pra constar. Esse mesmo Özil, decerto, preferiria ficar invisível, depois de ter jogado tudo no ventilador ao tirar foto com o ditador turco, aquele que transformou seu pais numa autarquia e deixa jornalistas presos, durante anos, sem uma acusação oficial.

A tradicional receita dos panos quentes

A Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla) fez de um tudo, rezou de pé junto para que o aspecto político da Copa da Rússia fosse artificialmente minguado o máximo possível. No preâmbulo dos jogos as coletivas apresentavam o mesmo conteúdo. Grindel, o presidente, defende que se conquista muito mais “conversando com a sociedade civil”. Texto bonito, mas oco. Entretanto, depois da escapada política dos dois jogadores Ilkay Gündogan e Mesut Özil, o cunho político da Copa, da perspectiva da seleção alemã, foi ao ápice. Cada entrevista dos Cartolas, como também da comissão técnica, mostra a ineficiência na administração de conflitos. O setor de Comunicação Corporativa da DFB assim como seu departamento de imprensa teriam que ser totalmente desfeitos. A note de seus respectivos desempenhos é zero.

Depois de tentar das formas mais infelizes dizimar a “Causa Gündogan & Özil“, como chamada no jargão midiático daqui, Reinhard Grindel, presidente da DFB concedeu uma entrevista na noite de quarta-feira (13). Chegando duas horas atrasado, por estar na reunião de votação dos países que irão sediar a Copa de 2026, Grindel filosofou para a imprensa e entregou uma nova tentativa para (de novo) justificar o ato infame de jogadores de futebol que tem a função e obrigação de serem exemplos para jovens e meninos, muitos deles com tendências nacionalistas na Alemanha. Agora, Grindel atribui as vaias aos dois jogadores (nos jogos amistosos contra a Áustria e a Arabia Saudita) à insatisfação do povo alemão com a política migratória. Segundo ele, desde 2015, ano da crise dos refugiados, a demografia da Alemanha teria mudado, para a insatisfação de muitos, ao contrário da Copa de 2014, quando a expressão de integração da equipe, era “vista de uma forma positiva”. Então é assim: agora a justificativa não é mais que os populistas de direita e os racistas, sempre de plantão nas redes sociais, estejam usando dessa causa para vilipendiar e descreditar o trabalho de integração de décadas. Agora, a culpa é da sociedade. Antes, a culpa era dos torcedores que “só esperavam um motivo” para atacar os jogadores com background estrangeiro. Caso esse argumento tivesse sustância, Grindel teria que ter um olhar crítico para o próprio trabalho de integração da DFB. Como pode um jogador, nascido na Alemanha, crescido e socializado ali e “só por ligações de seus descendentes” fazer exercício de tal analfabetismo político? E isso em tempos que nada é mais privado, nada é mais segredo ainda mais se as pessoas são de interesse público. E não é preciso ter diploma de faculdade para saber que o ditador Erdogan publicaria as fotos. O resto, a Internet se carregou em fazer. Talvez a demissao do técnico espanhol, depois de ter fechado contrato com o Real Madri dê uma trégua para a DFB na pauta “Gündogan & Özil”, mas o jogo de estreia no domingo está chegando. Os torcedores alemaes não esquecem. Nunca.

Antonio Carlos Nunes, o Coronel

A CBF também não jogou bonito ao chegar em Moscou. Logo de cara, o atual presidente, o coronel Antunes (80) foi avisando para o presidente da FIFA, Ginani Infantino , “reservar a taca para o Brasil”. De fato que essa impertinente e teimosa cegueira de que o Brasil deve ser sempre o campeão, como se isso fosse uma lei da natureza não pode ser contabilidade como um “privilégio” de coronéis. Entretanto, depois da surra, da porrada e da humilhação na partida no Estádio do Mineirão naquele 08 de julho, um mínimo de humildade e senso crítico, ainda mais no cargo de presidente e multiplicador, seria de bom tamanho. Mas como a história do Brasil várias vezes já mostrou, coronéis que não deixam barato. Ao contrário do acerto com a FIFA de que a CBF votaria “fechado” com os outros países da América do Su, a favor dos EUA, México e Canadá, o coronel votou no único candidato adversário, o Marrocos. Antunes achava que seu voto fosse secreto, apesar do regulamento ser explícito no contrário. Decerto que o país no norte da África goza de uma cultura de torcidas que deve ser única no mundo além de nunca ter sediado uma Copa, mas os motivos do coronel não foram nem sociais e muito menos de motivação futebolística, mas de despreparo e arrogância, querendo mostrar que o Brasil é independente e que o que se acerta hoje não tem valor nenhum, o bem ratifica o Zeitgeist do futebol moderno, sublinhado pela distância entre Cartolas e torcedorXs, lugar onde contratos estão longe de ter o valor estipulado por escrito e sacramentado com a assinatura. Com essas atitude prejudicial e irresponsável, o coronel causou irritação ao presidente da FIFA, mais que isso, uma crise diplomática. que mal pode esperar a hora de ver o Sr. Antunes pelas costas. Ele, que deveria comandar a CBF até o final de 2019, está com a batata assando. E como bandeira pouca é bobagem, ele também joga no ventilador a imagem da “Nova CBF”, que o já eleito Rogério Cabloco (45), queria apresentar no cartão de visitas. Como teria sido de bom tamanho, Caboclo que agora é Chefe de Delegação já usar a Copa da Rússia para tecer o seu tapete vermelho, angariar credibilidade para os dias de glória que estariam por vir. Mesmo que o adjetivo “Nova CBF” seja nada menos do que um truque marqueteiro, agora Inês é morta.

Divulgação/CBF

Tudo como Dantes no Quartel…

A história se repete: João Carlos Havelange nomeou seu genro, Ricardo Teixeira. Ricardo nomeou o Marco Polo. Esse, por sua vez, preparou o terreno para Rogério Caboclo. Um círculo vicioso que impede qualquer novo começo, a faxina necessária na CBF. Entretanto, a figura patética que o Coronel vem fazendo na Rússia, prejudica e desmerece o trabalho de uma equipe liderada pelo Professor Tite e por uma comissão técnica das melhores e mais engajadas que a Seleção Canarinho já teve e, sim, eles mereciam um presidente capaz, inteligente e visionário e caso contrário, que seguisse o protocolo e fizesse uma boa figura. O trabalho do Tite, merecia isso. Nem mesmo a história conturbada e instransparente da CBF poderia e deveria ser tão ridicularizada. A ideia de aproveitar a Copa da Rússia para melhorar o relacionamento para a FIFA, foi por água abaixo.

Agorar é esperar qual será o próximo tiro no pé que o presidente da CBF irá dar. A Conmebol se encontra hoje (14) para apresentar sua candidatura para sediar a Copa de 2030, uma candidatura conjunta do Paraguai, Uruguai e Argentina a ser votada. O outro candidato é a Inglaterra.