Política e Futebol, as artimanhas para se manter no poder e a rotineira esquizofrenia alemã

Fátima Lacerda

29 de junho de 2018 | 10h30

 Especialmente nesses dias, ao se falar de futebol e da pior campanha que a seleção alemã fez em toda a sua história, não há como não tecer paralelos com a atual situação política do país.

Ao chegarem no Aeroporto de Frankfurt, os jogadores ganharam a manchete “Chegada dos Perdedores” do jornal sensacionalista, Bild.

As artimanhas de tecer o poder não tiveram pausa durante o voo de Moscou para Frankfurt. E como também na política quando a cobra fuma, ela fuma com tudo. O banheiro da classe executiva do voo da Lufthansa estava interditado, estragado, Kaputt. Para dar vazão às suas necessidades biológicas, os 23 jogadores, o técnico, o empresário Oliver Bierhoff assim como Reinhard Grindel, Presidente da Federação Alemã de Futebol tinham que atravessar por toda a aeronave e por torcedores sentado na “Classe de Madeira” (Holzklasse) como prescreve a expressão alemã até chegar lá no finalzinho. Isso sim, humilhação em alto nível!

Durante o voo, a diretoria, o técnico e o empresário chamaram o goleiro e capital Manuel Neuer para conversa Top Secret. Nesse papo acima das nuvens foi sacramentado que os membros da Nationalelf não se deixarão pressionar pelo quarto poder no Estado, a mídia. “A decisão sobre o futuro de Löw será divulgada na próxima semana”. Entretanto, quem ouviu atentamente a declaração de Löw, sempre super estiloso mesmo quando está com a faca no pescoço, presume que ele irá permanecer no cargo e “fazer mudanças radicais”, mudanças essas que ele se recusou fazer desde que assumiu o cargo no final da Copa de 2006. Sua teimosia e renitência em considerar sugestões e conselhos de sua equipe, fazem de Löw o exato antagonismo da renovação que a seleção, mais do que isso, o futebol alemão precisa.

Grindel e sua vista grossa

O Presidente da Federação, Reinhard Grindel, também discursando acompanhado pelo cenário protagonizado pela bandeira do Brasil, embarcou na retórica de quem quer manter o poder. Custe o que custar. Tentanto ganhar tempo, Grindel anunciou para “a semana que vem”, declarações sobre o futuro do técnico e dos planos para “reformar o futebol”. Para isso ele, procurando aliados, declarou querer “integrar os clubes da Bundesliga nesse processo”, os mesmos clubes que ele deixa a ver navios em questões durante o campeonato. E como quem está com a corda no pescoço apela para tudo, Grindel ainda mencionou querer envolver Oliver Bierhoff, que além de empresário executivo da seleção também já preside a Academia do Futebol em Frankfurt que tem previsão de ficar pronta no final do corrente ano.Grindel, Löw e Bierhoff. Os Três Mosqueteiros do Zeitgeist futebolístico, digo, daquilo que o futebol se tornou.

O atual presidente da DFB é muito criticado por seu “estilo rígido” e “sua pouca experiência” no setor futebolístico. Grindel foi membro do parlamento alemão durante 14 anos no partido CDU, o mesmo de Angela Merkel, antes de ser chamado para o cargo de presidente numa época de turbulência, quando estourou o escândalo sobre compra dos votos para que a Alemanha sediasse a Copa de 2006.

Grindel tenta amenizar a ira dos torcedorXs anunciando que não haverá nenhum pagamento de verbas como premiação para a equipe. Tivesse a Alemanha defendido o campeonato, cada jogador receberia um prêmio no valor de 350.00 euros. Agora, a situação mudou. Dos 6,7 milhões que a FIFA irá passar para a DFB, nenhum centavo de euro irá parar no bolso dos jogadores. Esse fator deve, aumentar, ainda mais o clima de discórdia que já vinha reinando na equipe bem antes do início do torneio.

Com as declaracoes dos jogadores que vão gradativamente pipocando na mídia, fica bem claro que a “Causa Gündogan & Özil”, os dois que se prestaram a cabo eleitoral para o ditador turco, Erdogan, que isso abriu um abismo dentro da equipe. Contrariando a pressão midiática, os Cartolas teimavam em afirmar que “a coisa” já tinha sido resolvida. Agora se sabe em definitivo, que a cobra estava fumando o tempo todo.

Também os amistosos contra a Áustria, de onde a Alemanha saiu derrotada e contra a Arábia Saudita mostravam claras deficiências no time, defeitos esses que foram colocados para debaixo do tapete, do tipo: “Quando o torneio chegar a equipe irá mostrar garra!”. O que se viu foi uma equipe velha, sem garra e a teimosia de Löw de apostar em cinco jogadores que foram campeãs do mundo no Brasil e deixar de fora um Leroy Sané (Manchester City) e um Sandro Wagner (FC Bayern).

Além de Löw e Grindel, os membros do Setor de Comunicação, aqueles que depois da vitória da Alemanha foram provocar os suecos no banco, foram punidos pela FIFA com uma multa de 5000 Francos, precisam rodar assim como as cabeças do setor de comunicação e imprensa. A arrogância desses funcionários, incluindo o responsável por credenciais para jogos da Bundesliga, Stephan Eiermann, exibe a reprovável política corporativa de Grindel, assim como a arrogância da equipe na Rússia. A eliminação da equipe alemã não foi “somente” bom para o time brasileiro, já ninguém é Masoquista-Über para segurar a barra de um novo confronto depois do trauma daquela partida no Estádio do Mineirão. A hora irá chegar, mas como dizia o Renato: “Ainda é cedo”.

Depois do fim do jogo contra a Coreia do Sul, eu escrevi uma mensagem curta e grossa para o meu amigo do sul, um experto de futebol: “Meu coração está em festa. A arrogância perdeu”.

Enquanto os torcedorXs ainda estão “lambendo a ferida” como prescreve um ditado popular daqui, a chanceler Merkel se encontra no mais dramático momento em toda a sua vida política. Colocada na parede pelo seu Ministro do Interior, Horst Seehofer, com um ultimato de 15 dias para fechar um acordo, se for preciso, no âmbito nacional para frear o fluxo de migração, a chanceler está correndo atrás do prejuízo e tentando alianças na Europa .Em sua retórica desesperada, em discurso no Parlamento na manhã de quinta-feira (28) ela tentou acoplar a administração do abacaxi que se tornou a questão migratória para a UE e com a qual denominou como “Questão-Chave” para “Europa” tentando assim, acalmar membros da própria bancada que já pedem, em alto e bom som, sua renúncia. Essa ladainha de Merkel não é nova. Na época da rígida polícia econômica com a Grécia e Portugal, ela já fazia uso desse argumento.  É tudo ou nada, mas dessa vez o barco em que Merkel se encontra está cheio de buracos e a piscina de Grindel, o Cartola da DFB, está cheia de ratos. 

Em Enquete feita logo depois da derrota da Alemanha, 55% dos alemães querem a demissão de Joachim Löw e desejam Jürgen Klopp, ex-técnico do Borussia Dortmund e atual treinador do FC Liverpool.

A esquizofrenia alemã, que se alastra por todos os setores da sociedade é que Löw estará sempre associado com a vergonha feita na Rússia, ao mesmo tempo os alemães têm medo de um novo começo, daquilo que é desconhecido e a torturante pergunta: “Quem irá pegar essa batata quente?“. Niko Kovac assinou com os bávaros. Klopp tem contrato até 2019 com o Liverpool. Heyckes, que acaba de sair do FC Bayern para voltar a gozar de sua aposentadoria nao deixaria, de novo, seu chachorro sozinho.Nagelsmann, atual treinador do Hoffenheim e futuro do RB Leipzig ainda está muito cru para tal missão. A procura irá mesmo ser difícil, mas também como diz o povo daqui, em melhor pragmatismo: “Melhor um fim doloroso do que um doloroso sem fim”. Entretanto, assim como com Joachim Löw e com Angela Merkel, continua regendo a premissa e a crença: “Melhor com eles, pior sem eles”.