Politica externa alemã em tom de resignação frente aos conflitos mundiais

Fátima Lacerda

20 Janeiro 2016 | 19h21

FWSAFP_713F5.jpg© AFP

Em coletiva a imprensa estrangeira na Alemanha, realizada no prédio do Ministério das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier se mostrou resignado e sem um plano B para vários conflitos pendentes no mundo.

Steinmeier, um diplomata talentoso e de grande conceito na comunidade internacional, é um dos líderes na lista de popularidade dos políticos do país e tradicionalmente dono de um discurso bem humorado, esperençoso, teimoso na necessidade de encontrar o denominador comum. Na coletiva frente à imprensa estrangeira ele se expressou em tom de desagrado, por vezes, sublinhado uma resignação atípica para o socialdemocrata.

Anteriormente a coletiva, Martin Schaefer, porta-voz do Ministro “avisou” que haveria uma restrição de temas a serem abordados pelos correspondentes, que lotavam o saguão do ministério. “Não e questão de implementar censura, mas gostaríamos de limitar as perguntas e reduzir o foco somente sobre a crise dos refugiados incluindo a UE, a Rússia e Síria“, informou. A pergunta, na sequência, dirigiada aos presentes: “Vocês estão de acordo?” foi de caráter pró-forma. Quem ousaria contrariar em ocasião tão solene?

Surpresa com essa postura restritiva, para dizer ao mínimo, indaguei ao meu lado um jornalista da AP. Florian defendeu a restrição temática: “Vamos supor que na Indonésia tenha havido um golpe militar e o jornalista queira tirar do Ministro um posicionamento sobre isso. Não tem nada a ver”, disse lacônico e totalmente neutro ao que acabara de ouvir.

A crise dos refugiados

“Essa crise não será resolvida do dia pra noite. Precisaremos de tempo e a ameaca de fechar as fronteiras”, como cogita a Áustria e exigem alguns políticos conservadores da Alemanha, “não ajudará em nada a resolução do problema”, assegurou.

Perguntado por mim, o porque da falta de um posicionamento do governo alemão referente as medidas tomadas pelo recém-empossado governo da Polônia, o ministro, visivelmente irritado, disse: “Eu não entendo a sua pergunta”, algo que se diz nas terras daqui quando não agrada o que se acabara de ouvir.

beate-szydlo-debatte-europaeisches-parlament.jpeg.jpg©Patrick Seeger/DPA

Em tentativa pouco sucedida de justificar a ausência do posicionamento até agora, ele generalizou: “A politica externa não funciona só quando você está de acordo com os parceiros”. Entretanto, ao longo do mesmo dia da entrevista que aconteceu nas primeiras horas da manhã de terça-feira, a chefe do governo polonês Beata Szydlo se deslocou de Varsóvia para Estrasburgo para “dar explicações exigidas pela UE” devido as mudanças retrógradas que estão sendo tomadas pelo atual governo. Por vários especialistas e membros do Parlamento Europeu essas medidas resultaram em grandes dúvidas se estão no âmbito do Estado de Direito, especialmente no que se refere a soberania e independência do poder judiciário e do estrangulamento de meios de comunicação públicos quando de posicionamento crítico ao governo. Convencida do seu governo “legitimado pelo eleitor” a chefe de estado se disse disposta em “esclarecer mal entendidos”. A presença de Beata no parlamento foi pró-forma, não dizimou as dúvidas que regiam antes do encontro. A politica do atual governo de Varsóvia executa uma marcha ré na historia, protagonizada por um governo conservador de direita que tem alicerce ideológico dos irmãos Kaczynski, nacionalistas decididos a „dizimar a síndrome de vira-lata dos poloneses“.

Depois da morte de Lech Kaczyński, numa tragédia de avião em abril de 2010, seu irmão gêmeo, Jarosław Kaczyński, decidiu seguir a doutrina longamente sonhada e articulada pelos dois.

Naquele final de semana em Abril de 2010, poucos dias depois da tragédia aérea que matou várias pessoas, durante o fim de semana do luto de um país inteiro, eu estava hospedada no centro de Varsóvia. O luto de 3 dias e o cerimonial de enterro com pompas e muito pathos para Lech Kaczyński  tinha conotação de quem estava enterrando um Redentor, o Salvador da Pátria.

A história como Álibi

Steinmeier tentou justificar a ausência de um posicionamento do governo Berlim frente ao de Varsóvia, cavando no baú da historia: “O relacionamento entre Alemanha e Polônia e algo muito sensível”, disse ele com voz ainda de timbre mais grave, ratificando a seriedade no discurso se referindo ao período do nacionalsocialismo de Hitler e a invasão da Alemanha nazista na Polônia em setembro de 1939.

Steinmeier garantiu que durante a sua estada em Varsóvia na próxima quinta-feira (21), irá dialogar. “Eu mencionei frente ao meu colega polonês que considero extremamente importante que aquilo que temos para criticar reciprocamente, seja falado pessoalmente e não através dos microfones”, disse em tom de aviso ao mesmo tempo que garantiu que “independentemente do governo x ou y, a amizade entre o povo alemão e o polonês, permanecerá” e ainda assegurou: “Eu continuarei a dialogar, não somente com membros do governo, mas com membros da sociedade civile com membros da igreja”, garantiu.

Quanto a minha pergunta, se a UE precisa se arranjar em ter a Turquia “no barco” apesar de todas as medidas anti-democraticas vigentes num país dominado por um presidente déspota, ele confirmou : “Nós precisamos da Turquia” e mandou um aviso: “Contamos com medidas para diminuir o numero de refugiados que escolhem vir para a Europa através da Síria. A recém- introduzida obrigatoriedade de visto para cidadãos sírios que querem entrar na Turquia, é uma delas”, insinuando que a Turquia ainda não fez o trabalho de casa por completo.

A guerra do presidente Recep Tayyip Erdoğan contra os Curdos, as ligações do pais “com o chamado Estado Islâmico”, como intuiu o jornal Neue Passauer Presse logo depois ao recente atentado terrorista em Istambul, a verdadeira barganha do governo turco com os países da UE para “entrar para a Europa”, e em troca de robusta ajuda financeira, manter os refugiados longe das portas da Europa, são algumas das críticas feitas ao governo turco. Ninguém confessa, mas “ruim com ela, pior sem ela”, já que o governo de Merkel sofre imensa pressao, dos partidos contra a sua política de imigração, porém o número de vozes dentro do próprio partido de Merkel, ganham a cada dia, mais protagonistas. O último foi o Ministro dos Transportes, Alexander Dobrindt, membro do gabinete de Merkel e do partido CSU, da Baviera.

Um jornalista da imprensa turca que indagou sobre a atual tensão entre a Rússia e a Turquia depois da derrubada do avião militar russo perto da fronteira com a Síria, colheu a seguinte resposta. “ Eu acho muito procedente a sua pergunta, mesmo porque, eu não tenho a mínima ideia do que osso vai dar. Eu só espero que os partidos voltem a dialogar”. Steinmeier se expressou pela volta do conselho OTAN-Rússia. “Precisam haver mais canais de comunicação para esclarecer os mal-entendidos entre a Rússia e o Ocidente”, sugeriu.

O leste da Ucrânia

Steinmeier se mostrou sem paciência com o ainda regente conflito armado no leste da Ucrânia e, entre linhas, reclamou que os itens do segundo acordo de Minsk ainda não foram cumpridos por nenhuma das partes, apesar do prazo já ter expirado desde o final de 2015. “Como você se legitima? Através de eleições”, disse ele mandando o seu recado.

De acordo com o segundo tratado de Minsk, as medidas já deveriam entrar em vigor no próximo 21 de fevereiro, o que da perspectiva atual, parece nada factível.

No início de seu discurso de saudação aos jornalistas, Steinmeier agradeceu pelo “grande interesse” ao mesmo tempo que, em voz melancólica, refletiu: “Quando o interesse na política externa é considerável, como se mostra aqui nessa sala, é porque as coisas não vão bem no mundo” e acrescentou: “Quem pensava que os problemas fossem embora junto com 2015, se enganou”, disse esboçando um sorriso tímido como se ele próprio tivesse cogitado essa possiblidade.