Produtora Sara Silveira: uma leoa para o cinema autoral de qualidade

Fátima Lacerda

01 de março de 2016 | 17h33

WIN_20160216_173232.jpg © Fatima Lacerda

A voz rouca, decidida e a impressão que manda e desmanda pode assustar quem se encontra na mesma sala que essa baixinha gaúcha de cabelo nas ventas. Eu mesma, já sabendo de sua assinatura em pérolas do cinema autoral brasileiro, hesitei em requisitar uma entrevista até que na noite da festa do Cinema do Brasil durante a Berlinale, o momento havia amadurecido e estava tudo conspirando para uma entrevista promissora . Ela, a entrevista, acabou sendo a soma de um retrato, um olhar consciente, coerente, realista e apaixonado do cinema autoral brasileiro.

Na pista de dança de um dos clubes mais cobiçados da vida noturna berlinense, o Gretchen, eu agendei com Sara Silveira uma entrevista para 17 horas do dia seguinte, no prédio do Mercado do Cinema Europeu (EFM, na sigla em alemão).

Com 10 minutos de atraso, cheguei no estande do Cinema do Brasil e lá estava ela, a postos. Quando me viu, me recebeu com um sorriso cordial. O caminho estava pronto para ouvir as histórias das aventuras cinematográficas de Sara.

Nos minutos em que precisei para colocar a técnica a postos, perdi as contas do número de pessoas passaram por ali e saudaram a produtora mais influente do cinema autoral brasileiro e ainda gozando, de forma constante, de visibilidade internacional. Com um outro ela falava francês, provavelmente derivado de seus estudos na Sorbonne. Esse colega se sentou na mesa e a conversa cada vez mais longa, ameaçava roubar o precioso tempo dedicado para a entrevista. Que nada!

Como se mostrou logo em seguida, Sara faz parte da fração que se mostra um presente para jornalistas que amam o que fazem e que amam o cinema.

Foi através da produção Brasil- Alemanha, o “Girimunho”, um dos filmes mais lindos que eu já vi, que o seu nome  se tornara conhecido por mim e que, teimosamente, se mostrava cada vez mais presente na lista de produção de filmes de excelente qualidade que vieram depois.

O atual, “Mãe Há Só Uma” foi exibido na mostra paralela “Panorama” da Berlinale e marcou o “Vale a Pena Ver de Novo” de Anna Muylaert depois de sair super vitoriosa com “Que horas ela volta?” no ano anterior.

Você é uma das mais corajosas produtoras do cinema brasileiro. Não hesita em correr riscos. Qual é o ingrediente que te faz comprar a ideia de um filme?

É mais um sentimento com os diretores e com as histórias que vejo um caminho pra mim. Eu sempre quero falar de liberdade, sempre irei escolher filmes que transgridam os filmes que sejam ate mesmo, vamos dizer, mais perversos dentro do sentido de uma coisa fora do normal. Eu não gosto de filmes normais. Eu também sei que cinema é entretenimento, mas para isso tem outros produtores.

O nosso cinema de autor do Brasil e um dos caminhos que podemos ter como educação. Esse cinema tem o proposito de tocar na mente do espectador para que ele reaja, de alguma forma, para o crescimento de cada um. Nos filmes que produzo, eu tento dizer, até mesmo empurrar goela abaixo o que a gente quer mostrar. Eu quero quebrar essas resistências para esse tipo de filme apresentando um olhar mais denso.

Você produziu o novo filme de Anna Muylaert. Depois do estrondoso sucesso mundial de “Que horas ela volta” a situação de cineastas mulheres mudou no Brasil?

O mundo já mudou em relação a mulher. Veja o exemplo do Festival de Cannes. Há 4 ou 5 anos houve uma acirrada discussão sobre a falta de uma representação de mulheres. A próxima edição (2016) será em homenagem as mulheres.

Anna (Muylaert) se estabeleceu internacionalmente. Hoje quando eu chegou aqui com “Mãe Há Só Uma” eu venho na esteira desse sucesso. Com os outros filmes dela que eu produzi, eu tinha dificuldade de penetrar no âmbito internacional. Através do Sundance e Berlim, ela penetrou nesse competitivo mercado. A Anna tem uma força, uma chama forte em relação com a temática das mulheres e eu acho que ela está cumprindo esse papel muito correto, fazendo filmes sobre mães e filhos. De novo (!).

A gente vê a questão de perda, chegada, saída de filhos. Me alegro especialmente como mulher em estar participando desse filme, que é feito quase completamente por mulheres. A Anna está tendo uma importante representatividade nesse momento.

E a questão do feminismo? Um fardo pra você?

Outro dia me perguntaram se eu sou feminista. Eu não sei bem a questão feminista como ela é. Eu sou a favor de nos, mulheres, sempre! Sinto que temos que lutar, que temos que nos estabelecer, mas também sinto que a gente esta conseguindo entrar.

O âmbito de produção do cinema autoral brasileiro continua ainda sendo um clube do bolinha?

(Em voz recheada de certeza) Olha, aumentou muito o numero de mulheres no Brasil, hein… (mostra e menciona jovens produtoras também presentes no local, entre elas, Vania Catani e Luana Melgaço). A geração dessas meninas só me ajuda a ter mais vontade. A gente esta aqui esta numa corrente pra frente feminista, né?, joga ela na sala ela aguardando respaldo. Mas o Establishment, exibição e distribuição continua duro de enfrentar, o homem prepondera, mas estamos fazendo o que se deve ser feito: filmes.

Nós, mulheres, falamos a mesma linguagem. A gente cuida de casa, de filhos, de produção. Fazemos isso com mais praticidade do que o homem. Eu gosto muito de homens com alma feminina, educados, elegantes isso não que dizer que sejam homossexuais, mas homens que abram os braços para nós, mulheres. Nessa luta a gente está conseguindo avançar, mas o Brasil tem um lado machista violento, violento…

Um exemplo de uma situação difícil na hora de distribuir um filme?

Os homens se afinam, entre si, mais do que nós mulheres. Conosco tudo é mais conversado. Quando eu pego um filme para distribuir, eu, volta e meia, ouço: Será que vai dar certo, Sarinha? Com o homem é assim: “Topa pegar o meu filme?” e negócio fechado!

Você tem estado presente em festivais de categoria A? Como você vê a situação do filme autoral brasileiro em termos de mercado?

Difícil.

Por que?

Difícil porque justamente tange a distribuição. Encontrar um distribuidor com uma comédia, é claro que ele vai encarar com você o assunto porque sabe que vai fazer bilhete, que vai ganhar mais dinheiro. Porém não e o lado que me interessa, mas as descobertas, as histórias que contamos, sejam essas de homens ou de mulheres. Não pensa que e fácil não!

Quando o filme esta realizado e você vai para a área de distribuição, realmente é um novo caminho, uma nova Seara, um novo enfrentamento e este é o mais difícil e o pior, bem concentrado no setor mais machista.

Em suma: Aventura 1, fazer um filme. Aventura 2, distribuição.

Que venham mais histórias de Annas, Saras, e que um país escondido seja cada vez mais desvendado, como em “Girimunho”.  Mais historia de mães, filhas, amigas, amantes, primas, perdas, conquistas, desilusões, superação. Histórias de mulheres corajosas, guerreiras, mulheres como Sara Silveira, que não temem ousar o politicamente incorreto,  temem um discurso sem papas na língua e muito menos de encarar  projetos corajosos, entre eles, tornar possível cinema autoral de qualidade num país onde o machismo goza de legitimidade, como no Brasil.

 

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=uenHM_kQy3k

 

 

 

 

 

 

Good to know: Como estou em solos cariocas e somente em posse do meu Tablet e não do meu computador principal já que o da ultima vez provou não aguentar o calor do saara, pode ocorrer que faltem acentos em algumas palavras e durante a minha estada por aqui, o texto não terá  formato Block, como de costume.