Próximo presidente alemão será um socialdemocrata: Frank-Walter Steinmeier

Fátima Lacerda

14 de novembro de 2016 | 18h40

O mundo ainda não se recuperou do choque das eleições nos EUA e já se fala, de novo, em presidente? A dinâmica dos fatos não espera e muito menos Angela Merkel dorme no ponto ou se permite um Laisserfaire.

Na política como na “vida real”, quando você não decide ou não tem firme as rédias nas mãos, a vida faz isso por você. “Quem chega tarde demais, é punido pela história constatou de forma sábia o ex-líder da URSS, M. Gorbatchev. Essas premissas obrigaram a chanceler à “morder na maçã amarga”, como diz um ditado popular das terras daqui. Depois de meses de relutância em ceder para os socialdemocratas, Merkel aceitou e sacramentou Steinmeier como candidato da União à Presidência da República. Às pressas, ele retornou de viagem à Bruxelas para Berlim, assim que foi informado.

Outros países, outros sistemas

Ao contrário do Brasil e dos EUA, a Alemanha é governada no sistema de democracia parlamentar, um ensinamento da época do nacional-socialismo e, por sinal, muito coerente até hoje. Na Alemanha o cargo de presidente tem valor de representativo em âmbito interno e externo; assim prescreve a constituição, mas exemplosanteriores mostram que não é bem assim: Richard von Weizsäcker, ex-prefeito de Berlim foi um deles que começou a dar seu peteco em assuntos de ordem político-executiva.

Num passado mais recente foi Horst Köhler (2004-2010)  que por mexer em um tema que é tabu, teve que renunciar por ter declarado, em entrevista de rádio enquanto visitava tropas estacionadas do Afeganistão afirmou em entrevista concedida à emissora de rádio “Deutschlandfunk”que “a intervenção, militar ultramarina” era necessária “para defender interesses econômicos” da Alemanha, “como via de comércio livre”. Por ter “se debruçado demais na janela” (outro ditado popular), estrapolando e muito suas competências, a pressão da mídia como quarto poder no estado e da opinião pública foi chumbo grosso.Só restou ao ex-presidente do Banco Mundial, renunciar.

Steinmeier será privilegiado ao chegar no Bellevue. Encontrará a casa, digo, o palácio, arrumado. O atual presidente, Joachim Gauck (2012-2017) pastor evangélico-luterano da ex-RDA, trouxe de volta o valor e a dignidade que o cargo exige e merece.

Nem tudo que brilha e ouro

Quem habita no Palácio Presidencial, o Bellevue, cravado dentro do pulmão de Berlim, e esbanjando autoridade, precisa um representante também do diálogo, um “construídor de Pontes” como o jargão alemão gosta citar em exemplos dessa natureza.

Depois de rejeitar Steinmeier, falta de alternativa e muita negociação, a chanceler teve que aceitar, juntamente com o partido irmão, o CSU da Baviera, a candidatura do atual Ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, um diplomata, longe de ser perfeito, mas que tem a teimosia da necessidade do diálgo, como seu mais valioso instrumento.. O socialdemocrata foi figura-chave no acordo nuclear com o Irã, que envolveu 6 países e foi firmado em julho de 2015.

Steinmeier, filho de marceneiro, nascido em Detmold, na região da Renânia do Norte Vestfália e que cursou a universidade nas cadeiras de direito e ciências políticas é o politico com maior percentual de simpatia na Alemanha (desbancou Merkel depois de sua guinada em seu estilo de governo no contexto da Crise dos Refugiados).

Um grande homem

Em 2010, quando sua esposa Elke Büdenbender, que trabalha como juíza na área de justiça social em Berlim, piorava cada vez mais de problemas nos rins, e temendo a longa espera para doadores, ele decidiu doar seu próprio rim. Com essa atitude, colheu elogios de adversários políticos e levou a baila a pauta de doação de órgãos no país. O casal tem uma filha em idade adulta, a qual tive o prazer de conhecer em julho passado na recepção anual que o ministro oferece para a imprensa. Por ironia, na noite em que a Alemanha perdeu para a França em etapa decisiva da Eurocopa. Mesmo assim. Steinmeier se mostrou um perdedor digno frente ao também convidado presente naquela noite, o embaixador da França, Philippe Etienne.

As estações de carreira

A trilha política que começou em 1996 quando foi trabalhar em Hanôver com o também socialdemocrata Gerhard Schroeder, quando esse era Ministro Presidente da Baixa Saxônia. Com a vitoria de Schroeder nas eleições federais de 1998, junto com o eleito chanceler, Steinmeier passou a atuar na Chancelaria Federal, como Ministro de Estado e depois, Chefe de Gabinete.

Em 2005, com o partido de Merkel como a bancada mais numerosa do parlamamento e o primeiro governo de Merkel em coalizão com os socialdemocratas, Steinmeier passou para “a primeira fila” se tornando Ministro e Vice-Chanceler. Entre idas e voltas ao Ministério das Relações Exteriores, Steinmeier soma aproximadamente 2500 dias no cargo, o que o torna o terceiro ministro há ocupar a pasta por mais tempo, depois do liberal Hans-Dietrich Genscher o do Verde, Joschka Fischer.

Acidente de percurso?

Não fosse o caso envolvendo Murat Kurnaz, nascido na cidade portuária de Bremen (norte do país) e de pais turcos, Steinmeier teria tido uma carreira sem mais atropelos e sombras do passado.

Em 2002, enquanto o mundo ainda estava sob o choque e o pavor do atentado aos EUA e os governos precisavam mostrar serviço, já que não tinham nem uma resposta adequada nem um plano B, Murat se encontrava no lugar errado, na hora errada e teve que pagar um preço incomensurável por isso. Em 2001, aos 19 anos de idade e depois de sua cerimônia de casamento, ele decidiu viajar ao Paquistão “para aprofundar seus conhecimentos na religião muçulmana”. Caçadores profissionais os venderam aos americanos pela quantia de 3 mil dólares. Murat foi levado, primeiramente, para uma prisão localizada no Kandahar no Afeganistão onde foi vítima de afogamento simulado (waterboarding) e choques elétricos sem que houvesse qualquer acusação contra ele. Na sequência, em 2002 foi transferido para a a prisão de Guantanamo, em Cuba. Sem provas contra ele, o governo americano expressou a intenção de soltá-lo, mas nem o governo turco, nem o alemão quiserem a “batata quente” e levar para a Alemanha um “ex-Guantánamo”. Devido ao ficar em cima do muro naquele fatídico 29 de outubro de 2002 Steinmeier deixou que Murat amargasse 4 anos inocente na prisão mais brutal do mundo.

Somente com a posse de Angela Merkel em 2005, o período de prisão chegaria ao fim. Pessoalmente, a recém-empossada chanceler negociou com os americanos a liberdade de Murat. Uma comissão parlamentar de inquérito instaurada não conseguiu atribuir nenhuma culpa ao então Chefe de Gabinete.

Steinmeier justificou sua atitude, alegando que os serviços secretos classificaram Murat como “perigoso” e supunham que ele teria ido ao Paquistão para se juntar aos Talibãns. “Eu tinha a obrigação de proteger a segurança da Alemanha”, declarou. Nesta mesma época, a Célula Terrorista de Extrema Direita (NSU, na sigla em alemao) aterrorizava o páis com atentados bárbaros à pessoas com background imigratório. O fracasso dos servicos secretos nesse caso, fez rolar muitas cabeças. A imagem de incompetência e o permanente escárnio pela opinião pública e pelos programas de sátira políticas, são certeiros colam até hoje na imagem das repartições, como um impertinente chiclete na sola do sapato.

No âmbito pessoal, Steinmeier, certa vez, declarou: “Eu sinto muito que o aconteceu com esse homem”.

Nas primeiras horas da manhã de segunda-feira (14), quando foi anunciada a nomeação do socialdemocrata como candidato das duas bancadas mais fortes do parlamento, o Bundestag, Murat Kunaz enviou, através de seu advogado, declaração ao jornal berlinense esquerdista Die Taz exigindo de pedido de desculpas: “Até hoje, Steinmeier não veio até a mim para se desculpar. Antes de se tornar presidente, ele deve limpar o seu catálogo de pecados”, instigou Murat. É infactível, mas não totalmente impossível que Steinmeier se deixe tomar pelas sombras do passado.

O eco na imprensa alemã

Sobre a decisão comunicada no início de segunda-feira (14) o jornal Süddeutsche Zeitung, na pessoa de seu redator-chefe no setor de política Heribert Prantl fala de “uma decisão certíssima” da chanceler. Já o jornal conservador FAZ, de Frankfurt, afirma: “Um atestado de pobreza para o CDU”, partido de Merkel que por falta de alternativa de candidatos dentro do próprio partido e pelo adiantado do tempo.

A Assembleia Nacional Constituinte (Bundesvollversammlung) que além dos membros das bancadas, é também compostas por diferentes grupos da sociedade está agendada para o dia 12 de fevereiro, durante a Berlinale.

O portal de jornalismo investigativo e cyber-crítico Netzpolitik considera a nomeação de Steinmeier “uma catástrofe”. A lista publicada pelo portal sobre os fracassos do ministro, é longa. O “Caso Murat Kunarz” é “só” mais um. A mais frequente das críticas é que Steinmeier teria feito vista grossa em assuntos concernentes aos Direitos Humanos e à privacidade do cidadão comum.

A perda de um diplomata XXL

Num mundo “que saiu dos trilhos”, como declarou o próprio Steinmeier, o diplomata seria, mais do que nunca, imprescindível ocupando a pasta de Ministro das Relações Exteriores. Segundo notícias das agências, será o também social democrata Martin Schulz, atual presidente do parlamento europeu, o sucessor na pasta que ganha ainda mais importância depois da vitória de um republicano imprevisível nos EUA. Schulz, atual presidente do Parlamento Europeu é uma péssima escolha no atual carrossel-troca-troca de cargos dos socialdemocratas.Se a disciplina partidária das bancadas prevalecer, Merkel terá “seu presidente”, um mal necessário: por falta de alternativa e por cáuculo político-partidário já pensando em dar seguimento à coalizão depois das eleições federais de setembro de 2017.

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