Escolha de Puigdemont por Berlim pode gerar uma abacaxi político entre Alemanha e Espanha

Fátima Lacerda

08 Abril 2018 | 12h47

©ARD

Sábado (7) às 12 horas. Era o primeiro fim de semana ameno do ano de 2018 e a esperadíssima primavera com temperatura de 19 graus, um dia depois do ex-chefe de governo catalão ser solto da prisão em liberdade condicional da cidade de Neumünster, região de Schleswig-Holstein, norte da Alemanha.

Puigdemont (55), que estava exilado na Bélgica desde outubro de 2017 para fugir da ordem de prisão decretada pelo governo espanhol é acusando de rebelião e malversação. A pena para a o crime de rebelião na Espanha é de até 30 anos de cadeia,

Dia 25/03 o ex-líder da Catalunha estava na Dinamarca (depois de ter visitado também a Finlândia) e, de carro, tentou voltar para a Bélgica, quando na fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca, mas precisamente na Rodovia 7, foi parado pela polícia rodoviária que logo constatou que contra ele, havia uma ordem europeia de prisão.

Depois de 15 dias detido em Neumüster, os juízes da Alemanha decidiram sobre sua soltura, com a condição do pagamento de 75 mil euros de fiança e com a condição de não deixar a Alemanha e todas as semanas se apresentar na polícia. Para o desgosto do governo de Madri, os juízes justificaram a soltura do catalão argumentando que, na legislação alemã vigente, rebelião não é passível de punição. Esse Intermezzo jurídico foi o melhor que poderia ter acontecido ao ex-líder . Por um lado, a Alemanha se livra da responsabilidade e da crítica de manter “um preso político”, como afirmou o fundador da plataforma Wikileaks, Julian Assange, em sua conta no Twitter. Caso tenha que extraditá-lo, Puigdemont so poderá ser julgado pelo crime de malversação ao mesmo a decisao dos juízes de Schleswig, desacelera o ímpeto do governo espanhol no quesito malhação do Judas.

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Chegada a Berlim

Logo depois de deixar a prisão, numa coletiva de imprensa improvisada Puigdemont agradeceu, em alemão, o “apoio e a solidariedade” se mostrou solícito, aliviado.

A coletiva de imprensa em Berlim aconteceu no bairro convulsivo de Kreuzberg e o bairro que mais conta com a população turca da capital. Nas janelas de prédios altos, se mostravam curiosos com tanto burburinho em volta do “Aquarium”, que tem uma história tipicamente kreuzbergiana. A loja em que durante 40 anos eram vendidos peixinhos de todas as cores e tipos e aquários se tornou um centro de cultura para não correr o risco de cair na mão dos abutres imobiliários e se tornar um supermercado ou um mercado de frutas.

Porque a coletiva do ex-líder catalão se realizou logo ali, eu não consegui descobri. Jornalistas sentados em cadeiras que já deveriam estar no lixo, uma neve colorida de microfones na frente da pequena sala exibiam o improvisado. Aliviado e quase sorridente, o ex-líder da Catalunha começou falando catalão, depois mudou para inglês e somente por último, espanhol o que é uma alfinetada-extra no governo de Madri. A rixa linguística e cultural entre Madrid e Barcelona vem desde a ditadura de Franco que durou quase 40 anos.

Quando um jornalista perguntou em que lugar da capital Puigdemont irá morar, a resposta foi lacônica: “A Polícia sabe“, seguida de um sorriso maroto.

A decisão do ex-líder que parece um irmão gêmeo do técnico da seleção alemã de futebol, Joachim Löw, algo que as redes sociais já descobriram há dias. Na noite do jogo entre Alemanha e Brasil, um Twitter nas redes sociais exibia as fotos dos dois focando na semelhanca, especialmente do corte de cabelo. O Post “esclarecia”: “A Polícia Federal já está a caminho do Estádio Olímpico”.

A escolha do ex-líder catalão por Berlim é tática estrategicamente, inteligente e cuidadosa. A ele está garantida, e Berlim, a visibilidade e a certeza do não esquecimento midiático, seu maior suporte e a protecao de um eventual procedimento do serviço secreto espanhol, ao mesmo tempo, como quem não quer nada, pressiona o governo em Berlim para intermediar com Madri.

Tudo o que a chanceler Merkel não precisa agora é uma abacaxi diplomático, já que seu respaldo de popularidade dentro de casa vai minguando a olhos vistos e no âmbito europeu o presidente francês está, aos poucos, ousando a emancipação da chanceler que, no âmbito de reformas da UE, não mostra serviço na rapidez que o ambicioso Macron deseja.

Claro que o ex-líder da Catalunha alegou na coletiva que, de jeito algum, “quer exercer pressão sobre o governo alemão” e também alegou “não interferir na política em Berlim”.Porém ficou bem claro que seu objetivo de que o governo em Berlim ou membros da UE poderão atuar como mediadores, relativizando assim, o ímpeto a gana mas também a força do governo espanhol nesse caso: “É preciso dialogar“, disse ele em Berlim em tom de quem faz uma oferta e que está tentando ser solícito para apaziguar os ânimos.

A escolha por ficar em Berlim foi tudo, menos por acaso. Seus companheiros de luta pegaram o primeiro voo para Berlim. 30 Parlamentares vieram a Berlim para dar apoio ao recém-libertado. As flores amarelas, típicas na Alemanha durante a primavera serviram para sublinhar a pauta. Muitos simpatizantes pela causa da Catalônia usavam uma fita amarela no peito. O hino da Catalônia também foi cantado com a religiosidade de uma semana de Páscoa. Foi Erik, meu colega dinamarquês que, durante anos correspondente em Barcelona (hoje em Berlim) para o jornal “Politiken”, desvendou o mistério ao ser perguntado por mim, que música era entoada com tanto sangue no olho, com tanto ímpeto.

Reação de Madri

Depois do anúncio sobre a soltura do ex-líder catalão, membros do governo conservador de Mariano Rajoy se declararam “irritados e confusos”. Para o Ministro Presidente deve ser doloroso ver seu arquirrival sendo celebrado como um revolucionário para “uma causa boa“.

© Kay Nietfeld/DPA

O governo espanhol também criticou a declaração de Katarina Barley, Ministra Alemã da Justiça, do partido social-democrata (SPD) e recém-empossada, em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung. “A decisão dos juízes em Schleswig foi a mais correta possível. Era isso mesmo que eu esperava“, declarou. O governo de Madri na pessoa do Ministro das Relações Exteriores, Alfonso Dastis, percebeu essa declaração como um jogo de cartas marcadas, como a tentativa de influência da justiça no dilema que já dura anos, o que mostra a cegueira do governo espanhol que ainda não tem nas mãos um Plano B parra resolver, de forma digna e eficiente, a questão da Catalônia. O reativar o decreto da ordem de prisão, sublinha a falta preparo e vontade política do governo de Mariano Rajoy.

Críticas da imprensa alemã

Na Alemanha, as críticas da mídia não são poucas. Oliver Neuroth, correspondente do conglomerado de TV ARD em Madri, desagrada a postura do ex-líder catalão como quem driblou a justiça espanhola com a ajuda da Alemanha. Por outro lado, Neuroth também culpa o governo Rajoy que teria se negado, durante anos, negociar com Puigdemont na premissa do tipo: aquilo que não vejo, não existe.

Cristoph Hasselbach, em artigo veiculado na página da Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha, foi bem mais taxativo: “Quer se separar? Tente! Se der errado, é só fugir para a Alemanha. E vocês, separatistas de outros países europeus, no Tirol do Sul, na Córsega ou onde quer que seja: tentem! Se a coisa der errado, vocês sempre podem se mandar para a Alemanha! A Alemanha é o porto seguro de todos os separatistas!”