Pyongyang é suspeito de usar a embaixada em Berlim para equipar seu programa nuclear

Fátima Lacerda

04 Fevereiro 2018 | 19h41

Nas primeiras horas de domingo (04), a imprensa alemã divulgou fontes da emissora NDR em entrevista com Georg Maaßen, Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV, na sigla em alemão) e que será exibida na íntegra em um documentário denominado “Was treibt Kim Jong-un? (Qual é a de Kim Jong-un?), em tradução livre.

Segundo o presidente da repartição federal, há fortes suspeitas de que Pyongyang venha usando a embaixada em Berlim para adquirir material que seria usado em seu programa nuclear e em sua corrida armamentista, e como ficou claro nos últimos tempos, especialmente contra os EUA. Vale lembrar sobre a recente disputa entre Trump e Kim Jong-un sobre quem detém o maior botão para ativar a guerra nuclear.

O material seria adquirido em vários mercados e as transações de compra seriam feitas por compradores ocultos. O material classificado de uso duplo (para fins civis e militares) seria efetuado de Berlim para Pyongyang pelo instrumento do malote diplomático.

©Bentsch/Reuters

Financiamento do sistema via Berlin

O prédio da embaixada da Coreia do Norte em Berlim tem em seu terreno um Hostel e um Centro para Congressos que protagonizou as pautas da imprensa alemã nos últimos meses por estar devendo à cidade de Berlim, aproximadamente 10 milhões de euros em impostos, além de ser, por determinação explicita do governo norte-coreano, de angariar divisas com a moeda forte (euro) resultante do aluguel dos quartos do Hostel, que se encontra em lugar privilegiado, poucos metros do centro turístico e comercial de Potsdamer Platz. O Hostel contabiliza lucros de 40.000 euros por mês.

A cidade de Berlim entrou na justiça e ganhou contra o governo norte-coreano. Foi acertado um pagamento mensal de 7.000 euros da dívida de impostos e taxas do Hostel e de um Centro para Congressos, todos fincados no terreno da embaixada. O jogo sórdido de Pyongyang continua.

Nem mesmo as parcelas acertadas são quitadas regularmente pelo governo coreano. Devido ao status especial das embaixadas estrangeiras, a cidade de Berlim conta somente com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, que pode implementar sanções, um processo longo e que demora muito para mostrar efetividade.

A “descoberta” do Departamento Federal de Proteção da Constituição chega por demais tardia, já que na entrevista que será veiculada na íntegra na segunda-feira (05), a prática do governo norte-coreano vem sendo executada desde 2014. E esse não é a primeira mostra de falta de eficiência. Um dos exemplos de falta de competência, é o escândalo sobre a espionagem do telefone celular de Angela Merkel, que estourou em 2013 e o BfV foi o último a saber ou o último a confessar que o telefone da chanceler havia sido grampeado, durante anos, pelo FBI.

É no mínimo bizarro, constatar e ainda de forma tardia que as divisas angariadas com o aluguel do Hostel e do Centro de Congressos, são usados para suporte financeiro do programa nuclear do ditador Kim Jong-un.