Quando a coerência de um Presidente se torna um abacaxi eleitoral para Merkel

Fátima Lacerda

06 Junho 2016 | 16h46

Ao meio dia desta segunda-feira (06), horário local, o Presidente da Republica convocou uma coletiva no Palácio Presidencial Bellevue para divulgar o que, desde da noite de sábado (04) já sse tornara um burburinho: Joachim Gauck (76) não almeja uma segunda candidatura ao cargo que ocupa até março de 2017.

A declaração veio, segundo analistas políticos,  tardia e somente depois de grande pressão midiática para que Gauck se pronunciasse se iria se candidatar novamente.

Um ditado muito popular das terras daqui prescreve:” Você deve parar no melhor momento” (quando está no topo): isso serve para um jogador de futebol com Miroskav Klose que terminou sua carreira depois da conquista do tetracampeonato na Copa do Brasil. O que serve para um jogador de futebol, da perspectiva do ditado popular, serve também para âmbitos políticos e corporativos.

A volta da dignidade

Em 2012, ao assumir o cargo naquele domingo ensolarado em data de grande peso histórico, o 18 de março, Gauck dava fim a novela trágica que foi a gestão do seu antecessor Christian Wulff (2010-2012), um politico totalmente sem perfil e desprovido de qualquer empatia e carisma, que gostava de cozinhar em banho-maria, ao mesmo tempo que se mostrara encralacado até o pescoço com protagonistas da igualmente perigosa e influente camada de industriais e gente graúda da cidade de Hannover. Empréstimo na altura de 500.000 euros, oficialmente, de Edith Geerkens esposa de seu amigo Egon Geerkens. No final das contas vazou que a esposa só serviria de laranja e que a verba teria sido vindo diretamente de Geerkens, que foi “convidado” integrar uma delegacao concretizando a troca de favores. Férias em casa de influentes amigos na ilha de Mallorca na Espanha e acusações de ter mentido para o parlamento regional quando exercia o cargo de Ministro Presidente da região da Baixa Saxônia, da qual Hannover é a capital sobre a verdadeira proveniência do empréstimo, foram algumas das muitas encrencas em que Wulff estava envolvido somado a um visível deslumbramento ao exercer o cargo.

O ambicioso Wulff foi um produto frio e calculista de Angela Merkel que precisava de um aliado, um mosca-morta habitando as dependências do Palácio Presidencial. Somente depois de um maratona de 10 horas de votação na Assembleia Geral que as bancadas conseguiram engolir o pau mandado de Merkel. A fatura paga pela chanceler como também pela união saiu cara. No final da contas e depois de muito escândalo, Merkel teve que engolir a candidatura de Gauck. A chanceler queria evitar que o Presidente em gestão não ficasse dando pintados sobre a situação na sociedade e muito menos no andar politico da carruagem. Segundo a constituição, o papel do Presidente é simbólico, mas na prática essa premissa já foi ultrapassada pela dinâmica da realidade, primeiramente com o ex-Presidente Horst Köhler.

Embaixador do diálogo

Além de ser o primeiro Presidente na Alemanha sem ser filiado a qualquer partido, Gauck ainda é casado com a sua primeira mulher. Ao ser eleito candidato, ele rejeitou a possibilidade de, po questões protocolares, se divorciar. Quando chegar o dia 12 de fevereiro de 2017, dia da votação, Gauck terá vivido amigado com a sua companheira, a ex-jornalista Daniela Schadt criando uma precedência protocolar que o rendeu respeito.

A justificativa por não almejar um “segundo tempo” foi revelada na coletiva de hoje (06): “Mais 5 anos de gestão exigiriam de mim uma vitalidade e disposição que eu não tenho como garantir. A dinâmica quando se chega aos 80 anos e diferente da de hoje”, declarou o Presidente. Mas Gauck não seria fiel às suas convicções num pronunciamento que não durou mais do que 3 minutos não tivesse deixado um aviso, melhor, uma promessa: “De acordo com as minhas possibilidades, eu continuarei a contribuir para que a nós consigamos enfrentar os atuais desafios com esperança e positivismo. Nós temos razões de sobra para acreditarmos no nosso futuro”, finalizou o Presidente que, segundo pesquisas divulgadas nesta segunda-feira(6) teria 70% de apoio dos alemães para mais 5 anos.

Um abacaxi eleitoral para Merkel

Devido ao acordo mais do que questionável, para dizer ao mínimo, entre a UE e a Turquia ter reduzido consideravelmente o número de refugiados que conseguem chegar à Alemanha por terra, a batata da chanceler continua assando. “Problemas fabricados em casa” é como denomina a imprensa as constantes picuinhas do Ministro Presidente da Baviera, Horst Seehofer do partido CSU. Divergências ideológicas e a obsessão e vaidade de Seehofer pelo holofote midiático para ratificar para seus eleitores na parte sul da republica que ainda é “o cara” em Berlim. Não se sabe se Merkel suporta ser torpediada semanalmente porque tem a paciência de um monge tibetano ou se por motivos politico calculistas. Com o fim da gestão de Gauck, a médio prazo todos os partidos representados na câmara baixa do Bundestag, do Parlamento alemão, terá que encontrar um candidato ou uma candidata que seja aceita pela maioria e que possa se colocada a votação pela Assembleia Geral, composta além de políticos, por pessoas de relevância na sociedade, incluindo lideres religiosos, representantes de minorias e da classe artística.

Novela sem fim: Merkel x Seehofer 

O “casamento por conveniência” entre Merkel e seu parceiro Junior na coalizão, os socialdemocratas (SPD, na sigla) já exibe sinais de saturação tornando pouco provável um “vale a pena ver de novo” depois das eleições de setembro de 2018. Com a ascensão do partido populista de direita, com atualmente 15% de intenção de votos, as cartas estão na mesa e ninguém, da perspectiva de hoje, ousaria qualquer prognóstico de quem vai coalizar com quem. A mazela mór é que depois do novo Presidente ou Presidenta eleitos é que haverá eleições e não o contrário. Por questões estratégico partidárias seria mais favorável se as eleições que irão formar o novo parlamento antecedessem as presidenciais já que não é de bom tamanho, quando o Presidente no cargo não e um discípulo de Merkel, a chanceler que, Doutora em Física, não gosta nem um pouco de deixar um centímetro de brecha para o acaso. Vai ter mesmo que ser um mergulho no desconhecido. Do resultado da nova constelação do novo parlamento se desmembra as forcas ou fraquezas das respectivas bancadas.

Gauck, o Embaixador, o homem do diálogo, o pastor evangélico luterano e o “caçador da Stasi”, polícia secreta da ex-Alemanha comunista sai numa época em que a sociedade se vê confrontada com um arsenal de desafios. Gauck, ao contrário de tantos outros políticos, será lembrado por ter sido coerente todo o tempo, por ter cumprido tudo o que prometeu antes de eleito. Com a forma e conteúdo no contexto de sua saída, ele, mais uma vez ratifica, que foi o Presidente de todos que vivem na Alemanha, não importando a origem, religião ou classe social. Gauck saiu várias vezes do âmbito de seu cargo de caráter apenas representativo e criticou, entre outros, a política de “portas abertas” para os refugiados, protagonizada por Merkel. “Nós precisamos ajudar (os refugiados), mas nossas possiblidades não sao infinitas”.

Reação nas redes sociais

O chefe dos socialdemocrata, Sigmar Gabriel, lamentou a não continuação do Presidente no cargo. Também, Heiko Maas, ministro da Justiça e membros de toda a sociedade. Angela Merkel se diz triste, mas claro vai “respeitar a decisão do Presidente!”.

Um usuário, não poupando sarcasmo referente aos comentários racistas discriminando o jogador da seleção alemã, Jerome Boateng, zoou:” Boateng para Presidente! Ai o Gauland vai surtar”.

Gauland, vice-chefe do partido populista de direita, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla) foi o autor da declaração em entrevista concedida ao jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung”:”O Boateng e um ótimo jogador, mas a maioria dos alemães não gostariam de tê-lo como vizinho”. Depois do tsunami midiático causado, Gaula afirma que não conhece o jogador e que foi vitima de uma rasteira do jornalista.

Com todo o respeito pela honestidade do atual Presidente, mas o solo politico em que a Alemanha se encontra atualmente não poderia ser o pior momento para o anúncio da saída de Gauck. Porém , ao longo de sua história a Alemanha já superou desafios interminável ente maiores do que a sociedade exige atualmente. Como diz o Presidente:”Ousemos imaginar um futuro”. Hoje o dia e de tristeza e reconhecimento. Porém muito em breve, o quebra-cabeças começará a ser montado no processo de escolha do “candidato mais adequado” para os planos da chanceler.

Ao contrário da briga por um lugar ao sol no Palácio Presidencial envolvendo o antecessor de Gauck quando a mídia começou a cotar essa ou aquela pessoa criando um clima de aposta de “quem vai ser”?, desta vez os analistas políticos presumem que a chanceler irá esperar as eleições regionais que haverão em setembro próximo, igualmente na região da Pomerânia, nordeste da Alemanha assim com a cidade de Berlim. Os resultados dessas eleições irão influenciar indiretamente a constelação na câmara baixa, no Bundestag. Seria cuidadoso e coerente esperar até setembro próximo e não iniciar um leilão “pela briga pelo Palácio” como já exibiu na tarde de segunda-feira (06) a principal manchete do portal Spiegel Online com o artigo: “A guerra pelo castelo (presidencial)”. A mídia alemã ultrapassou a realidade. As especulações dos “candidatos quentes” já iniciou.

Entre os favoritos: o atual presidente da câmara baixa, Norbert Lammert, do partido de Merkel. A favorita mais cotada é a atual ministra do Exército, Ursula von der Leyen, que não faz nenhum segredo de que planeja ser a sucessora de Merkel. Von der Leyen também constava na corrida pelo cargo em 2012, mas foi “cortada” da lista pela própria chanceler. Outro candidato que também já estava na lista anterior é Andreas Voßkuhle, Presidente da maior instância jurídica do país, O Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, localizado na cidade de Karlsruhe, sul do país.